quarta-feira, abril 07, 2021

Vento e Eros

 (imagem daqui)

Vem o vento, manso e leve, qual carícia de um amante, fazer dançar o vestido

Cria, então, aquela roda, e ora se enfuna e revela as pernas pelo tecido

Ora sopra mais um pouco a fazê-lo enroscar-se no corpo que já se entrega

Ora avança, pouco a pouco, de lascivo e todo louco, pelas alças escorrega


(Cucurrucucú Paloma | Sílvia Pérez Cruz i Raül Fernández)

quarta-feira, março 31, 2021

Diminutivo

 

(Marc Chagall)

Efigénia da Conceição crescera devagar nas sombras da casa grande. Das raras vezes em que se agarrara à saia da mãe, logo levara um arrepelão.

- Sai-te p`ra lá, Efigénia da Conceição!

Julgar-se-ia que a pequena seria chamada por Gena, Geninha, Efi, São, Sãozinha, mas não, o nome completo, assim duro e escorreito, não fosse a miúda habituar-se a mimos desnecessários.

Foi-se fechando, fechando, até que deixou de “aparecer” que não fosse para se sentar na ponta da mesa da cozinha, à espera do prato de sopa e de mais qualquer sobra que houvesse para levar à socapa para o Malhado e a para a Micas, canitos seus companheiros de escapadelas campestres.

Num instante, Efigénia da Conceição era adolescente, rapariga feita, mulher. Porém, nenhuma das mulheres da casa parecia aperceber-se da sua existência. Sombra nas sombras, olhar triste e carregado.

Nem ela nem as outras repararam que, do outro lado do muro, a coberto das frondosas trepadeiras, uns olhos vivos lhe acompanhavam o crescimento e a tristeza. Um dia, o sol de uma Primavera quente e soalheira levou-a à sombra do caramanchão e, de repente, o dono dos olhos vivos chamou: Geninha! Geninha!

 

Assim começou a fazer-se ternura na vida de Efigénia da Conceição.


(Ballaké Sissoko & Vincent Ségal "a benim kahve sesli, ince sızım" )

quinta-feira, março 25, 2021

Castanhas e figos

 

(imagem daqui)


Morreu-me o castanheiro sem aviso. Os ouriços emprenharam de castanhas, e vieram, como de costume, atapetar em círculo o espaço por baixo da copa. Eram pequenos, os frutos, sei bem, mas doces. Bastou uma trintena de dias. Em subindo a rampa, rente ao muro, a visão do tronco seco, encimado pelos ramos despenteados e hirtos, sem que o vento os fizesse, sequer, estremecer.

Morreu-me o castanheiro. E a figueira, namorada de sempre, começa a dar sinais de querer segui-lo.

Não hei-de comer de outras castanhas ou figos enquanto me não crescerem as árvores que plantar!


(Max Richter - Non-Eternal)

quinta-feira, março 11, 2021

Gaivota

 

(Imagem daqui)

De quando em vez, Maria Clara gostava de escapar à tristeza dos dias sem luz e abrir os olhos do lado de dentro, onde habitavam sempre o mar, as dunas, o azul intenso do céu de Verão e as gaivotas em voos feéricos, à espreita do peixe.

Quem a observasse, diria que dela se apoderara um sono profundo.

Foi num destes dias que Maria Clara se viu num sol da manhã, pés descalços e sandálias na mão, caminhando rente à babugem das ondas, que vinham salpicar-lhe as pernas. Demorou-se ali, o horizonte largo, um navio cargueiro a acompanhar essa linha, o cheiro intenso a algas.

Sabia que não estaria só por muito tempo. Ali, nunca estava sozinha. Afinal, uma gaivota não voa sozinha.

 

(Anoushka Shankar - Bright Eyes ft. Alev Lenz)

sexta-feira, março 05, 2021

Pássaros


(Jessica Pisano)


    Andam                                      da cidade

pássaros           ruas

        nas 


 

Há ruas                                pássaros

  da                      com

   cidade 


                          

Anda                                    de pássaros

 a                    cheia

cidade  

 


Viste a cidade cheia de  pá        ros?

                                                  ssa


(Mari Samuelsen – Einaudi: Una Mattina)

terça-feira, fevereiro 23, 2021

De dentro para fora

‘Blind Curve’ (2010) © Felix Lucero

O que fazer se me faltam as palavras? Sei que as tinha, algures, guardadas numa inesgotável fonte de águas claras. Aos poucos, a água foi escasseando, talvez a tenham confinado em lugar incerto. Ou tê-la-ão levado por outros caminhos que não este? Haverá alguém que a use e às palavras que eram minhas, noutra “prisão” que não aquela em que me enclausuro?

Há pássaros em gorjeios à desgarrada fazendo-se ouvir através dos vidros. Sons de obras à mistura com o troar de motores mais potentes, na via rápida. Uma mulher de voz alterada grita que não aguenta mais, ao que outra voz, masculina, responde que não tem culpa.

Da varanda, onde as plantas começam a florir timidamente, vê-se a rua deserta. Por entre os prédios de dez andares, uma nesga de verde, um monte encimado por uma igreja branca. Serpenteante, a estrada estreita que sobe até ao templo faz um recorte no pinhal, um desenho cheio de curvas e contracurvas, como o que traçam os meninos para fazerem pistas de automóveis e brincarem aos pilotos.


(Gabor Szabo - Dreams)