domingo, março 29, 2020

Quando eu morrer

(imagem daqui)

Quando eu morrer, não chorem. Pelo menos, não perto de mim. Estarei lá, acima do meu corpo, vendo(-me)-nos e quererei os risos, os beijos, os abraços. Quererei as palavras de sempre, as críticas e os elogios de sempre. Não me tragam flores. Essas, dêem-mas em vida que eu adoro flores! Reduzam-me a cinzas. Arderei em morte como ardo em vida, em alterosas chamas. Depois, soltem-me ao vento norte, numa praia de águas frias, gaivotas ruidosas e dunas povoadas por recordações de namorados. 
Quando eu morrer, morrerei amando. Por isso, não esqueçam o meu amor.

(texto de Março de 2015)


Do not Stand at my Grave and Weep

domingo, março 01, 2020

Improbabilidade


(Foto in - Arthur Edelman @iamarthuredelman)


Há muito tempo que Joana estava posta em sossego. O coração batia sempre ritmado, a um compasso saudável e controlado. As rotinas diárias eram cumpridas sem entusiasmo, mas com a dedicação suficiente para que ninguém pudesse acusá-la de negligência ou preguiça. Mesmo a casa era mantida escrupulosamente arrumada e limpa.
De entre as rotinas, a ida à biblioteca do pequeno jardim, logo ao virar da esquina do seu local de trabalho, era a favorita. Mesmo em pleno Inverno, o abrigo de vidro grosso permitia-lhe uma leitura tranquila.
Até que uma dia... Um dia, entra pelo abrigo dentro António José. Homem de grande estatura, cabelo comprido, grisalho, apanhado num rabo de cavalo, a encimar o rosto tisnado, marcado por algumas rugas, vestia de couro da cabeça aos pés. Só depois Joana o ligaria com a moto pesada estacionada no passeio em frente quase todos os dias. E não é que o homem tropeça, caindo aparatosamente aos seus pés, interrompendo-lhe a leitura da poesia de Maria Teresa Horta?
“Morrer de amor ao pé da tua boca (...)”
Estas palavras ainda nos olhos e António José a levantar-se, na sua frente, tão perto que os seus rostos quase se tocavam.
Não se sabe o que disseram, nem como ambos, de tão diferentes, se demoraram em palavras, sorrisos, e num apertar de mãos a eternizar-se na despedida. Sabe-se, sim, que Joana se atrasou naquele dia, contrariando a rotina, mas que as tarefas foram realizadas com tal entusiasmo que estavam prontas muito antes da hora de saída.



(JOHN LEE HOOKER - BAD LIKE JESSE JAMES)

quarta-feira, fevereiro 26, 2020

Alegria

(Ana Luísa Pinto)


Havia uma menina na varanda, toda ela graça e alegria. Era uma varanda antiga, numa casa grande, pintada de branco, escancarada de grandes janelas envidraçadas. Quando o sol vinha e a cobria de beijos, não havia vidro que não brilhasse, à semelhança dos olhos da menina.
Nem no rigor do Inverno deixavam de se ouvir as gargalhadas límpidas, percebendo-se, na amurada, o gorro vermelho de lã encimado por um pompom multicolor.
As árvores, embora a ritmo mais moderado, iam crescendo com ela (Clarinha, ouvira chamar-lhe) e pareciam inclinar-se para servir-lhe de protecção. Permitiam-lhe, ainda, ensaiar cantos, em coro com o chilreio do pássaro que, todos os anos, construía o ninho nesses ramos.
Frondosas, as árvores, fechadas, as vidraças, calado o pássaro, ausente, Clarinha. 
Foram tempos estranhos aos passantes, habituados que estavam a abrandarem o passo, à escuta.
Até que correu notícia do regresso. O pássaro desatou num canto tão melodioso e ininterrupto, que era impossível não parar a ouvi-lo. Ao fundo, uma voz alegre de rapariga, toda ela graça e alegria.


(Lola Marsh - She's a Rainbow)

domingo, fevereiro 23, 2020

Depois da luz, o abismo.

Benoit Rousseau

A luz da manhã, crua e enfarruscada, deixava a olho nu a sordidez do lugar que, durante a noite, lhe parecera belo e cálido. A cadeira onde se sentara, com ela ao colo, entre beijos e goles de vinho tinto, devia ter sido abandonada nalguma mudança de casa, contando com três protectores nas suas quatro pernas e revelando ferrugem corroendo as travessas das costas. Do candeeiro, agora apagado, restava a sombra esquálida, contrastando com a luz amarela ainda agora projectada nos amantes enlaçados. Deixou a garrafa vazia escorregar para o cimento marcado pelos milhares de percursos por ali calcorreados. Afinal, ela partira antes do último gole, antes da última carícia.
Levantou-se vagarosamente, a tristeza agarrada à pele como se tivesse sido tomado por um imenso cansaço, um desalento antigo de tanto doer. A ponte estava ali. Debruçou-se nela. O rio corria, impetuoso, formando ondas, galgando pedras. 
O rio... O rio ali tão perto...


(The Be Good Tanyas - Waiting Around to Die)

segunda-feira, fevereiro 17, 2020

Pontes

                                                                (Tony's world)

À medida que a saudade ficava mais funda, ia construindo uma ponte mar adentro, na esperança de que houvesse outra praia, onde outra ponte estivesse a ser construída. Não tardaria e seriam uma só.


(Losekes Blues Gang - That Kind of Feeling)

domingo, janeiro 26, 2020

Da reencarnação do Amor

(Raffaello's "The Triumph of Galatea" - detail)

Naquele tempo, andavam os Deuses em plena época criativa, pondo e dispondo da acção e da palavra para que o Livro dos Livros lhes servisse de memória, quando Hermione e Hispério se cruzaram. Iam ambos a caminho do mercado de escravos, ela, prisioneira de guerra, ele, nado e criado na casa de senhores caídos em desgraça do Rei e, por isso, enviado para venda. Cabeças baixas, nem se teriam olhado, não fosse o pantomineiro Cupido ter desatado a treinar a pontaria e crivá-los de setas. 
Foram tantas e tão certeiras que ficou escrito ser destino de ambos apaixonarem-se a cada reencarnação, mau grado esta primeira vez não passasse de olhares lânguidos e suspiros, logo cortados pela maior licitação que não calhou ser do mesmo comprador.
Mas Deuses são Deuses e o Livro dos Livros assim o ditava: A cada vida, Hermione e Hispério, não importava onde nascessem, ou como se chamassem, apaixonar-se-iam, levando menos ou mais longe o seu amor.

Sabe-se que, ainda há pouco, um homem e uma mulher se cruzaram e souberam que estavam predestinados a amarem-se.



 The Passion of Andalucía