quinta-feira, agosto 26, 2021

Felicidade

 


                                                                      (Paul Bond)

A modorra da tarde quente instalara-se na casa e nela. Gotículas de suor perlavam-lhe o corpo semi-desnudo, na penumbra do quarto. Os lençóis brancos realçavam-lhe os contornos do corpo, deixando perceber alguma flacidez muscular, denotando a idade. Havia algum tempo que aquela cama lhe servia de refúgio nos Verões, cortinados corridos e portas abertas em corrente de ar. Se o corpo aparentava calma, por dentro, era um turbilhão! Anos felizes eram como um filme nas paredes brancas pouco iluminadas, à semelhança dos que eram projectados no passado, em tela portátil, nos longos serões familiares. As gargalhadas dos primos e amigos sazonais, o cheiro intenso do bolo de canela acabado de sair do forno e do licor de leite a fermentar na sala, as cantorias com a mãe durante os preparativos do jantar e o olhar ternurento do pai quando achava que as “suas meninas” estavam mais desatentas.

Chegam-lhe as gargalhadas das meninas e meninos, herdeiros dos tempos felizes. O relógio da torre da igreja bate 6 vezes. É hora de se levantar e juntar mais memórias doces, com novos personagens. 

(Hania Rani - Glass)

6 comentários:

  1. Esse teu texto não é certamente sobre mim, mas bem podia ser...

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  2. A felicidade das pequenas coisas.
    Bjs, bfds

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  3. Felicidade eternizada na doce lembrança da memória, onde perenemente é vivificado na alma.

    Bom fim de semana, Maria:)

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  4. Lindíssimo texto , pintura deste surrelista que fui "vasculhar" e boa música !
    Obrigado Maria

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  5. "Juntar mais memórias doces com novos personagens". Aguardo, então. Gostei muito do texto. Encanta-me muito do seu modo de narrar.
    Uma boa semana com muita saúde.
    Um beijo.

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  6. O relógio da Igreja bateu 4 horas. Horas de se levantar e escrever as memórias doces.
    Um beijo Maria

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