domingo, fevereiro 18, 2018

Menino


(Paul Bond)


Carlos envelhecera sem se dar conta. Ainda agora era o menino que corria em brincadeiras de esconde-esconde, soltava o pião e procurava tesouros escondidos na areia da praia.
O mar era já ali e o sol não precisava ser quente para entrar nas ondas mansas e ficar, boiando, olhos postos no céu, a sonhar com aventuras mil, voando com as gaivotas que rivalizavam com os farrapos brancos das nuvens.
Nada mudara. O mar e o céu, azuis de doer, o branco das gaivotas e das nuvens, ou a sua capacidade de sonhar. Sabia que havia rugas finas nos olhos que agora olhavam o céu e que os seus braços abertos abraçavam mais água, mas no seu coração corriam meninos, lutavam piratas, e havia beijos roubados na areia dourada.
E, de repente, o mar entrou-lhe em casa.




terça-feira, fevereiro 13, 2018

O traço de um (a)braço

                        (Gustav Klimt - detalhe de The tree of  Life)


Passo a passo
traço o laço
do enlace
Faço e desfaço
o desenho

de um (a)braço


segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Asas contrafeitas

(Amy Judd)

Naquele tempo, aos homens bons era dado o dom de poderem ter asas. Era, pois, comum, verem-se homens alados em passeio pelas avenidas, nas salas de cinema (onde, note-se, tornavam a visão dos demais deveras difícil), nos supermercados, enfim, em todos os lugares.
Tudo parecia maravilhoso. Aqueles a quem cresciam asas resplandeciam, orgulhosos do atributo, e os que as não tinham procuravam comportar-se de maneira a atingirem a forma alada.
Não tardou, porém, que muitos se cansassem da monotonia das asas, todas tão brancas e, sobretudo, todas iguais. Começaram a pintá-las de cores diversas, a ornamentá-las com jóias e bordados, mal disfarçando os olhares de admiração e inveja quando algumas brilhavam  mais ao sol, ou se destacavam pela originalidade.
Pior do que essa ânsia de terem asas diferentes e melhores do que as dos outros, era o facto de já ninguém saber quais os critérios para que alguém pudesse tê-las. Tantas havia que chegava a ser difícil andar na rua em determinadas horas. 
Numa manhã fria de Fevereiro, a cidade acordou com a frase "Não às asas contrafeitas!" pintada por todos os muros. Nas caixas de correio, desabituadas de terem uso, um panfleto alertava para o logro do negócio das asas. Os homens bons, afinal, podiam nunca ter umas, enquanto outros, espertalhaços, conseguiam um par falsificado e se pavoneavam do alto da sua moral de pechisbeque. 


segunda-feira, janeiro 29, 2018

Música a dois


(Jack Vettriano)


o suporte da música

o suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
olhares encontrando-se, ou das suas

vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,
ou dos seus obscuros sinais de entendimento,
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência

dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
ramifica entre os timbres, os perfumes,
mas é também um ritmo interior, uma parcela
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando

por uns frágeis momentos, concentrado
num ponto minúsculo, intensamente luminoso,
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"



Mariana e José não precisavam de falar. Um olhar, um olhar bastava para que se completasse uma frase, se recordasse um detalhe, se abrisse um sorriso, ou assomasse uma lágrima. Separados, Mariana era extrovertida, faladora, ainda que tranquila, enquanto José evitava grandes conversas, vivia mais no seu mundo interior, ainda que tenso. Juntos... Juntos havia harpas nos dedos que se tocavam, cânticos nas bocas a arder num beijo, sinfonias completas quando se entregavam, inteiros, um ao outro.

sexta-feira, janeiro 26, 2018

Os donos do açúcar

(Teddi Parker)

O açúcar

O branco açúcar que adoçará meu café 
nesta manhã de Ipanema 
não foi produzido por mim 
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
Vejo-o puro 
e afável ao paladar 
como beijo de moça, água 
na pele, flor 
que se dissolve na boca. Mas este açúcar 
não foi feito por mim.
Este açúcar veio 
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia. 
Este açúcar veio 
de uma usina de açúcar em Pernambuco 
ou no Estado do Rio 
e tampouco o fez o dono da usina.
Este açúcar era cana 
e veio dos canaviais extensos 
que não nascem por acaso 
no regaço do vale.
Em lugares distantes, onde não há hospital 
nem escola, 
homens que não sabem ler e morrem de fome 
aos 27 anos 
plantaram e colheram a cana 
que viraria açúcar.
Em usinas escuras, 
homens de vida amarga 
e dura 
produziram este açúcar 
branco e puro 
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

Ferreira Gullar




O açúcar branco e doce feito por mãos tisnadas e amargas que nunca o usam assim, refinado. Os verdadeiros donos do açúcar e dessas mãos, nunca viram, decerto o mar em Ipanema, nem os açucareiros nas mesas das esplanadas. 


segunda-feira, janeiro 22, 2018

Há sempre uma lua


(Paulina Otylie Surys)

There's always a moon



The grey grey sky

against the moon
sits in rags of
clouds



The rags of

clouds
sit against the sky
under the  moon



Is there a moon

in the grey grey sky?



There is always

a moon in the sky
despite the grey.

Maria Eu