terça-feira, maio 21, 2019

Lembras-te?

(Pablo Picasso)

Lembras-te, mãe, daquela vez em que estranhaste o silêncio da traquinas de três anos e a foste encontrar sentada no chão da cozinha, portas do armário escancaradas, a tirar os ovos que as galinhas tinham posto nos últimos quinze dias e a parti-los, um a um, numa alegria pintada de gema de ovo?
E de como não pudeste ralhar-lhe, quando te olhou com ar contrito e disse, fazendo beicinho: a menina é má!

Lembras-te, mãe, quando costuravas calções e bibes cheios de bolsos para caberem neles pedrinhas, caricas, flores, carrochos e todo um mundo de pequenas coisas com que enchia as fantasias de menina de sete anos?

Lembras-te, mãe, das noites de tosse funda nas quais me adoçavas o peito com xarope de cenoura e a alma com as tuas mãos ternas?

Lembras-te, mãe, quando, aos dezassete, quis ir ao baile de finalistas e o pai não deixou? Fizeste uma coisa subversiva, mãe! Assinaste tu a autorização e, não contente com isso, compraste-me uma roupa nova para eu ir dançar.

Lembras-te, mãe, quando te contei do primeiro namorado e tu só me disseste para ser feliz?

Lembrar-me-ei por ti, mãe...


(Dhafer Youssef - Soupir Eternel)


segunda-feira, maio 13, 2019

Caminho(s)



(Robert Mapplethorpe: Flowers - Artsy)

Havia tempos que Maria Inês começara a afastar-se. Não encontrava explicação para essa ânsia de se libertar da presença do outro. Era como se apenas se aquietasse no exílio. 
Ia-se perdendo num caminho longo, surda a palavras que não as que guardava no pensamento.
José olhava-a em desassossego, sem que soubesse como alcançá-la, até que iniciou um caminho longo para se encontrar com ela na sua solidão.



(Asaf Avidan -Small Change Girl)

quinta-feira, maio 09, 2019

À espera da luz

(Moris on Artesy)

Caem anjos na terra dos homens descontentes
Fazem-se espuma nas manhãs cinzentas
Asas quebradas na queda desabalada
Quando a cura?
Quando a luz?



(Ruben Garcia - Eleven Moons)

terça-feira, maio 07, 2019

Maria Antónia e o Anjo - Kodak Khrome



A meio da vigília, uma nuvem negra passou diante da lua  e tudo ficou negro de um modo sinistro, Maria Antónia pensou ser aquele um sinal de colapso.
Era como se fossem dez homens ou um exército a comprimir-lhe o peito, com tanta falta de fôlego, convenceu-se que o coração lhe ia falhar, o anjo da morte a pairar sobre ela.

E o anjo falou e disse: nunca vi ninguém arquejar tão fundo. Queres ser tu a cavar ou preferes que eu o faça?
- é preciso responder? - perguntou a Maria Antónia.
- é - disse o anjo.
Maria Antónia sorriu e respondeu: - um anjo belo como tu não deve sujar as mãos.
Foi assim que Maria Antónia se encontrou na presença do mais belo anjo que jamais vira.
Ambos sorriram ao mesmo tempo e disseram:
- Ainda bem que nos encontramos!
Quando acordou sentiu a falta daquele Anjo.


Kodak Khrome23 de abril de 2019 às 23:09

E de como de um comentário se faz um post!
Obrigada, KK!



Ólafur Arnalds - So Far + So Close (ft. Arnór dan)






quinta-feira, abril 25, 2019

Evasão

(oliveiraluana94, em Pinterest)

Estranhando a ausência de chilreios, afastou as pesadas cortinas, deixando a luz do sol entrar. Afinal de contas, ninguém a proibira de olhar pela vidraça. Estremeceu! A árvore jazia, cortada, os ramos em desalinho, o tronco ferido de morte. Tentou abrir a janela. Não se mexia. 
Menina! Menina!-chamou. A janela, por favor! Deve estar avariada!
Então? Quem lhe disse que as janelas abriam? Não vê que alguém pode cair na tentação de saltar delas?
Foi nesse dia que gizou o plano de fuga.
Ao final da tarde, com a roupa por baixo do roupão, misturou-se num grupo de visitas, desceu no elevador, dirigiu-se à casa de banho onde abandonou o roupão, para logo estugar o passo em direcção à porta larga de entrada. 
Correu! Correu muito, acompanhada de uma revoada de pássaros em chilreios sonoros.



        (Ane Brun - To Let Myself Go)

terça-feira, abril 23, 2019

Reclusão

(Blind-Ace in Deviantart)


Quando lhe deram ordem de reclusão, Maria Antónia ruborizou, cerrou os punhos, mas sabia que era o seu destino.
Na primeira noite, agitou-se na cama desconhecida em sonhos suados até que lhe entraram porta dentro, acendendo a luz branca e crua sem piedade.
O dia não tinha clareado, de tal modo que nem os pássaros se faziam ouvir. Não obstante, tinha-os visto da janela no dia anterior, nas árvores que sombreavam o parapeito em cujos ramos os pequenos canoros se afadigavam em voos curtos e alegres.
Seria apenas o início de um dos dias longos, entre pisos e salas diferentes, onde pontuavam outros como ela, reclusos de roupão e chinelos, ombros sacudidos por tosses profundas.



(Agnes Obel - Riverside)