quarta-feira, novembro 14, 2018

Combustão



Cravam-se os dedos na carne rosada e quente, ansiosos 
Tremem os lábios, húmidos de beijos, ávidos
Corpo e alma em combustão, insaciáveis
Juntos, pó, cinza, nada, tudo.



terça-feira, novembro 06, 2018

Presença


Existia um lugar, para lá do horizonte, onde a ausência era nada mais do que a reescrita de cada momento no avesso do corpo, na nudez da alma.
Era aí que se transformava em presença.


sábado, outubro 27, 2018

O rapaz que fabricava pesadelos

(Victoria Ivanova)

O rapaz que fabricava pesadelos vivia numa constante vigília. Dedicado profissional, tinha sempre à mão um quarto escuro, uivos de dor, vampiros e lobisomens. Havia muito tempo que o fazia, tanto que já nem se recordava como era dormir sem o frio do terror a pairar sobre a sua cabeça. O tempo estagnara, imerso em negrume.
Tinha-lhe, ainda, sido atribuída a tarefa de perseguir e destruir os sonhos que a rapariga fabricava com igual empenho que o dele em fabricar pesadelos. Descobrira que tinham começado a ser enviados em pequenos barcos de papel dourado e apressou-se a construir uma tesoura gigante para os cortar, afundando o mundo solar que transportavam.
Num dia particularmente sombrio, talvez porque não se dera ao cuidado de afiar a tesoura usada vezes sem fim, um dos barcos veio arrastado, inteiro, por uma das lâminas. Atingiu-o um raio intenso de sol e o voo rasante de um bando de pardais chilreantes entrou-lhe quarto adentro. Nessa noite, dormiu sem sobressaltos, embalado pelos sonhos que a rapariga tecera cuidadosamente, prevendo ser ele o destinatário.


quinta-feira, outubro 25, 2018

A rapariga que fabricava sonhos


(Victoria Ivanova)


A rapariga que fabricava sonhos cansara-se da rotina da entrega porta a porta. Doíam-lhe os pés dos caminhos trilhados noite dentro, sonhos empilhados dentro da mochila, alças largas a marcarem-lhe os ombros de vergões vermelhos e dolorosos.
Assim, a rapariga que fabricava sonhos resolveu acumular tarefas e construir, também, barcos de papel. Não de um papel qualquer, que isso não condizia com as fadas, os unicórnios, as princesas e os príncipes, ou qualquer uma das outras criaturas que costumava usar todos os dias, mas sim de folhas lisas, brilhantes, num tom de amarelo a fazer lembrar o ouro. Seria nelas, nas douradas embarcações, que passaria a enviar seres fantásticos, sorrisos, bailados e tudo aquilo que a sua imaginação era capaz de fantasiar.
Mal sabia, a rapariga, que o rapaz que fabricava pesadelos odiava barcos de papel, ainda mais se fossem portadores de ilusões.



terça-feira, outubro 16, 2018

domingo, outubro 14, 2018