quinta-feira, março 26, 2015

Nudez

(wire-people-sculptures)


Estranha-se de si e deixa que os dedos procurem, na parte de trás da nuca, bem ali, no ponto onde o fecho encaixa, entre o crânio e a cervical. Segura-o pela pega, entre o polegar e o indicador, e puxa. Primeiro devagar, sentindo-o ceder, revelar cada elo da coluna. Que estranho sentir o frio da casa a entrar no osso, assim, desnudo. Logo, impaciente, abre-o com mais pressa. Tem que ajudar com a outra mão, já que passa pela lombar em direcção ao cóxis. Despega-se-lhe a carne dos ossos que ficam espantosamente limpos e reluzentes. As pernas, de seguida. Depois os pés. Jaz, no chão, um corpo desossado, como o de um peru para rechear (estranha imagem, essa, que lhe vem do Natal da infância). Só a cabeça se mantém intacta. Como se fosse uma excrescência, uma aberração. Olha-se ao espelho. De novo tacteia, desta sorte por baixo do cabelo. Lá está! O fecho mais pequeno e recôndito que, uma vez aberto, deixará o crânio exposto. De um gesto, abre-o. Juntam-se, no chão, a cara e o escalpe ao corpo inteiro. Limpa da carne, restam o esqueleto e  o cérebro. Ainda é muito. Ainda consegue pensar. 


10 comentários:

  1. Maria, só através do corpo nos poderemos erguer à divindade do que formos capazes, até deixarmos de ser, na frágil e precária luz da terra, o mais estrangeiro dos seus habitantes!

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    1. Diria que o problema não é o corpo mas sim o cérebro.

      Beijos, Legionário. :)

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  2. Terei acabado de ler algo que se apresenta como a visão filosófica da nudez?
    Beijinhos, Maria Eu.

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    1. Eu, a filosofar? Huuuuummmmm... Sou lá capaz de semelhante coisa, Observador!

      Beijocas. :)

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  3. Arrepiante essa falta de coluna vertebral, essa falta de estrutura, essa falta de cérebro nessas coisas que andam por aí über alles.

    O nome da ilustração lembrou-me do Calder: o galerista onde ele ía fazer a exposição veio recebê-lo ao aeroporto e preocupado por ainda não ter recebido escultura nenhuma perguntou-lhe "Então não trouxeste as peças?" -Calder risonho com a sua cara de criança grande, saca de um dos bolsos da gabardine um par de alicates e do outro bolso uma bobine de arame -Pois aqui estão elas!
    Foi a primeira vez que alguém expôs retratos tridimensionais suspensos no espaço desenhados com uma linha de arame. Calder como tu procurava entre outras coisas essa forma de transparência depurada chamada poesia.


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  4. Corpos que são descartáveis.

    Os mobiles são poesia. O facto de penderem assim, numa espécie de dança, fazem-nos poéticos. :)

    Beijos, Luís. :)

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  5. Uma boa imagem, um bom texto e um "rock" bem esgalhado !!!

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  6. Desnudar a alma não é mais suave
    Embora não se desosse, não tenha entranhas, nem carne
    E há um paralelo que também se estranha
    Quanto mais desnudada mais ama

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    1. A alma tem que ser refreada.

      Beijos, Rogério. :)

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