terça-feira, dezembro 06, 2016

Sonata para um homem forte


Chegou antes da hora. Pela porta entreaberta via-o. Segurava-se, em equilíbrio periclitante, à mesa baixa da sala de estar onde repousavam as molduras com fotografias de filhos, netos e bisnetos, lado a lado com a jarra de camélias brancas. Reparou que se baixava para calçar os sapatos enquanto resmungava de si para si, quem sabe maldizendo o reumatismo que agora lhe tolhe pernas e mãos, dificultando-lhe os mais comezinhos gestos rotineiros. Ainda se sentiu tentada a entrar e oferecer ajuda, mas veio-lhe à memória o homem forte e sobranceiro de outrora, aquele que franzia o sobrolho à mínima tentativa de lhe afastarem empenos do caminho, e retirou-se, pé ante pé.


sábado, dezembro 03, 2016

Do alheamento da realidade





  • (Daniel Jean-Baptiste)



  • "Dois jovens peixes vão nadando, e a certa altura encontram um peixe já velho que vai em sentido oposto, lhes faz um gesto de saudação e diz: "Vivam, rapazes! Que tal está a água?". Os dois peixes jovens nadam mais um pouco e depois um vira-se para o outro e diz: "Que raio de coisa é a água?"."

    Do manifesto A Utilidade do Inútil, de Nuccio Ordine.


    Moves-te a cada dia num alheamento da realidade em que imerges. Talvez isso signifique que a aceitas tal como te é servida, sem te aperceberes que não contas para a elaboração do cardápio.



    sexta-feira, novembro 25, 2016

    O estranho caso de Tagik, o berbere contador de histórias - A rainha Aliyyah


    (Tamara Natalie Madden)



    Havia tanto tempo que Jabalamar, o escudeiro do rei, se não via longe do seu amo que dera em perseguir a rainha. Convencera-se que aquele diplomata não passava de um charlatão que, como outros antes dele, ficara ofuscado pela beleza negra e radiosa de Aliyyah, encontrando um subterfúgio para afastar o rei. Enviara, por isso, um pássaro azul de entre aqueles que costumavam esvoaçar pelo palácio e vinham comer à sua mão, com o intuito de o encontrar, guiando-o de volta à ilha.

    Enquanto isso, a rainha Aliyyah ouvia as estórias do diplomata, de olhar desperto e coração inquieto pelo seu rei que tanto se demorava. 

    - E como haveis ficado tão sabedor das coisas desses mundos distantes, Senhor?

    Com um sorriso misterioso, qual prestidigitador, o estrangeiro retirou da túnica um livro com capa de couro velho e título gravado a ouro

    - Eis um dos mais belos registos dessas coisas, Alteza!

    - “O homem das quatro vidas”, leu a rainha.

    E, como um grão de areia do deserto do Sahara soprado pela mais forte das tempestades, Aliyyah viu-se transportada para uma biblioteca onde as estantes ligavam o chão a um tecto tão alto que tocava o céu





    O estranho caso de Tagik, o berbere contador de histórias

    quinta-feira, novembro 24, 2016

    Lenda

    O amor é o amor
    O amor é o amor - e depois?!
    Vamos ficar os dois
    a imaginar, a imaginar?..

    O meu peito contra o teu peito,
    cortando o mar, cortando o ar.
    Num leito
    há todo o espaço para amar!

    Na nossa carne estamos
    sem destino, sem medo, sem pudor,
    e trocamos - somos um? somos dois? -
    espírito e calor!
    O amor é o amor - e depois?!

    Alexandre O´Neill




    (Marc Chagall)


    Chamaram-lhe Celeste por ter vindo ao mundo sob um céu estrelado de Outono. Ninguém soubera como fora possível sobreviverem, mãe e filha, naquele descampado, desamparadas de conforto e de calor humano.
    Cresceu arredia, sempre de sapatos na mão, calcorreando os campos, trepando às árvores, enfeitando-se de grinaldas de malmequeres amarelos.
    Um dia, chegou à aldeia um homem-estátua. Olhar brilhante, poucas falas, como convém a um imitador de estátuas que se preze, e uma mala pequena que dizia ser portadora de todos os seus bens. Tinha a particularidade de caminhar com os pés nus. Os sapatos, reluzentes de tão bem engraxados, atava-os pelos cordões à pega da mala.
    O homem-estátua e Celeste encontraram-se junto ao rio, quando ele mergulhava os pés, cansados da posição estática que mantivera horas a fio, e ela colhia os malmequeres mais bonitos. Anoitecia, era Outono, e o céu enchia-se de estrelas amarelas como as flores que coloriam os cabelos de Celeste, brilhantes como o olhar do homem-estátua.
    Diz quem por ali passava que deram as mãos e voaram.



    terça-feira, novembro 22, 2016

    Estio


    O estio que finalmente chegara não impedia a nespereira de se enfeitar de flores. Há muito que a árvore crescia, generosa em frutos amarelos agridoces, a ombrear-lhe a janela do quarto. Nela moravam pardais, cantavam melros e arrulhava o casal de rolas que lhe embalava as sestas preguiçosas das férias de Verão. Encostada ao tronco robusto, já com cicatrizes de podas e uma ou outra riscadas pela Maria Inês e pelo José, estas em forma de coração trespassado por uma seta ou da palavra "amo-te" ladeada pelos nomes de ambos, encontrava-se a escada de madeira. Pobre dela, abandonada ao frio e ao calor, agora sem outro préstimo que o de lhe recordar o tempo em que o pai a subia para colher as nêspera mais bonitas para a sua menina.