sexta-feira, janeiro 11, 2019

Viagem

(Damian Hovhannisyan)

Eram tempos difíceis. Os dias escorriam por paredes cinzentas, onde pontuavam janelas estreitas, com vidros sujos, que nem sequer coavam a luz, antes a transformavam em nuvens carregadas de poeira densa e opaca.
Costumava fingir que o relógio em cima do armário funcionava. Dava-lhe um certo consolo que os ponteiros marcassem uma hora tão próxima daquela em que, finalmente, abandonava o edifício, pesasse, embora, o engano permanente da avaria.
Naquele dia, amanhecera com um estranho apetite de outras paragens. Prudentemente, levou uma mala de viagem. 
Quando, uma semana depois, estranharam a sua falta e resolveram abrir a mala que repousava junto do relógio, descobriram-na lá, em posição fetal, abraçada a um livro de poemas.


segunda-feira, janeiro 07, 2019

Bordado

(Ana Teresa Barboza)


Era de uma nudez ostensiva e branca, de uma daquelas brancuras onde o emaranhado das veias transparecia acintosamente. Diziam-lhe que devia cobrir-se, evitar expor a olhares alheios uma tal crueza. Sem saber como camuflar-se, aprendeu a bordar, desenhando flores na pele a agulha e linha.


segunda-feira, dezembro 24, 2018

Natal


Havia dias, demasiados dias, já, em que os monstros se demoravam pelas horas nocturnas, ensombrando-lhe os sonhos. 
Deu-se, então, conta que as jarras tinham azevinho, de algumas janelas evolava-se o cheiro doce dos fritos envolvidos em açúcar e canela e o calendário tinha a palavra Natal  escrita a vermelho vivo a pouco mais de um dia. Quisera ter-se alegrado na antecipação da ceia, do brilho no olhar das crianças à descoberta dos presentes, das horas lânguidas à roda da lareira... Não fossem as cadeiras vazias... 
Mas era quase Natal, tempo de anjos. Haveria anjos, decerto, sentados à mesa. 
Seria a noite derradeira para os monstros. Os seus sonhos seriam povoados por revoadas de asas brancas.

FELIZ NATAL!



terça-feira, dezembro 11, 2018

Monstros

(Flina, Deviantart)

Não sabia o que esperar. A vida assemelhava-se a um refluxo ácido e corrosivo, trazendo ao de cima os medos que a perseguiam desde a infância. Na escuridão dos recantos da casa desenhavam-se monstros projectados pela luz difusa dos candeeiros envolvidos em abjours opacos.
Vinham, rastejantes, olhos de fogo, trazendo os desgostos, os mortos, as dores.
Talvez fosse por eles, os seres que lhe enchiam as noites que, durante o dia, buscava a claridade das memórias luminosas. Talvez fossem contaminados e abandonassem o breu.



sábado, novembro 17, 2018

Um dia...


(Aykut Aydogdu)

Cansava-se amiúde da complacência para com a rotina de conversas inúteis, em reuniões igualmente inúteis, que a arrastavam em dias intermináveis. 
Um dia, pensou, um dia dou um murro na mesa e grito "basta"! 


quarta-feira, novembro 14, 2018

Combustão



Cravam-se os dedos na carne rosada e quente, ansiosos 
Tremem os lábios, húmidos de beijos, ávidos
Corpo e alma em combustão, insaciáveis
Juntos, pó, cinza, nada, tudo.