segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Escadas

(db Waterman)


Subia as escadas de pedra escura e levemente esverdeada pela humidade em cadência hesitante, cabeça baixa e ombros descaídos. Era dia de feijoada à Transmontana, pelos vistos, daquela com couve e muito chouriço. Já sentia o cheiro ao quinto degrau (havia ainda mais quinze para superar) e não conseguiu parar a saliva que lhe crescia na boca na antecipação do almoço. 
Crispou as mãos com raiva de si mesmo por desejar comer nesse momento. As unhas cravaram-se-lhe na polpa macia e clara deixando marcas fundas e vermelhas. 
O que aconteceu às tuas mãos? iriam perguntar-lhe. Apressou uma desculpa mas não lhe parecia que acreditassem ter-se defendido de punhos cerrados de um ataque do cão da Dona Joaquina, a vizinha da casa verde água. Ora! Fossem à merda mais as suas perguntas. Beijaria a cunhada e as crianças, apertaria a mão ao irmão e sentar-se-ia à mesa para comer a feijoada. Afinal, a casa era também sua, porque ali crescera, e o cadáver que jazia na sala principal, rodeado de velas e de beatas a rezar o terço, era o do seu pai.

18 comentários:

  1. Respostas
    1. As palavras também brilham pela ausência.

      Beijinhos, MA! ;)

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  2. Retrato de um homem só, presumo.

    e,
    fossem à merda com as suas perguntas.

    soberbo texto

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    1. Completamente só.
      Muito obrigada!

      Beijinhos. :)

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  3. As escadas são uma oportunidade para a revelação de gente comum. Uns que sobem outros que descem. Por que razão cravá-las nas próprias mãos ? As unhas.
    Belo texto Maria .

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    1. Talvez cravar as unhas para não morder...

      Beijinhos, Agostinho, e muito obrigada! :)

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  4. Tanto nas entrelinhas...
    Gostei muito.
    Beijo Maria!

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  5. Que fazer... se era hora de almoço? :)

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    1. Histórias dentro de um homem só.
      Obrigada, Maria Luís! :)

      Beijo. :)

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  7. Um homem só que se sentia desfasado daquele mundo que por acaso até era um pouco seu...
    Quantos homens (e mulheres) se sentem assim, no meio dos seus mundos.
    Que bonito Maria :)

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    1. Tanta solidão na qual ninguém repara!
      (obrigada, muito)

      Beijinhos, GM! :)

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