terça-feira, junho 12, 2018

Torradas com chá de rooibos


(Jean Metzinger )

Sabia que o frio entrava sempre que a porta verde se abria, a cada cliente que entrava em busca de um café ou de um chá que lhes revigorasse a alma ou quando se arrastavam, a custo, para a rua envolta em bruma molhada de chuva. Não se importava com o arrepio que a sacudia e trocava o calor macio das mesas mais protegidas pelas recordações que aquela lhe trazia. Por isso, os olhos perdiam-se-lhe num ponto distante no espaço e se lhe abriam os lábios num sorriso luminoso enquanto comia uma torrada dourada acompanhada por um chá de rooibos.


sábado, junho 02, 2018

Amor de tempos idos

(imagem daqui)


Disse-lhe que estava bonita, que há muito tempo que a não via assim tão alegre e jovial.
Ela sorriu com doçura e esqueceu, por momentos, que ambos passavam dos 90, repenicando-lhe um beijo nos lábios.


domingo, maio 20, 2018

Luz

(Vincent Van Gogh)


Tinham sido tempos difíceis. Bebiana e João chegaram aos quarenta sem que no céu houvesse uma única estrela ou fossem abençoados com um filho. Frente ao caldo da ceia, já nem levantavam os olhos da malga, mergulhados num silêncio pesado embrulhado no cansaço dos dias e na escuridão das noites.
Naquele final de tarde, Bebiana sentiu uma vontade enorme de comer nêsperas. Raio de coisa, para o que lhe havia de dar, pensou João, saindo de casa para encostar a escada à nespereira onde despontavam meia dúzia de frutos mirrados. Bastou a novidade para que se olhassem como há muito tempo não faziam. Conta-se que foi nessa noite que Luz foi concebida. Estranhamente, tantos anos volvidos, uma estrela surgiu, solitária, visível por detrás dos montes que rodeavam a aldeia. 
Quando rebentaram as águas a Bebiana e as mãos hábeis da Sr.ª Tina seguraram Luz em prantos, rasgou-se o negrume, pontilhando-se de milhares de estrelas.



domingo, maio 06, 2018

Sem palavras

(imagem daqui)

A palavra teimava na reclusão. Apoucava-se na oralidade fácil, qual romance de cordel. Enrolava-se em saudações rápidas, ordens incisivas e curtas, perguntas inopinadas. Sem que se desse conta, os dedos deixavam de desenhar as letras, de somá-las, uma a uma, contando enredos de histórias imaginárias, de vidas outras, de sonhos (des)feitos. 
Disseram-lhe que o tempo delas, das palavras grávidas de sentido(s), estava a acabar e ela acreditou, olhando com tristeza os dedos secos de tinta sombreando o papel imaculado de tão branco.



Uns sufocavam de palavras, ela, da falta delas.


quinta-feira, abril 26, 2018

Abril





azul
gaivotas famintas longe
longe do mar

vermelho
cravos sem armas
aos ombros

sal, sangue, grito
ABRIL