domingo, maio 24, 2020

Davam-se as mãos


(Fabian Perez)


Dava-lhe a mão
como se nela estivesse
o mundo inteiro

Segurava-lhe a mão
como se dela viesse
o mundo inteiro

E havia museus
Filmes em tela gigante
Livros antigos
Passos de milongas

Davam-se as mãos
Davam-se, inteiros.



(Por una cabeza - Carlos Gardel)

quinta-feira, maio 21, 2020

Avatares

      (imagem daqui)


Há algum tempo que se abrigara no espaço quarto, sala, cozinha. Os ecrãs tornaram-se a ligação ao trabalho, à cultura, às pessoas. Tudo lhe parecia estranho, anódino. Para além de que, as pessoas tinham o estranho hábito de se esconderem por detrás de avatares. Deu-lhe para analisar os ditos, numa das reuniões intermináveis (essas, continuavam a arrastar-se, tal como as presenciais, com os discursos repetidos, empolados e narcisistas do costume).
O Dr. Reinaldo de Matos, de rosto pálido e boca cerrada, sempre enfatiotado e com o cabelo cuidadosamente alinhado, aparecia com um boneco bronzeado, cabelo ondulado e crespo e uma t-shirt preta; a Dr.ª Susana, da contabilidade, a morena de rabo-de-cavalo dos fatinhos pretos, azuis, ou castanhos, óculos transparentes e sapatos de meio tacão, estrelava um loiro platinado, óculos escuros e uma blusa verde alface com folhos; por último, a Ritinha! Ah, a Ritinha costumava rir-se da Dr.ª Susana a toda a hora. Ai que direitinha, ai que passadinha a ferro, ai que óculozinhos sem sal! Pois não é que o seu avatar é uma rapariga loira, de rabo-de-cavalo, com blusa branca e fato saia e casaco preto?
Só o José, das compras, lhe fazia companhia com a câmara ligada. Grande José!
Será que ele também ouve o "Va Pensiero"?




(Coro virtuale "Va pensiero" ("Nabucco" di G. Verdi) - International Opera Choir)

terça-feira, maio 12, 2020

Dos amores antigos

(imagem daqui)


Enquanto ele lhe entrançava a ternura no cabelo, os olhos de ambos reflectiam a luz de um amor antigo.


segunda-feira, abril 20, 2020

Constatações prosaicas




Da varanda, estranha-se o silêncio da praça.

Há uma espécie de angústia a tolher os olhares dos vizinhos, em cumprimentos mais calorosos do que aqueles a que nos acostumaram.

“Vi um menino, mamã!” -ouve-se do andar de cima –“Vi-o a correr com o cão! Também quero ir à rua!”

Nem as gaivotas se atrevem a pousar junto ao lago, depois de mais de vinte quilómetros de voo. Nem elas se fazem ao céu desde a praia.



domingo, março 29, 2020

Quando eu morrer

(imagem daqui)

Quando eu morrer, não chorem. Pelo menos, não perto de mim. Estarei lá, acima do meu corpo, vendo(-me)-nos e quererei os risos, os beijos, os abraços. Quererei as palavras de sempre, as críticas e os elogios de sempre. Não me tragam flores. Essas, dêem-mas em vida que eu adoro flores! Reduzam-me a cinzas. Arderei em morte como ardo em vida, em alterosas chamas. Depois, soltem-me ao vento norte, numa praia de águas frias, gaivotas ruidosas e dunas povoadas por recordações de namorados. 
Quando eu morrer, morrerei amando. Por isso, não esqueçam o meu amor.

(texto de Março de 2015)


Do not Stand at my Grave and Weep

domingo, março 01, 2020

Improbabilidade


(Foto in - Arthur Edelman @iamarthuredelman)


Há muito tempo que Joana estava posta em sossego. O coração batia sempre ritmado, a um compasso saudável e controlado. As rotinas diárias eram cumpridas sem entusiasmo, mas com a dedicação suficiente para que ninguém pudesse acusá-la de negligência ou preguiça. Mesmo a casa era mantida escrupulosamente arrumada e limpa.
De entre as rotinas, a ida à biblioteca do pequeno jardim, logo ao virar da esquina do seu local de trabalho, era a favorita. Mesmo em pleno Inverno, o abrigo de vidro grosso permitia-lhe uma leitura tranquila.
Até que uma dia... Um dia, entra pelo abrigo dentro António José. Homem de grande estatura, cabelo comprido, grisalho, apanhado num rabo de cavalo, a encimar o rosto tisnado, marcado por algumas rugas, vestia de couro da cabeça aos pés. Só depois Joana o ligaria com a moto pesada estacionada no passeio em frente quase todos os dias. E não é que o homem tropeça, caindo aparatosamente aos seus pés, interrompendo-lhe a leitura da poesia de Maria Teresa Horta?
“Morrer de amor ao pé da tua boca (...)”
Estas palavras ainda nos olhos e António José a levantar-se, na sua frente, tão perto que os seus rostos quase se tocavam.
Não se sabe o que disseram, nem como ambos, de tão diferentes, se demoraram em palavras, sorrisos, e num apertar de mãos a eternizar-se na despedida. Sabe-se, sim, que Joana se atrasou naquele dia, contrariando a rotina, mas que as tarefas foram realizadas com tal entusiasmo que estavam prontas muito antes da hora de saída.



(JOHN LEE HOOKER - BAD LIKE JESSE JAMES)