quarta-feira, janeiro 08, 2014

A idade da inocência

        (imagem do blog snake and snail)

- ... as plantas... 
E Setora interrompeu. Empertigou-se. 
Carregou no rosto chumbo de ocasião.
- Dá cá esse papel!
A miúda encolheu-se.
Faces incendiadas a rubro,
fogo de aflição.
Refugiou-se em silêncio solidário.
Resistiu.
- Esse papel!
Vergou.
Estendeu a folha,
o olhar a nascer das lágrimas,
a mão aberta sem alento.
A professora leu
no segredo das palvras mal riscadas:
       "Bea
        Diz-me só isto. Gostas de mim?
        Bea
        Ainda gosto de ti.
        Disse aquilo 
        Que tu para mim morreste        
         Não quer dizer que eu não gosto de ti.
        Só disse aquilo porque tu rasgaste a carta.
        Bea
        Gosto de ti
        Muito muito.
        Lê e dá a resposta.
        Depois de leres rasga
        ou mete no lado que tu quiseres
        Bea
        Faço anos no dia 27 deste mês.
        Se tu quiseres ir a minha casa diz-me
        E se tu quiseres podes levar a tua irmã.
        Bea
        Amo-te muito
        Bea
        Se tu gostasses de mim a gente era muito feliz.
        Dá a resposta em Trabalhos Manuais.
                                                                     Luís

A Setora negou a carta
à mão pedinte da miúda.
Olhou os olhos grandes do garoto
aflitos de inocência.
Suspendeu a palavra agreste 
nos lábios finos
Sorriu à saudade.
Dobrou a carta
com a benevolência dos cabelos prateados,
guardou o papel
no bolso branco mais rico
e continuou:
- ... as plantas...

Franco Carretas, in "Baladas de uma revolução"


12 comentários:


  1. Há coisas belas
    Tenho minha algibeira cheia delas

    Umas são virtuais
    como esta

    (quem na vida não escreveu carta parecida?)

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    1. Ah, as cartas de amor da infância! :)

      Beijinhos Marianos, Rogério! :)

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  2. Porque a professora, falando de plantas, sabia que até estas seguem a direcção do vento, gentilmente -- e assim o vento passa e as plantas ficam. Assim ficam as memórias da inocência, mesmo quando o tempo passa, como o vento.

    Boa noite, Maria :)

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    1. O Luís e a Bea ganharam o coração da professora. :)

      Beijinhos Marianos, Xil! :)

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    1. Recorda-nos da imensa ingenuidade da infância, não é? :)

      Beijinhos Marianos, MA! :)

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  4. A idade da inocência, num tempo de respeito.

    Beijinhos observadores.

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    1. Outros tempos...

      Beijinhos Marianos, Observador! :)

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  5. e pensava eu nesse tempo:
    "Será que amor de infância pode ser amor pra vida inteira?"
    santa inocência :)))

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    1. Pra vida inteira, só mesmo a vida...

      Beijinhos Marianos, Legionário! :)

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    1. Ai, este Luís derreteu o coraçãozinho da Bea! :))

      Beijinhos Marianos, je suis...noir! :)

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