Passo a passo
fica um espaço
na calçada
Penumbra-se
a pedra mole
o coração
Passo a passo
fica um espaço
na calçada
Penumbra-se
a pedra mole
o coração
(Sebastian Fernandes/Artmajeur)
Sentava-se no lugar do costume,
na posição do costume, com os livros do costume, numa rotina cada vez mais muda.
Lentamente, parecia fundir-se com o cadeirão que, de dia para dia, ia tomando
paulatinamente a forma do seu corpo. Ou seria o oposto, e era ela que parecia
vestir a forma do cadeirão, arriscando-se a desaparecer na profusão de flores
cor de vinho do tecido?
A modorra da tarde quente
instalara-se na casa e nela. Gotículas de suor perlavam-lhe o corpo semi-desnudo,
na penumbra do quarto. Os lençóis brancos realçavam-lhe os contornos do corpo,
deixando perceber alguma flacidez muscular, denotando a idade. Havia algum
tempo que aquela cama lhe servia de refúgio nos Verões, cortinados corridos e
portas abertas em corrente de ar. Se o corpo aparentava calma, por dentro, era
um turbilhão! Anos felizes eram como um filme nas paredes brancas pouco
iluminadas, à semelhança dos que eram projectados no passado, em tela
portátil, nos longos serões familiares. As gargalhadas dos primos e amigos
sazonais, o cheiro intenso do bolo de canela acabado de sair do forno e do
licor de leite a fermentar na sala, as cantorias com a mãe durante os
preparativos do jantar e o olhar ternurento do pai quando achava que as “suas
meninas” estavam mais desatentas.
Chegam-lhe as gargalhadas das meninas e meninos, herdeiros dos tempos felizes. O relógio da torre da igreja bate 6 vezes. É hora de se levantar e juntar mais memórias doces, com novos personagens.
Havia um rio
perto. Pela manhã, era um mar de prata a adentrar-lhe os olhos. O ruído, ao
contrário do que lhe acontecia noutros lugares, trazia nele música: cantos de pássaros,
rumores do vento nos canaviais, água em correria nas pedras do leito e um ou
outro galo desconcertado nas horas.
Era um rio
amigo de há longos anos. De menina, via as mulheres debruçadas nele, as bacias
ajoujadas de roupa que iam sovando e esfregando com sabão azul, enquanto punham
em dia a conversa que se não tinha com os maridos e filhos.
Na descida
para a areia mais branca, chegava a sentir a mão a ser apertada pela do seu
pai, quando ele a levava para a água, onde a guiava em braçadas inseguras, numa aprendizagem
com o mínimo de técnica e o máximo de amor.
Durante quase toda a vida, Joana pensara no futuro.
Primeiro, quando seria capaz de ler os livros colocados na
estante mais alta da sala. Depois, quando lhos permitiriam ler.
Pelos seus 10 anos, perguntava-se como seria “ser mulher”.
Ouvia as conversas sussurradas das mais velhas e não se lhe afigurava coisa de
muito interesse. De grande interesse, por outro lado, eram as perspectivas de descobrir a que saberia um beijo, daqueles longos e apaixonados dos romances, lidos
aos 13 anos.
O beijo veio aos 15. Não foi longo nem apaixonado. Oh,
desilusão! Ficou o futuro prometendo melhor. E foi! Paixão, ardor, namoro dos
17! Nem imaginava outro assim! Mas houve outros beijos, de outros lábios. Mais
os beijos que os lábios, é certo, mas bons por demais, antevendo não
desapontarem.
Universitária, sonhava com a profissão.
Curiosamente, chegou um tempo em que o futuro era o agora.
Celebrava os momentos como se fossem únicos e últimos. Os livros começaram a
ser (re)lidos ainda com mais entusiasmo e os beijos (ah, os beijos), sempre
ardentes e demorados.
Era no Dia de Todos os Santos que a família se reunia. Primeiro à volta da mesa, onde o peru era rei e Joana se arrepiava com a visão ávida dos tios, que atacavam as travessas com as mãos e terminavam a refeição com o queixo a pingar gordura, os dentes roxos do vinho tinto e a camisa com nódoas de várias cores, quando não com bocados de arroz ou leite-creme em versão minimalista e seca.
Enquanto os homens se arrastavam até à mesa de pedra do quintal para fumarem e acabarem com a garrafa de bagaço e as crianças jogavam ao esconde-esconde ou à macaca, as mulheres afadigavam-se para arrumarem a cozinha. No dia anterior, a elas tinha cabido a ida ao cemitério, levar os baldes, os materiais de limpeza e as flores, para as “suas” campas ficarem a brilhar e os arranjos dignos de inveja.
Juntavam-se, então, ao portão da
quinta e iam, em passo lento, até ao cemitério. Uma pequena feira de vaidades,
essa visita. Sussurravam-se críticas e elogios, cumprimentavam-se aqueles que
só nesse dia se deslocavam à aldeia, enchiam-se os caminhos esconsos de “filhos
Pródigos”.
Joana nunca gostara dessa data. Os
primos mais velhos, João Maria e Manuel António, olhavam-na do alto dos seus 15
e 17 anos vividos no Porto, como se fossem príncipes e ela encolhia-se no
vestido novo, soquetes brancas e sapatos de verniz devidos ao Domingo, apesar
de os 14 anos já lhe permitirem umas meias de vidro e uns sapatos de meio
tacão. Vingava-se a atiçar-lhes o cão e a meter-lhes minhocas pela roupa
dentro!
Havia, porém, uma coisa que a
incomodava ainda mais do que a atitude altiva dos primos, o tempo passado junto
às campas. Jurava que os mortos se agitavam, falavam entre si e, no caso das
crianças falecidas, até choravam, despertadas do seu sono.
Quando eu morrer, pensou Joana, quero ser feita em cinza. Assim, estarei em todos os lugares sem estar em lugar nenhum.