sexta-feira, janeiro 03, 2014

O lado luminoso das Trevas




 (Ansel Adams)


Os Bruxos

Em alguns de nós, o olhar
queda-se paralelo
ao do mocho
que há muito do ombro
nos soou.

Estas pálpebras
humedecem os olhos
como ninguém o faz
a uma fronte.

Em seu reduto, velam

separando
a luz das Trevas.

Sebastião Alba, in "Uma pedra ao lado da evidência"

Dinis Albano Carneiro Gonçalves, de seu pseudónimo Sebastião Alba (1940-2000), foi um poeta muito particular. Viveu em Moçambique com a família, licenciando-se em Jornalismo. Casou, teve filhos. Regressou a Portugal em 1984, a Braga, e, sem que nada o fizesse prever, "faz-se" à rua, transformando-se num sem-abrigo. Vive em umbrais de portas, nos adros de igrejas... Conhecem-no pelas palavras, pela sensibilidade para as artes, em particular para a música. Nunca mais quis ter casa. Morreu atropelado, numa das rodovias que envolvem a cidade de Braga.
Num bilhete dirigido ao irmão afirmava "Se um dia encontrarem o teu irmão Dinis, o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá".

6 comentários:

  1. A humildade em palavras grandiosas.

    Bom Ano, Maria Tu

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    1. Um grande poeta, sem pretensões.

      Obrigada. JM! Para ti também!

      Beijinhos Marianos! :)

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  2. "Sei que, frequentemente, os sinais e os símbolos exteriores, visíveis e tangíveis da sorte e da ascensão, só aparecem quando, na realidade, tudo já se põe de novo a declinar." Thomas Mann

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    1. Tão adequado, Legionário!

      Beijinhos Marianos! :)

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  3. Acho que nunca chamarei "resignado" a um sem-abrigo, vejo-os sempre como poetas, razão que estes versos testemunham!

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    1. Se tiveres uns minutos, espreita: http://boticelli.no.sapo.pt/sebastiao_alba.htm Verás que vale a pena!

      Beijinhos Marianos! :)

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