quinta-feira, julho 27, 2017

Morrer


(Robert Gonsalves)

Sentia-se morrer. Estranhamente, morrer não era aquilo que mais a assustava. O que a fazia sofrer era a ideia de nunca mais ver o mundo pelos olhos dele.


terça-feira, julho 18, 2017

Os amantes

(Fresco de Pompeia)

Os amantes sabem-se de cor
têm-se mapeados na polpa dos dedos
desenhados na pele que percorre o caminho
da nuca, vértebra a vértebra, até ao sacro


Os amantes, como os pássaros,
Cruzam os céus em voos estonteantes
Rasam os perigos sem medo, cantando
Sem que gaiola alguma os aprisione


quinta-feira, julho 13, 2017

Parecenças II


Chegado a casa, o Engenheiro Castro, António Alberto de seu nome, subiu apressadamente a escada que dava para o quarto, libertando-se da roupa em gestos largos, enquanto se dirigia ao duche, deixando-a peça a peça, quais peles de animais esfolados, caída pelo chão. Mariana, sempre com o seu aventalinho imaculadamente branco destacando-se no preto do uniforme, logo se encarregaria de a recolher, uma a uma, curvando-se elegantemente, como ele tanto gostava de apreciar, deixando que as curvas deliciosamente arredondadas das ancas e do rabo rematassem as pernas em tensão muscular.
Ah! Mariana! Como lhe conhecia as pregas mais recônditas, os sinais escuros na mama direita, a marca arroxeada, de nascença, em forma de borboleta, na base da nuca, que ficava a descoberto quando desviava o cabelo! Tinham crescido juntos e, desde a morte do pai e da mãe naquele terrível acidente de automóvel, era nela que encontrava aconchego e carinho. Escapava-se do quartinho esconso nos anexos da casa dos Cunha e Villar e corria para os seus (a)braços (ou melhor, a dar-lhe os seus) noite após noite, numa entrega total, sem nunca pedir nada a não ser umas horas de carícias e palavras ternas.
Foi a ela que perguntou, ainda impressionado com a parecença com o falecido: Meu amor, achas-me assim tão igual ao burgesso do Joãozinho?
Foi também ela que, com voz doce e apaixonada, entre beijos ardentes, o sossegou: Nem pensar, meu adorado! Tu és muito mais bonito!

Nós, que sabemos como são as mulheres apaixonadas e os homens demasiado crédulos, sorrimos, enquanto cogitamos se o pai do engenheiro e a mãe do Joãzinho não teriam, como rezam as más línguas da aldeia, caído na tentação da carne.


quinta-feira, julho 06, 2017

Nos quatro anos do Xilre

(Mark Rothko)

Quem não gostaria de ter um pássaro cantor no beiral e  de receber cartas manuscritas a tinta azul cobalto, com a caneta S. T. Dupont Olympio de J. Eustáquio de Andrada? 
O Xilre é, a um tempo, um romântico que derrete o coração de qualquer Orchidée e, a outro, um analista minucioso da realidade. Entramos na sua casa sempre à espera de ficarmos maravilhados e saímos, muitas vezes, mais do que enriquecidos, curiosos, prontos para saber mais, seja de música, de literatura, ou de minudências que a outros nunca ocorreriam observar ou descrever. É que é um blog tão em bom, tão em bom, que até gerou um movimento blogosférico com piratas, flores, palmiers, pipoco(a)s, e todo um exército de bloggers para o sitiarmos onde não o pudéssemos perder.
Longa vida, caro Xilre! Hip! Hip! Hurra!


quarta-feira, junho 21, 2017

Parecenças I

(unknown painter)

Foi pelas quinze horas, a canícula abafava até os miados dos gatos, que a notícia da morte do Joãozinho Villar chegou. Veio escrita a tinta preta, numa letra trémula, mas elegante, gravada num cartão. Mariana, a empregada (criada, como ainda lhe chamam os patrões), calcorreara o caminho íngreme que distava da casa grande dos Cunha e Villar, ataviada no uniforme preto de cetim, aventalinho branco pespontado a renda e toucado igualmente alvo no cocuruto da cabeça ornamentada com uma trança enrolada de cabelos negros. "É para entregar ao Sr. Engenheiro!", dissera, já pronta a seguir caminho com uma considerável quantidade de cartões na mão.
O Engenheiro Castro leu o cartão com um franzir de testa, ainda enrolado no seu roupão azul escuro com um belo dragão bordado a dourado, comprado nos tempos áureos das viagens ao Oriente. Ah! Bons tempos, aqueles em que os pais desembolsavam quantias avultadas  para educar o seu menino para uma visão eclética e mundana!
Vestiu o fato preto, camisa branca, gravata igualmente preta. Olhou-se ao espelho com ar satisfeito. O cabelo ainda forte e ondulado penteado para trás, o bigode levemente retorcido nas pontas que o fazia parecer-se extraordinariamente com o bisavô Cunha e Castro. Suspirou, e saiu para a torreira do sol, encaminhando-se para o velório.
Cruzado o portão da casa dos Villares, não lhe foi difícil perceber onde a família velava o falecido. A porta verde da sala de visitas do rés-do-chão, aberta de par em par, deixava que se ouvisse o ruído abafado do terço, rezado em tom monótono por vozes femininas.
Franqueou a entrada. Lá estava o Joãozinho, enfiado num casaco azul-marinho de trespasse, camisa azul clara, gravata azul com pequenos brasões amarelos e calças cinzentas. Tal e qual os uniformes da banda de música! A barriga proeminente quase rebentava os botões dourados do casaco. Mas... agora reparava, o bigode era igualzinho ao seu e o cabelo... Meu Deus, o cabelo! Forte, ondulado, penteado para trás! Foi cumprimentar as senhoras da casa. "Tia, que desgraça! Foi tão inesperado! Prima, lamentável!" E, de sopetão, atiram-lhe: "Mas que parecido estás com ele! Até comentámos quando entraste! Credo! Não o soubéssemos cadáver, entrava agora pela porta da frente!"
Ficou uns minutos à conversa, contrariado, nervoso. Pensava entretanto: Em chegando a casa rapo o bigode e penteio o cabelo para o lado! Parecido com o morto! Só essa me faltava! Semelhante ao parolo com vestimenta de músico da banda da terra!


domingo, junho 04, 2017

Destino

(Aja, Scotia, NY, USA.)

Joana crescera bravia, sempre de sapatos na mão e joelhos esfolados pelas muitas incursões aos quintais dos vizinhos, equilibrada em reentrâncias de muros ou ramos de árvores, mãos estendidas. Divertia-se a caçar lagartixas. Puxava-as pelo rabo e depois, largava-as, correndo atrás delas à gargalhada. Também lhe não escapavam os figos suculentos do Sr. José D'Além ou as uvas americanas da D.ª Rosinha. Quase apanhara com um chumbeiro de espingarda de pressão, num dia em que a confundiram com um pilha-galinhas. "Ai, Jasus, menina, que tu és mas é douda!"
Quisessem encontrá-la, era no campo ou, então, de cabeça metida num livro, fosse qual fosse, a sonhar.

António crescera à solta, habituado a roupas leves, fáceis de despir para entrar na água do mar. Não havia vento que mais do que o afagasse, nem maré que deixasse de o acolher. Brincara aos piratas e construíra fortes onde travara batalhas mil. Sonhara com sereias e raparigas de olhos estrelados com os pés nus na areia da praia. Quase morrera afogado, num dia em que mergulhara mais fundo e mais afoito. "Ai, Jasus, menino, que tu és mas é doudo!"
Quisessem encontrá-lo era na  praia, ou, então, de cabeça metida num livro, fosse qual fosse, a sonhar.

Cruzar-se-iam, mais tarde, nem numa praia, nem no campo, nem sequer numa livraria, e diriam, baixinho, um ao outro: "Ai, Jasus, que nós somos mas é doudos!"
Construíram uma biblioteca.