sexta-feira, janeiro 24, 2014

Marcas de um país não tão distante

Faça-se silêncio para os homens, as mulheres e os meninos de Trás-os-Montes dos anos oitenta! Anos duros. Hoje, poucos meninos há e, mesmo homens e mulheres, debandaram dos lugares mais inóspitos, fugindo de um destino de pobreza. Faça-se,ainda, silêncio, para ouvir os Galandum Galundaina a cantar em Mirandês, a segunda língua oficial em Portugal!





(Serra do Barroso, Trás-os-Montes, início dos anos oitenta. Fotos © Georges Dussaud)

Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite. (...)Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.(...) Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde: - Entre quem é! Sem ninguém perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva.(...) Dentro ou fora do seu dólmen (maneira que eu tenho de chamar aos buracos onde vive a maioria) estes homens não têm medo senão da pequenez. Medo de ficarem aquém do estalão por onde, desde que o mundo é mundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura. Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura emigram. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia. O nome de Trasmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama o Reino Maravilhoso de que vos falei. 

Miguel Torga, in Um Reino Maravilhoso (Trás-os-Montes)


 

12 comentários:

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    1. Obrigada!
      Trás-os-Montes é um lugar muito especial.

      Beijinhos Marianos, Dos Énes! :)

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    2. tenho uma paixão por trás-os-montes, linda Maria.

      :)

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  2. Escolas encerradas, aldeias-fantasmas, campos abandonados e uma população envelhecida. Nunca como agora as marcas da desertificação humana foram tão nítidas em Trás-os-Montes e Alto Douro. A região continua a perder gente a um ritmo galopante deste Reino Maravilhoso!

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    1. Num país que não valoriza o que tem de melhor (as pessoas, as tradições, ...) é difícil sobreviver à interioridade!

      Beijinhos Marianos, Legionário, e bom fim de semana! :)

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  3. Meu Coração Luso, Meu Sangue Mouro e Minha Alma Celta, todos gostamos desta
    e... Torga é meu irmão

    (sabe há quanto tempo eu tinha planeado editar Galandum Galundaina? pois é...)

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    1. Antecipei-me... :P

      Beijinhos Marianos, Rogério! :)

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  4. Interessante como Trás-os-Montes é tão especial para quem fugiu dele e só se lembra dele quando convém!... É como se as pedras que calçaram os pés descalços, começassem a ser calçada no caminho das cabras... só porque convém!...


    Abraço

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    1. Não percebo a agressividade, meu caro A! Não sou Trasmontana mas tenho grandes amigos de lá e gosto muito da paisagem, das gentes, dos costumes. Adorei as fotos e, inevitavelmente, lembrei-me de Torga. Os Galandum Galundaina são gente que ouço há muito, em disco e ao vivo!
      A mim, meu caro, convém-me o que muito bem me apetece, quando me apetece!

      Bom fim de semana!

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  5. Um país não tão distante, nem extinto. De vez em quando -- e se o procurarmos, com maior probabilidade, encontramos (sobretudo no interior norte, mas não só) vestígios de um país que se recusa a desaparecer, embora claramente enfraquecido e desvalido (não é de estranhar, dado tudo o que é retirado a esses últimos resistentes que por lá permanecem)... O que custa é que essa memória se vai perdendo, perdendo, com o desaparecimento dos que a guardaram ao longo de dezenas de anos (e herdeiros de tradições centenárias).

    Boa tarde, Maria :)

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    1. É duro saber que os custos da interioridade já não bastavam e que lhes acrescentaram a racionalização, fechando escolas, centros de saúde, postos dos correios... Só a beleza da terra não conseguiram, ainda, eliminar!

      Beijinhos Marianos, Xil, e bom fim de semana! :)

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  6. Esses reinos só existem onde o ser for preponderante sobre o ter.

    Beijo :)

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