quinta-feira, março 28, 2024

Cicatrizes

 

(Henri Rousseau)

Desde pequena que tinha aquele hábito. Fechava-se no quarto, persianas corridas, a ver no escuro.

Menina. O que tanto vês no escuro? Perguntava-lhe a mãe.

Tanta coisa! Tudo o que eu quiser!

Era no escuro que sentia o corpo mais vivo. Ontem, as veias a latejarem de sangue jovem e quente. Hoje, a evidência da idade nas cicatrizes que lhe marcam a pele.

Quedam-se-lhe as mãos no baixo ventre, onde uma une as virilhas, logo se encontrando com duas mais pequenas, simétricas, um pouco abaixo. Não são as únicas testemunhas da frieza do bisturi. Um pulso, um pé… E ainda as marcas de quedas nos joelhos.

Há ainda uma, a mais recôndita e importante de todas, irregular, por vezes dolorosa, traço primeiro de uma vida a rasgar caminho, portal para o mundo de todas as dores e todos os prazeres.


(Mei-Lan, Eternal Soul)