terça-feira, dezembro 31, 2013

Feliz 2014!

     (El barco amarillo, Veronica Byers, Chile)

O ano está quase a terminar. Olho pela janela e a noite desceu rapidamente sobre a cidade. Ontem desceu assim, também, na aldeia onde cresci. Onde havia uma luz meio desmaiada a deixar ver as tangerineiras quase a serem derrubadas pelo peso dos frutos e as camélias a abrir orgulhosamente no verde da cameleira, havia apenas o negrume da noite. Tantas vezes pisei aqueles campos onde apenas vislumbrava pontos luminosos em movimento, projectados pelo automóveis que passavam pela estrada adjacente. Tantas vezes trepei às árvores, brinquei ao esconde-esconde, corri atrás das galinhas, apanhei flores, fiz barquinhos de papel para cruzarem os regos de água... Foram anos felizes. Foram anos com a mãe a fazer biscoitos de canela ao Sábado à tarde, enquanto o pai trabalhava (sempre, sempre a trabalhar, o pai), o cheiro bom da marmelada e da geleia. Não há mais, esses anos...
Mas haverá outros. Haverá, certamente, anos em que eu faça biscoitos ao Sábado à tarde e as crianças cheguem com olhos brilhantes e inocentes a tentar roubar alguns do tabuleiro, ainda quentes. Haverá dias em que o cheiro, o olhar, o toque, sejam intensos e desejados.
Haverá 2014, sem planos, sem declaração de intenções. Por ora, sou feliz. 

FELIZ 2014!

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Do cheiro



 (Egon Schiele)
"Quando perdemos o nosso cheiro somos vadios, como cães sem coleira. O nosso cheiro é aquele que sopra da raiz da pele e tem o nosso nome. É a lingerie mais íntima do corpo, que nos veste por dentro e por fora, mesmo quando nus. E como lingerie que é, também fica por vezes perdido nas mãos de outra pessoa, ou entre os lençóis da cama, mas sempre acabamos por recolher o nosso cheiro, sempre, para revestirmos dele a nossa tez, a nossa nudez, a nossa timidez." 

 João Morgado, in Diário dos Imperfeitos

domingo, dezembro 29, 2013

Inquietação



     (A persistência da memória - Salvador Dali)

Acordara com a estranha sensação de estar a viver dentro de um sonho. Lavara a cara com água que devia estar fria e não sentira sequer um arrepio. Pensando bem, não sentira, sequer, a cara molhada. Tomara duche, penteara-se, barbeara-se, vestira-se. Sim! Sabia que tinha feito tudo isso e, porém, ao passar pelo espelho nada via. Nem a camisola vermelha se reflectia na superfície lisa iluminada pela luz do sol que entrava pela janela do quarto. Desceu as escadas que levavam até à rua fronteira à casa de dois em dois degraus. Ouvira a voz da Ana e queria vê-la. Queria tanto vê-la que quase tropeçou numa pedra irregular do passeio. Ana aproximava-se, sorrindo, como lhe era habitual. Um sorriso aberto, límpido. Ele olhou-a, parado no meio do passeio, e atirou um "Bom dia, Ana!". Ela passou bem rente a ele e nem pestanejou, o sorriso inalterado, os passos certos e ritmados que lhe davam o ar elegante que ele tanto admirava. Cabisbaixo, regressou ao quarto e foi então que se viu, deitado na cama, num sono aparentemente tranquilo...

Heaven

           (Lovers - Jarek Peczel)

Viam-se com a ponta dos dedos, com o eco das vozes...

sábado, dezembro 28, 2013

Viagem

Perguntei ao servo Leo por que motivo possível os artistas pareciam, por vezes, só seres meio-humanos enquanto as suas imagens tinham um aspecto tão incontestavelmente vivo. Leo olhou para mim, admirado com a minha pergunta. Depois largou o cão de água que levava ao colo e disse: "Com as mães também é assim. Depois de terem dado à luz os filho, dando-lhes o seu leite e a sua beleza e força, tornam-se então pouco vistosas e já ninguém pergunta por elas."
"Isso é muito triste", disse eu, sem propriamente pensar muito nisso.
"Eu penso que não é mais triste do que todas as outras coisas", disse Leo, "talvez seja triste, e também é belo. A lei assim o quer."
"A lei?", perguntei cheio de curiosidade. "Que lei é essa, Leo?"
"É a lei de servir. Aquele que quiser viver durente muito tempo tem de servir. Todavia, aquele que quiser dominar poderosamente, não vive muito tempo."
"Porque é que todos anseiam, então, por poder e domínio?"
"Porque não o sabem. Há poucos que nasceram para dominar, estes permanecem alegres e saudáveis. Os outros, porém, os que só se fizeram Senhores através da sua ambição desmedida, acbam todos no nada."
"Em que nada, Leo?"
"Por exemplo, em sanatórios."
Percebi pouco dessa conversa, mas mesmo assim, as palavras ficaram na minha memória, e no coração fiquei com uma sensação de que este Leo sabia muita coisa, que sabia provavelmente mais do que nós, que éramos aparentemente seus Senhores." 

Herman Hesse, in "Viagem ao País de Amanhã"

             (© Leszek Paradowski)

Procuramos respostas às nossas dúvidas em viagens por dentro de nós, da nossa vida, dos que cruzam os nossos caminhos. Viajamos em busca do auto-conhecimento, da Luz.

sexta-feira, dezembro 27, 2013

Caminhos

A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo
sismos, orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.



Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.



Nos desertos - íntimos, insuspeitos -
já caem com a calma as avestruzes
- ou a distância, com os oásis, finda;



à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego, e à vinda.

Luíza Neto Jorge, in "Quinze Poetas Portugueses do Século XX"

       (Maria STT)

E é com a raiva de uns dentes afiados que eu rasgo o caminho até ao êxtase.



quinta-feira, dezembro 26, 2013

Luz



                             (Moussin Irjan)



"- Acendo a luz?" perguntou-lhe, ao entrar na porta à sua frente.

"- Não é preciso. Tu iluminas os lugares!" respondeu-lhe.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

Estrela

UMA ESTRELA VULGAR

Fornalha nuclear
de erupções, plasma,
vento, rudes
explosões de hidrogénio:

deus
marcado por estigmas
- essas pequenas e negras
manchas solares.


António Osório


(Fintan Whelan)

Quero uma estrela, ainda que não passe de uma estrela vulgar. Quero uma estrela para me iluminar.

Escravos

« Je doute que toute la philosophie du monde parvienne un jour à abolir l'esclavage; on en changera tout au plus le nom.» 
Marguerite Yourcenar,in "Mémoires d'Hadrien"

Hoje, como ontem, a escravatura existe, muito para além das grilhetas de ferro. O homem encontra sempre forma de contornar a liberdade dos outros homens.


segunda-feira, dezembro 23, 2013

Uma canção de amor, pelo Natal.

FELIZ NATAL!
(Marc Chagall)

 Come again: sweet love doth now invite,
Thy graces that refrain,
To do me due delight:
To see, to hear, to touch, to kiss, to die,
To die with thee again in sweetest sympathy.

Come again that I may cease to mourn,
Through thy unkind disdain,
For now left and forlorn:
I sit, I sigh, I weep, I faint, I die,
In deadly pain, and endless misery.

All the day the sun that lends me shine,
By frowns do cause me pine,
And feeds me with delay:
Her smiles, my springs, that makes my joys to grow,
Her frowns the winters of my woe:

All the night, my sleeps are full of dreams,
My eyes are full of streams,
My heart takes no delight:
To see the fruits and joys that some do find,
And mark the storms are me assign'd,

Out alas, my faith is ever true,
Yet will she never rue,
Nor yield me any grace:
Her eyes of fire, her heart of flint is made,
Whom tears nor truth may once invade.

Gentle love draw forth thy wounding dart,
Thou canst not pierce her heart,
For I that do approve:
By sighs and tears more hot then are thy shafts:
Did tempt while she for triumph laughs.

domingo, dezembro 22, 2013

E se uma mão emergisse da terra para mudar o Mundo?


Mano del Desierto é o nome de uma escultura gigantesca do escultor chileno Mário Irarrázbal que surge no horizonte do deserto de Atacama, no Chile. Como se essa mão viesse de dentro da terra para mudar o Mundo!
Ah! Se acontecesse finalmente qualquer coisa!
Se de repente saísse da terra um braço

e atirasse uma rosa
para o espaço!

Mas não.

Lá está o sol do costume
com a exactidão
duma bola de lume
desenhada a compasso...

...sol que à noite continua
a andar em redor
nas entranhas da lua
- que é sol com bolor...

e desde que nasci,
haja paz ou guerra,
nunca vi outra coisa.

Ah! Como queres que acredite em ti
- braço que hás-de romper a terra
e atirar uma rosa?

José Gomes Ferreira

La Grande Belleza

Jep Gambardella, 65 anos, escritor e jornalista, à procura da grande beleza para escrever de novo, numa Roma decadente, onde pululam todos os estereótipos humanos.

 

"-Amanhã vou fazer desaparecer a girafa!"

"-Então faz-me desaparecer a mim!"

"-Eu não faço desaparecer pessoas, Jep, é um truque!"

sábado, dezembro 21, 2013

De quando em vez...

De quando em vez, a voz da minha mãe à mistura com os raios de sol por entre as oliveiras. De quando em vez, os risos cristalinos de meninas e o chapinhar da água no rio. De quando em vez as tiaras de malmequeres amarelos. De quando em vez, a infância...

wish I was small in sunny days
a summer light breeze could lead me further
someone would call from beyond the maze
of winter freeze and draw me to her
eyes that are grey can't see behind the stains
of blurring stars and bleeding sun
I wish I could stay or silence the rain
the solid bars of all that's undone

nights in the snow when all you know
is a velvet breath and all you long for
light is the stain a ball without a chain
the sweetest death might make you strong
your gaze becomes ice two crystal roller dice
the trembling ground what have you done
I wish I could wake as the walls start to quake
from the impossible sound of air that leaves the sun
a summer breeze begun
of air that leaves the breathing sun

O leip-bya

"O leip-bya é uma espécie de espírito, com asas como uma borboleta, mas voa de noite. (...) Há birmaneses que dizem que a vida de um homem se encontra num espírito que é como... uma traça. O espírito fica dentro do corpo, o homem não pode viver sem ele. Os birmaneses também dizem que o leip-bya é a razão por que sonhamos. Quando um homem dorme, o leip-bya sai-lhe da boca e voa de um lado para o outro e vê coisas durante essa viagem e essas coisas são os sonhos. O leip-bya tem sempre de regressar para dentro do homem pela manhã. É por isso que os birmaneses não querem acordar as pessoas adormecidas. Talvez o leip-bya ainda esteja longe e não possa voltar para casa com a rapidez suficiente. (... ) Se o leip-bya se perder ou, se durante a viagem for apanhado e comido por um bilu... como é que se diz?... um espírito maligno... então é o último sono desse homem." 

Daniel Mason, in O Afinador de Pianos


                                    (Foto de Carmelo Blázquez Jiménez)

Se vires uma borboleta a sair da boca de um homem, segue-a e saberás os seus sonhos.
Se vires uma borboleta a entrar na boca de um homem, não o perturbes, são os seus sonhos a invadi-lo.

quinta-feira, dezembro 19, 2013

O perigo no corpo ao lado

O dorso sob a luz o ar os dedos
a pele intensa de suor e fogo
o mar a primavera rompe o dorso
nocturno sob o fogo a lama o sol



O dorso sob
um beijo a electricidade  fria da noite
lábios subindo a encontrar o corpo
suor e água pó montanhas altas



humedecendo o dorso
o sentido da carne o frio
o rio aberto


vector
o dorso o olhar o fogo
o dorso todo humedecendo o beijo

Gastão Cruz 

  (Gérard Schlosser_paintings_artodyssey)

quarta-feira, dezembro 18, 2013

Epístola amorosa


        (Eva Christin Laszka - Fluid)

"Mas eu passei e vi-te. Só que o ver-te nem sempre descobre o mistério de ti, o leve milagre que me paralisa. E não me digas outra vez que a adolescência passou. Cresci tudo para lá dela mas tu não mudaste no eterno de ti. Ou mudaste na intensidade do que veio vindo contigo até esta hora final. Mas nem sempre te mereço, não será? para que apareças sempre no invisível que transborda do teu visível, o que sobra dele e ilumina o ar."

Vergílio Ferreira, in Cartas a Sandra

terça-feira, dezembro 17, 2013

Bem querer

         (© Rosita Delfino)  

O que há de bem no bem querer é a imensidão do querer bem.

Antes um sapo


(Yasmin Javidnia - Globalization)


"Think as I think," said a man,
"Or you are abominably wicked;
"You are a toad."

And after I thought of it,
I said "I will, then, be a toad."

"Pensa como eu," disse-me um homem,
"Ou és abominavelmente perverso;
"És um sapo."

E depois de pensar nisto,
Disse-lhe, "Serei, então, um sapo."

Stephen Crane, in "The black riders and other lines"
Tradução de Hélio Osvaldo Alves

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Desejo

O desejo do corpo é entrar em si mesmo
e de onda em onda ser uma onda só
que se liberta de todas as amarras
e abre as suas rígidas comportas

Longo subtil e macio é esse gozo
de um túmido movimento que desagua no delta
da nudez extrema em que o corpo encontra
o seu próprio corpo como se fosse um outro

A palavra não pode encontrar-se a si mesma
como se fosse de si mesma outra
porque ela não é um corpo e mesmo quando se despe
a sua nudez é só o anúncio de um corpo inatingível

António Ramos Rosa 

                                       (Angélina Nové)



domingo, dezembro 15, 2013

Porque sim


"-Pardon my enthusiasm! 
  -I like your enthusiasm!"

Até que me ames outra vez

                                     (©2013 by The Dirty Gentleman)
 
Cada manhã é o renovar das lembranças doces e insanas. Do teu corpo sinto o calor, o cheiro, o sabor. De ti ficam a intensidade do olhar, o sorriso, o som das palavras. São estas que me acompanham até que renovemos a ternura dos nossos corpos enlaçados.

sábado, dezembro 14, 2013

Distância


(© Matthew Howard)

Ela tinha nas mãos o cheiro dos jasmins e no olhar a luz de um dia claro de Verão. Ele já não tinha olfacto e usava sempre óculos escuros.

sexta-feira, dezembro 13, 2013

Livrai-me, Senhor!

Libera me

Livrai-me, Senhor
De tudo o que for
Vazio de amor.

Que nunca me espere
Quem bem não me quer

Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem.

E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação.


Carlos Queiroz

                         (Irena Desovska Belcovski)

Livrai-me, também, de todos sonhos que não sejam púpura e de todos os dias que não tenham, pelo menos, uma pincelada de azul.

quinta-feira, dezembro 12, 2013

Tourada

            (Pablo Picasso - Tourada)

Aquando do anúncio idílico de que ficaremos livres da Troika em Junho, recorda-se Sophia, na grandeza e argúcia do seu pensamento.

FRAGMENTO DE "OS GRACOS"

Os ricos nunca perdem a jogada
Nunca fazem um erro. Espiam
E esperam os erros dos outros

Administram os erros dos outros
São hábeis e sábios
Têm uma longa experiência do poder
E quando não podem usar a própria força
Usam a fraqueza dos outros
Apostam na fraqueza dos outros
E ganham

Tecem uma grande rede de estratagemas
Uma grande armadilha invisível
E devagar desviam o inimigo para o seu terreno
Para o sacrificar como um toiro na arena


Sophia de Mello Breyner, Obra Poética
 
 



MAIOR, AMOR

                          (Montserrat Gudiol i Corominas)
 
Gosto da palavra AMOR. Dizem-me que AMAR é melhor, que contém a palavra MAR. 
Ah! Mas Amor contém MOR que quer dizer MAIOR. E assim fica AMOR, MAIOR que o MAR de AMAR.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

Viagem


Onde as mãos não chegam, cheguem as palavras
onde os lábios não tocam, toquem os violinos
para que cheguem e toquem, antecipadas
as viagens que demandam seus destinos

Onde as naves não acostam, sem entraves
acostem, livres de todo o perigo
os desejos , os sonhos mais tenazes
e as vontades que ainda buscam seu abrigo

E assim, fora do alcance do inalcançável
a noite impenetrável tornará visível
que tudo o que é provado foi improvável
e tudo o que existe é filho do impossível
António Gil 
                               (Andrey Sokolov)

Aportar nos teus braços, ser centelha no teu olhar, fogo nos teus dedos, lava no teu corpo. Tornar visível o desejo invisível.

terça-feira, dezembro 10, 2013

Olhares



           (Karen Severson)

- Vi um pássaro com olhos de gente.
- E como soubeste tu que os olhos eram de gente e não de pássaro?
- Porque falaram com os meus!

Do AMOR do avesso


(Dora Brateli)


No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)

Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto:
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso


Ana Luisa Amaral, in «366 poemas que falam de amor»


domingo, dezembro 08, 2013

Destino



             (Eros e Psyché - Héloise Delègue)

Pegou-lhe na mão com doçura e virou-lhe a palma para cima. Com o dedo indicador da mão direita perseguiu o emaranhado de linhas; a do coração, a da cabeça, a da vida, a do destino... Parou num ponto e disse: - Aqui, neste cruzamento da linha da vida com a do destino, sou eu. Aqui, entro na tua vida. 
Ela sorriu, retirou a mão das dele e disse: - Agora é a minha vez! iniciando a leitura das linhas dele.
Olhou-as. Desenhou-lhes o contorno, parando ponto a ponto. Olhou-o nos olhos, dizendo: - Nestes pontos todos, sou eu. No teu passado, no teu presente, no teu futuro. E ali (apontou para fora da mão), sou eu, ainda, em todas as tuas vidas, daqui para a frente.

sábado, dezembro 07, 2013

Tango de dois corpos e duas almas

Viram-se pela primeira vez à saída da Cinemateca.
      Era sem dúvida ao fim da tarde; era talvez em meados de Outubro. Conversaram sobre os filmes a que esperavam assistir no dia seguinte e foram depois jantar a um pequeno restaurante perto da Grand'Place: tacitamente ambos escolheram, como sobremesa, um êxtase comum e silencioso diante das opulentas fachadas cobertas de ouro. Logo a seguir perderam-se, entontecidos de nardo e de jasmim, por entre as labirínticas ruelas do Barrio de Santa Cruz. Só voltaram a orientar-se quando a uma esquina divisaram, soturna e esbelta nas suas ameias, a inconfundível torre do Palazzo Vechio. Então encaminharam-se para o centro: uma espessa e ruidosa multidão atravancava, àquela hora, os passeios da Kurfurstendamm, as esplanadas da Via Veneto, as imediações da Place Pigalle. E logo nessa noite ele a acompanhou a casa - que era uma espécie de mansarda, muito sofisticada e quase luxuosa, a dois passos da Platia Omonias, a dois passos de Sloane Square. E logo nessa noite dormiram juntos.
(...)
"Amor, meu amor...", começou ele a segredar, como se houvesse descoberto um ouvido na anca de Rossana; e a seguir, sempre em segredo: voy por tu cuerpo como por el mundo, | tu vientre es una plaza soleada, | tus pechos dos iglesias donde oficia | la sangre sus misterios paralelos...

David Mourão-Ferreira, in Os Amantes e outros Contos (A Boca)
Piedra de sol
(Fragmento)

…voy por tu cuerpo como por el mundo,
tu vientre es una plaza soleada,
tus pechos dos iglesias donde oficia
la sangre sus misterios paralelos,
mis miradas te cubren como yedra,
eres una ciudad que el mar asedia,
una muralla que la luz divide
en dos mitades de color durazno,
un paraje de sal, rocas y pájaros
bajo la ley del mediodía absorto,

vestida del color de mis deseos
como mi pensamiento vas desnuda,
voy por tus ojos como por el agua,
los tigres beben sueño de esos ojos,
el colibrí se quema en esas llamas,
voy por tu frente como por la luna,
como la nube por tu pensamiento,
voy por tu vientre como por tus sueños…
(Octavio Paz)
- See more at: http://www.radiomas.mx/voy-por-tu-vientre-como-por-tus-suenos-octavio-paz/#sthash.PjuxTUZv.dpuf
                                                 (hot night - Stephan Kuhn)
 (...)
voy por tu cuerpo como por el mundo,
tu vientre es una plaza soleada,
tus pechos dos iglesias donde oficia
la sangre sus misterios paralelos,
mis miradas te cubren como yedra,
eres una ciudad que el mar asedia,
una muralla que la luz divide
en dos mitades de color durazno,
un paraje de sal, rocas y pájaros
bajo la ley del mediodía absorto,

vestida del color de mis deseos
como mi pensamiento vas desnuda,
voy por tus ojos como por el agua,
los tigres beben sueño en esos ojos,
el colibrí se quema en esas llamas,
voy por tu frente como por la luna,
como la nube por tu pensamiento,
voy por tu vientre como por tus sueños
(...)
Fragmento de "Pedra de sol", Otavio Paz
Piedra de sol
(Fragmento)

…voy por tu cuerpo como por el mundo,
tu vientre es una plaza soleada,
tus pechos dos iglesias donde oficia
la sangre sus misterios paralelos,
mis miradas te cubren como yedra,
eres una ciudad que el mar asedia,
una muralla que la luz divide
en dos mitades de color durazno,
un paraje de sal, rocas y pájaros
bajo la ley del mediodía absorto,

vestida del color de mis deseos
como mi pensamiento vas desnuda,
voy por tus ojos como por el agua,
los tigres beben sueño de esos ojos,
el colibrí se quema en esas llamas,
voy por tu frente como por la luna,
como la nube por tu pensamiento,
voy por tu vientre como por tus sueños…
(Octavio Paz)
- See more at: http://www.radiomas.mx/voy-por-tu-vientre-como-por-tus-suenos-octavio-paz/#sthash.PjuxTUZv.dpuf
Piedra de sol
(Fragmento)

…voy por tu cuerpo como por el mundo,
tu vientre es una plaza soleada,
tus pechos dos iglesias donde oficia
la sangre sus misterios paralelos,
mis miradas te cubren como yedra,
eres una ciudad que el mar asedia,
una muralla que la luz divide
en dos mitades de color durazno,
un paraje de sal, rocas y pájaros
bajo la ley del mediodía absorto,

vestida del color de mis deseos
como mi pensamiento vas desnuda,
voy por tus ojos como por el agua,
los tigres beben sueño de esos ojos,
el colibrí se quema en esas llamas,
voy por tu frente como por la luna,
como la nube por tu pensamiento,
voy por tu vientre como por tus sueños…
(Octavio Paz)
- See more at: http://www.radiomas.mx/voy-por-tu-vientre-como-por-tus-suenos-octavio-paz/#sthash.PjuxTUZv.dpuf

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Só neste país

Era uma vez um país. Nesse país, os meninos tinham um manual único onde toda uma ideia de sociedade lhes era transmitida. As mulheres eram sempre donas de casa, asseadas, preocupadas com o marido e os filhos. Os homens eram trabalhadores, iam à tropa e faziam-se respeitar. Os meninos eram sempre limpos e felizes, mesmo que pobrezinhos. A aldeia era o melhor lugar do mundo para se viver e ninguém comia ou dormia sem louvar a Deus.
Era uma vez um país em que os meninos e meninas tinham entradas diferentes para a escola, recreios diferentes, mas livros iguais, nos quais "ignorante" e "pobrezinho" eram sinónimo de alegria!

A vida no campo

O Manuel António desde pequenino começou a gostar da vida no campo.[...]
Mais tarde, quando já andava na escola, aproveitava as horas livres para ir fazer companhia ao pai e ajudá-lo nas fainas da lavoura.
Às vezes, na hora da labuta, ouvia a voz do pai a cantar atrás dos bois enquanto o arado ia rasgando a terra. As margaças e o terrunho ainda fresco lançavam no ar tépido aromas sadios; e nessas ocasiões o Manuel António, extasiado e pondo os olhos no pai, sentia crescer lá dentro de si uma grande vontade de ser lavrador.
Quando chegou à idade, foi para soldado. Voltou à sua terra cheio de saudades do pai, dos bois e das lavradas. Casou. Tem hoje um rancho de filhos. Trabalha e é feliz. Na aldeia todos o respeitam.


A Joaninha

A Joaninha, logo que se levanta, lava-se, penteia-se, veste-se e calça-se.
Quando vai dar os bons dias aos pais, quase sempre a mãe lhe compõe um pouco melhor o laço da cabeça.
Reza as suas orações, almoça e vai para a escola.
Pobrezinha, mas muito lavada, vestido sem nódoas nem rasgões, é um
encanto vê-la, de olhos pretos, pele morena e cabelos lisos.
À tarde, faz os trabalhos indicados pela sua professora e ajuda a mãe nas lidas caseiras. No arranjo da casa é desembaraçada, e já consegue dar beleza às coisas.
Na cozinha faz, quando é preciso, qualquer refeição de que todos gostam.
Depois da ceia, limpa o calçado, arruma na saca tudo o que no dia seguinte há-de levar para a escola, dá as boas noites a todos e, depois de se encomendar a Deus, deita-se e adormece muito sossegadamente.

Livro de Leitura da 3ª classe, Edição de 1958.

Há uns 10 anos atrás, entrei numa loja de uma vila deste país. Em cima do balcão, uma resma de livros com uma capa no mínimo estranha para os dias que correm. Livro de Leitura da 3ª classe, rezava a dita capa, com três meninos de bandeira em riste, uma delas empunhada pelo orgulhoso rapazinho da Mocidade Portuguesa. Questionado o vendedor sobre tal quantidade de manuais de 1958, e julgando que a saudade tinha atormentado os quarentões a ponto de os querer fazer comprar mais do que um exemplar, a resposta foi: Há uma senhora professora que só quer ensinar por este livro! Diz que este é que é bom!

Azul

If I should cast off this tattered coat, 
And go free into the mighty sky;
If I should find nothing there
But a vast blue,
Echoeless, ignorant, -
What then?

(Alpine figure,  Arsen Bereza)

Se eu atirasse fora este casaco em farrapos,
E voasse livremente para o firmamento poderoso;
Se não encontrasse lá nada
A não ser um vasto azul,
Sem eco, ignorante, -
Que faria eu?

Stephen Crane, in  "O sapo no horizonte", Tradução de Hélio Osvaldo Alves


Nada. O firmamento não é azul.

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Sim, sou banal. Mandela morreu.

Banal. Será hoje o que serei. Milhões darão esta notícia. Banal, então, serei. 

 "Ninguém nasce a odiar outra pessoa pela cor da sua pele, pela sua origem ou ainda pela sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar."
Nelson Mandela (1918-2013)

Transfiguração

Há mulheres que escolhem viver como homens. Na Albânia, as "burneshas", decidem viver como se fossem homens, fugindo a um destino de casamentos arranjados pela família. Para isso, de acordo com um costume ancestral que já data do Séc. XV, fazem voto de virgindade, cortam o cabelo, usam roupas de homem e copiam-lhes os gestos e as atitudes. As "burneshas" perdem a sua condição de mulher mas passam a ter os mesmo direitos que o homem (ter negócios, usar armas, conduzir e votar).
(Fotografia de uma "brunesha" por Jill Peters)

Há mulheres que escolhem ser homens porque só os homens "são"!

quarta-feira, dezembro 04, 2013

Cura

Vem, meu amor 
deixa que te dispa 
deixa que te toque ao de leve 
como se fosses uma borboleta 
Dedos suaves na tua pele 
limparei as tuas feridas 
passarei um bálsamo nas cicatrizes 
Farei com que te cresçam asas... de novo!


 

segunda-feira, dezembro 02, 2013

Miopia


(Blue Monday, Patricia Derks)

Ana era extremamente míope. Tinha por costume tirar os óculos quando saía de casa por se julgar mais bonita sem eles. Assim, via o que lhe parecia, ainda que o que lhe parecia não fosse o que veria sem a miopia...
Os óculos da Ana não lhe tinham trazido muitas alegrias. Era muito mais feliz desde que os deixava na gaveta da cómoda e via tudo como se estivesse numa nuvem.

domingo, dezembro 01, 2013

Das palavras amarelas

(Francis Picabia - Uma mulher feliz) 
 
En el cuarto amarillo

los amantes encienden las palabras.

Qué importa lo que duren, si prenden rápido,

si se tiñe la cama de reflejos de plata, azul, rojo,

naranja, si no suena otra cosa, si los miedos

se escapan y florecen

las quemaduras de la sábana.

Las palabras se afilan

Com fuego de palabras.


Vanessa Pérez-Sauqillo


As palavras dos amantes são feitas de paixão, por isso, ardem e incendeiam.

sábado, novembro 30, 2013

Definições




- Sinto-te como se fosses um fruto.
 - Como um fruto maduro? 
 - Sempre maduro, dando-se a trincar, suculento, macio, pronto a abrir-se em aromas e sabores intensos.
 - Tudo isso, sou eu? 
 - Sim, tudo isto e muito mais, porque um fruto não tem alma, é só corpo. Um fruto não reage, só deixa que o tomemos e o comamos, sem mais. Tu és muito mais do que um fruto. Tu és árvore, forte e segura, és folhagem fresca, és fruto sumarento, és Homem com coração terno e palavras intensas, és menino em brincadeiras pueris... 
 - E tu, és como?
- Insensata, insegura... mas intensa, sempre intensa, na orla da vertigem, no olho do tufão, onde me perco em corropios, girando, girando, cúmulo de pensamentos, sentimentos, paixão!

Santo António, o Casamenteiro

  San Antonio bendito,
         dádeme um home,
          anque me mate,
          anque me esfole.


    Meu santo San Antonio,
daime um homiño,
anque o tamaño teña
dun gran de millo.
Daimo, meu santo,
anque os pés teña coxos,
mancos os brazos.

    Uma mller sin home...,
ίsanto bendito!,
é corpiño sin alma,
festa sin trigo,
pau viradoiro
que onda queira que vaia
troncho que troncho.

    Mais, em tendo um homiño,
ίVirxe do Carme!,
non hai mundo que chegue
pra um folgarse.
Que, zambo ou trenco,
sempre é bo ter un home
para um remédio.

    Eu sei dum que cobisa
causa miralo,
lanzaliño de corpo,
roxo e encarnado,
caniñas de manteiga,
e palavras tan doces
qual mentireiras.

Por el peno de día,
de noite peno,
pensando nos seus ollos
color de ceo;
mais el, xá doito,
de amoriños entende,
de casar pouco.


    Facé, meu Sant Antonio,
que onda min veña
para casar conmigo,
nena solteir
que levo en dote
uma culler de ferro,
carro de boxe,

    un irmanciño novo
que xá tem dentes,
unha vaquiña vella
que non dá leite...
ίAi, meu santiño!:
face que tal suceda
cal volo pido.

    San Antonio bendito,
dádeme um home,
anque me mate,
anque me esfole,
que, zambo ou trenco,
sempre é bo ter un home
para um remédio.


Rosalía de Castro 



Para as moças que queiram saber de antigos usos em noite de Santo António, o Casamenteiro:
- Se queres saber o nome daquele que te vai levar ao altar põe os nomes daqueles por quem sentes alguma inclinação em papéis dobrados, dentro de uma bacia com água. Deixa a bacia de noite, ao relento. Na manhã seguinte, o papel com o nome ter-se-á aberto.
- Parte um ovo, e despeja a clara num recipiente com água. Ficando ao relento, na noite de Santo António, vai formar uma letra, um desenho, alguma pista para quem vai ser o homem da tua vida.

sexta-feira, novembro 29, 2013

Insensatos

                          (Magdalena Sadziak)

Sem nunca se terem encontrado, perderam-se. 
Havia música e a música sempre os fazia insensatos...




quinta-feira, novembro 28, 2013

Da paixão

                       (Astor Salcedo - Lost innocence)

"(...) Bartolomeu debruçou-se sobre mim e disse-me ao ouvido:
- Disse-me...
- Não, nem vou repetir...
Senti-lhe o perfume, um aroma a tabaco, um vago lume a pimenta, a sândalo, a maresia, e pensei, ah, Corto Maltese devia usar um perfume assim. Essa combinação perdeu-me; o piropo estúpido, o calor da voz, o perfume exótico. Uma explosão nas veias de dopamina, neuroepinefrina e feniletilamina. O coração aos saltos. A pele húmida. O rosto a arder.
(...)
Diz-se de alguém, quando desmaia , que perdeu os sentidos. Eu, naquele momento, ganhei sentidos. Aconteceu-me o inverso de um desmaio: acordei.
Eu adormecia a pensar em Bartolomeu e acordava a pensar nele. Durante esses meses, a propósito, deixei de tomar comprimidos para dormir, e voltei a sonhar. Descobri, sem surpresa, que partilhávamos sonhos. Sonhávamos as mesmas coisas, nas mesmas noites (...)"

José Eduardo Agualusa, in Barroco Tropical


quarta-feira, novembro 27, 2013

Tá mar

                         (David Bates)

Saem em botes com nomes de santas e santos; "Senhora da Agonia", "Senhor dos Aflitos", "São Cristóvão", ou de mulheres que deixam em terra; "Maria", "Helena", "Marta". Do mar sabem tudo e não sabem nada porque o mar não se sabe nunca. Alguns já viraram o Cabo Bojador em bacalhoeiros onde não querem voltar. São donos de si, ainda que nada valham no mar encrespado que já levou o Toino da Serena, o Manel da Teresa e o Joãozinho Fontes, tão novo que nem se tinha estreado com mulheres. São pescadores, homens com sal nas mãos e marés no coração.

(Já não há Estaleiros Navais em Viana do Castelo. Os navios e os  bacalhoeiros não voltarão a fazer parte da paisagem.Os marinheiros dos pequenos botes não terão mais inveja dos grandes navios.)

terça-feira, novembro 26, 2013

Boca

Como poderemos beijar essa boca que apenas se anuncia
com a suave tristeza de quem ainda ama as sílabas do sangue
ou a lua cálida das velas?
Essa boca talvez seja apenas uma boca de sombra
e quase uma boca de cal
mas a sua forma ainda é uma margem estremecida
uma erva que respira
sobre a pedra azul da melancolia
Que palavra poderá dar um espaço à sua sede
como uma guitarra que lentamente se acende na noite?
Mas no peito frágil como um pássaro palpita ainda um astro
vibrante como uma haste inclinada pelo vento
Ela acaricia a sua crisálida de areia
como se fosse o corpo amante ou uma palavra preciosa
Não posso desenhar o movimento do seu coração
nem encontrar a palavra que fosse um beijo vacilante mas
                      
O meu pulso no entanto estremece com o rumor de um sangue que desejaria ser a luz da sua sede

António Ramos Rosa, in «As Palavras», Campo das Letras, 2001






O que tem essa boca que só a quero ter na minha boca?

segunda-feira, novembro 25, 2013

Segredo



        (Eva Christin Laszka)

"A sua mente estava ainda a descansar na felicidade do encontro na floresta (...) Havia uma doçura infinita na sua intimidade secreta. Amá-la, pensava ele, era, para ele, como lavar o rosto e as mãos, ou como mergulhar num riacho límpido, calmo, que se renovava permanentemente, e estava certo que o seu caminho para o riacho e o próprio lugar onde nadava estivesse escondido do mundo inteiro."

Karen Blixen, in Novos Contos de Inverno

Guardavam o amor em segredo e o segredo guardava o amor.

Receita para afugentar a tristeza

materiais para confecção de um espanador de tristeza 

tinha aprendido que era muito importante criar desobjectos.
certa tarde, envolto em tristezas, quis recusar o cinzento. não munido de nenhum artefacto alegre, inventei um espanador de tristezas.
era de difícil manejo – mas funcionava.

Ondjaki

                           (Fire - Zena Holloway)

Tome-se a tristeza na palma da mão. Olhe-se de perto. Encha-se o peito de ar e sopre-se. Sopre-se, com muita força, a tristeza para longe. Sacudam-se as mãos meticulosamente, não vá algum grão ter ficado para trás. 
Tome-se, agora, a alegria na palma da mão. Feche-se a mão com força até que ela se funda na pele. 

sábado, novembro 23, 2013

Falar a alma

"- Comigo você falará sua alma toda, mesmo em silêncio. Eu falarei um dia minha alma toda, e nós não nos esgotaremos porque a alma é infinita. E além disso temos dois corpos o que nos será um prazer alegre, mudo, profundo." 

 Clarice Lispector, in "Uma Apredizagem ou O Livro dos Prazeres"


     (A gaivota, Nadir Afonso)


Falar a alma com o corpo todo. Dizer o corpo com a alma toda.

sexta-feira, novembro 22, 2013

Posse

             (Shaina Craft)

Arde o sexo
Morde o sangue
Lavra a boca 

Arde o sangue 
Morde a boca
Lavra o sexo

 

Ária

Ma rendi pur contento
della mia bella il core,
e ti perdono, amore,
se lieto il mio non è.

Gli affanni suoi pavento
più degli affanni miei,
perché più vivo in lei
di quel ch'io vivo in me.

 

Vincenzo Salvatore Carmelo Francesco Bellini (Catânia, 3 de Novembro de 1801 — Puteaux, 23 de Setembro de 1835). Aos dezoito meses cantou uma ária de Valentino Fioravanti. Aos três anos já tocava piano com desembaraço. O génio que transformava a música em beleza pura.

quinta-feira, novembro 21, 2013

quarta-feira, novembro 20, 2013

Passión



Nada me arrebata mais do que o tango das palavras em que me danças.




























(Man Ray-Rayograph kiss.     “I do not photograph nature. I photograph my visions.”)

terça-feira, novembro 19, 2013

Don't cry

 (Brooke Shaden)

"-Don't cry me a river!"
"-Why not?"
"-Because I may sail away on it!"

O Gato mais gato! (Breve interregno para merecida homenagem.)

O meu gato favorito faz 35 anos! Só ele me faria alterar a linha deste recanto!

Nãããããõ! Não é o Jake Gyllenhaal!


Siiiiiiiiiiiiiiiiiiim! É o Garfield! Gato mais gato não há!

Tropel

Quente, o teu coração quente
pulsa no lusco-fusco.
Palpita em toda a casa
deserta que nos vê.
Galga as sacadas altas,
corre nas avenidas.
É o silêncio do amor
que abre as veias na tarde...

Quente, o teu coração quente,
é uma estrela no escuro
que a pele das tuas mãos
prolonga em minha pele...
quem te amou e é já morto
renova a primavera.

Oh! doce comunhão
de desejo e infinito,
de saudades e de céu,
de paraíso e grito!

Água clara e tremente
a boca, a sede, a fonte.
Flor de sangue à corrente
o teu coração quente.
Natércia Freire, in «366 Poemas que falam de Amor»

                (Nadia Beltei)

Cavalo em tropel, dispara o coração pelas dunas do peito. O teu vem persegui-lo, com igual velocidade, fustigado p'lo sangue que a ambos invade. Vermelhos, veloses, vencedores iguais, da corrida que acaba em suspiros e ais.

Maria Eu