terça-feira, julho 03, 2018

Festa


(João Cutileiro)


arderes no brando lume
dos meus beijos
rutilando o meu corpo
em tua chama

nós
fogo de artifício
festa

Maria Eu



sábado, junho 30, 2018

Infância

(Andrea Constantini)

Joana tinha sido despertada do torpor que a assaltara depois do almoço pela voz chilreante do menino que brincava sozinho no jardim. Sentara-se num banco confortavelmente refrescado por um rododendro de flores rubras e vivas, que deixavam cair uma pétala de quando em vez ao beijo suave do vento.
Devia ter uns cinco anos, o menino do carrinho amarelo. Chegavam-lhe algumas frases soltas: Vai! Voa! Olha o passarinho ali! Logo, vamos dormir com o ursinho, sim? Vruuuuuum! Vruuuuum!
Sorriu e recordou as brincadeiras no jardim da casa grande: pés descalços, cabelos em desalinho, em perseguição de um pardalito mais jovem; joelhos na terra, olhos brilhantes à espreita de um grilo cantor que se escondia no fundo do pequeno buraco; gargalhadas sonoras em reboladelas com o Juno, cão rafeiro e atrevido, a fazer-lhe cócegas nas pernas com a cauda irrequieta...
Levantou-se, aproximou-se do pequeno automobilista improvisado, sentou-se no chão, e disse-lhe: Queres fazer uma pista de terra para o teu carrinho?


terça-feira, junho 12, 2018

Torradas com chá de rooibos


(Jean Metzinger )

Sabia que o frio entrava sempre que a porta verde se abria, a cada cliente que entrava em busca de um café ou de um chá que lhes revigorasse a alma ou quando se arrastavam, a custo, para a rua envolta em bruma molhada de chuva. Não se importava com o arrepio que a sacudia e trocava o calor macio das mesas mais protegidas pelas recordações que aquela lhe trazia. Por isso, os olhos perdiam-se-lhe num ponto distante no espaço e se lhe abriam os lábios num sorriso luminoso enquanto comia uma torrada dourada acompanhada por um chá de rooibos.


sábado, junho 02, 2018

Amor de tempos idos

(imagem daqui)


Disse-lhe que estava bonita, que há muito tempo que a não via assim tão alegre e jovial.
Ela sorriu com doçura e esqueceu, por momentos, que ambos passavam dos 90, repenicando-lhe um beijo nos lábios.


domingo, maio 20, 2018

Luz

(Vincent Van Gogh)


Tinham sido tempos difíceis. Bebiana e João chegaram aos quarenta sem que no céu houvesse uma única estrela ou fossem abençoados com um filho. Frente ao caldo da ceia, já nem levantavam os olhos da malga, mergulhados num silêncio pesado embrulhado no cansaço dos dias e na escuridão das noites.
Naquele final de tarde, Bebiana sentiu uma vontade enorme de comer nêsperas. Raio de coisa, para o que lhe havia de dar, pensou João, saindo de casa para encostar a escada à nespereira onde despontavam meia dúzia de frutos mirrados. Bastou a novidade para que se olhassem como há muito tempo não faziam. Conta-se que foi nessa noite que Luz foi concebida. Estranhamente, tantos anos volvidos, uma estrela surgiu, solitária, visível por detrás dos montes que rodeavam a aldeia. 
Quando rebentaram as águas a Bebiana e as mãos hábeis da Sr.ª Tina seguraram Luz em prantos, rasgou-se o negrume, pontilhando-se de milhares de estrelas.