domingo, janeiro 11, 2015

Morrer

(Pablo Picasso)

Metafísica

De cada vez que nos teus braços 
Por uns momentos morro, 
Nos abismos de mim o meu amor pede socorro 
Como se à força alguém lhe desatasse os laços. 

De cada vez apreendo 
Que fica em muito pouco, ou nada, aquele tanto 
Que o querer ter promete, enquanto 
Se não tendo. 

Desejar é que é ter! mas não nos basta. 
Sonhar é que é possuir sem tédio nem cansaços. 
Sei-o, mas só já morto nos teus braços. 
Sofre a carne de ter, ou de ser casta. 

Sobre o desejo farto, a alma se debruça, 
Contempla o nada a que o fartá-lo aponta. 
E atrás do mesmo nada eis que ela mesma, tonta, 
Vai, se a carne reacende a escaramuça. 

Entrar num corpo até onde se oculte 
O para Lá do corpo - eis o supremo sonho. 
De que desejos o componho, 
Se ei-lo se descompõe quando o desejo avulte? 

Sôfrega, a carne pede carne. 
Saciada, 
Pede, ela própria, o que jamais sacia. 
Para de novo se inflamar, é um dia. 

Para de novo desgostar, um nada. 
Ai, como não te amar e não te aborrecer, 
Carne de leite e rosas, - terra inglória 
Do longo prélio-entendimento sem vitória 
Que é carne e alma, ter-não ter?

José Régio






De cada vez é pouco
o que morro em teus braços
Quero morrer sempre mais,
corpo adentro, até ao âmago.




12 comentários:

  1. Onde não há mais um infinito que satisfaça a vontade dos mortais, não há beleza a ser contemplada, nem belos gestos a serem apreciados, ou uma suave voz que lhe fala bem baixo no ouvido a importância de sentimentos jamais sentidos!

    Boa semana, Maria:)

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    1. A busca constante da "completude"!

      Beijinhos, Legionário, e boa semana para ti também! :)

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  2. "Desejar é que é ter! mas não nos basta. "

    "Quero morrer sempre mais,"

    anoto para não esquecer

    estas formas de morrer

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    1. É a morte mais desejada. :)

      Beijinhos, Rogério! :)

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  3. A vontade que morre a cada abraço dos corpos mas que renasce sempre no olhar de quem ama. :)
    Beijinhos Maria

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  4. É a morte que se diz santa.
    antes que decorram três dias
    regressa à vida e nos espanta.

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    1. Uma morte muito particular.

      beijinhos, Agostinho! :)

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