quinta-feira, dezembro 05, 2019

Reencontro


Olharam-se de relance e prosseguiram o seu caminho em passo menos célere. Estacaram, ambas. 
Quando retrocederam, os olhos brilhavam no reconhecimento das adolescentes de outrora.
Clara?
Maria?
Um abraço imenso com mais de quarenta anos de premeio quase as deixava sem fôlego. 
Depois. Depois, foi uma catadupa de palavras, com risos e lágrimas à mistura, que não era para menos, caramba. Tantos anos! Tanta vida! 
Em comum, tinham o frio da camarata, os joelhos azulados dos bancos corridos da capela, os livros de banda desenhada e as fotonovelas dissimuladas pelos livros escolares na sala de estudo, os ralhetes das freiras pelas conversas nas aulas de religião e moral (valeram-lhes um Suf.- a destoar do Muito Bom de todas as outras) e o castigo quando as apanharam em flagrante a espreitarem pela janela, em poses de crescidas, para os rapazes do externato. Ah! Mas também houvera os fins de semana na casa uma da outra, metidas na mesma cama, na treta, até de madrugada; os segredos partilhados das paixões assolapadas, embora platónicas; os cigarros roubados em casa e fumados no meio dos arbustos, a que se seguia uma boa esfregadela de dentes com casca de laranja, não fosse o cheiro denunciá-las; as roupas trocadas; os batôns e os lápis dos olhos comprados em comum e, acima de tudo, o calor de uma amizade imensa, cortada abruptamente pela morte do pai de Clara, que a levara a abandonar o colégio e a partir para a Austrália com a mãe.



sábado, novembro 30, 2019

Frio

(Jenny Saville)

Quando o frio chegou, ainda era cedo. 
Tinha o corpo a descoberto e a alma nua. 


(Etta James - Misty Blue)

quarta-feira, novembro 27, 2019

Dos voos (último)

(imagem daqui)

As mãos de ambos repousavam em cima da mesa de vidro do salão de chá. Tocavam-se, ao de leve. Havia nelas, porém, uma impressão de inquietude que denotava traços de muitos voos conjuntos.

segunda-feira, novembro 25, 2019

Dos voos IV







































(Roberto Camasmie - Metamorfose)

Admiravam-se de vê-la sempre com um brilho no olhar, mau grado todas as adversidades. Mal sabiam que, por dentro, tudo o que existia era uma constante metamorfose. 

Ela era um voo permanente de borboletas. 



sábado, novembro 23, 2019

Dos voos II

(fotografia daqui)

Há um enorme corrupio nos centenários plátanos. Pesam-lhes os ramos do peso dos pequenos e esfuziantes habitantes.
Vem a menina e bate palmas! É vê-los a voar em debandada.