sábado, janeiro 31, 2015

Nós, feitos para as palavras


(Ana Hatherly)

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
(...)
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.


Mário Cesariny, in Pena Capital




Pronunciem-se as palavras, primeiras ou derradeiras, pronunciem-se as palavras.

19 comentários:

  1. Cesariny é um preferido meu...Mas não podemos ficar só pelas palavras!
    Beijinhos,senhora Maria Eu*

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas as palavras só existem porque agimos. :)

      Beijinhos, menina Til! :)

      Eliminar
  2. Olá Maria,
    Palavras tão destemidas, tão contundentes, tão trágicas de tão reais e ordenadas numa cadência que ainda lhes realça mais a força, que não deve, nunca ser refreada.
    E entre nós e elas, algures, está o nosso dever de falar, de gritar para que oiçam.
    Grandioso poema.

    bj amg

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Impressiona, Cesariny, não é, Carmem?

      Beijinhos e um bom Domingo! :)

      Eliminar
  3. A poesia existe para ser dita, não é? Sendo a poesia a(s) palavra(s) em estado puro, deveria ser sempre pronunciada -- e que pena que a maioria dos poemas, a grande maioria, de facto, nunca chegue a evolar-se, em voz.

    Boa noite, Maria.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sem dúvida, Xilre. É a voz que torna vivas as palavras como, por exemplo, esta: https://www.youtube.com/watch?v=1GE1ucR7mGA, lendo um outro poema belíssimo de Cesariny.

      Boa noite e um bom Domingo. :)

      Eliminar
  4. Este poema diz-me muito..
    Palavras... tão boas e tão más, ainda assim "entre nós e as palavras, o nosso dever falar"
    :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Devemos, eu também acho! :)

      Beijinhos, GM! :)

      Eliminar
  5. Entre nós e as palavras, o silêncio cúmplice
    Entre nós e as palavras, o grito que liberta

    Um poema à flor dos lábios

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E que belo, este teu comentário-poema!

      Beijinhos, Rogério! :)

      Eliminar
  6. O Mário pintava a manta com palavras
    O Mário dava cor a todas as palavras
    O Mário não tinha medo das palavras
    O Mário estafava-se em guerras de palavras.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Palavras como as do Mário... só o Mário! :)

      Beijinhos, Agostinho! :)

      Eliminar
  7. Podemos ter muitas palavras para dizer uma coisa que aparentemente é a mesma, mas a verdade é que cada um a diz de uma forma diferente. É por isso que as possibilidades de reprodução do mundo pelas palavras são tantas...

    Bom Domingo, Maria:)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E isso é maravilhoso! :)

      Beijinhos e uma boa semana, Legionário! :)

      Eliminar
  8. As palavras fundidas entre o martelo e a bigorna, batidas, sovadas, ainda assim, palavras.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ainda que articuladas no sopro último!

      Beijo, Uva poetisa! :)

      Eliminar
    2. Sempre as palavras, ainda que possam ser as menos desejadas.

      Beijo, Uvinha poetisa!

      Eliminar
  9. Hoje ando com uma música coladinha a mim que canta isso mesmo, «fala, alminha, ou cala-te para sempre!» - acho que posso resumir a letra assim.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Se calhar seria mais "ou falas, ou levas um murro na boca que até vês a Sra de Fátima em cima da azinheira"! :P :P

      Beijinhos. :)

      Eliminar