domingo, setembro 04, 2022

A idade das mãos

 

(imagem daqui)

Olhou as mãos como se nunca as tivesse visto antes. Esticavam-se, dedos cerrados ao redor das asas dos sacos de plástico (recicláveis, claro), numa tensão visível pelos nós dos dedos salientes e pelas marcas avermelhadas que se iam afundando no peso. Viam-se, ainda assim, rugas a cruzarem as veias azuis que corriam, salientes, como pequenos rios, levando vida até ao mar do coração.

Há muito que não se dava conta do passar do tempo. Desviou o olhar como que a regressar à imagem das suas mãos lisas, estrelando os mesmos anéis, sempre em voos picados a acompanharem as palavras, ou em gestos de ternura


(Ólafur Arnalds - Happiness doesn't wait)

sexta-feira, agosto 26, 2022

Poeminha(s) nove

 

(imagem daqui)

Brota

a água

fresca

 

bebe

a menina

sôfrega

 

escorre

em fio

no vestido azul

 

faz-se frescura

a água

no tecido.

 

Faz-se ternura.


(Hania Rani - Sun)

domingo, agosto 14, 2022

Poeminha(s) - oito

(Inos Corradin)

Do encanto

Se fez pranto

e

Do pranto

Se fez rio

e

Do rio 

Se fez mar

e

Do mar

se tornou nuvem


Vê a nuvem, Maria! Um encanto! 


(Agnes Obel - Deezer Sessions)

quarta-feira, agosto 10, 2022

Poeminha(s) - Sete

 


Dança

a rapariga

flor

 

ri

o rapaz

vento

 

agitam-se

pétalas



(Love awakening - Misha Mishenko)

sexta-feira, julho 29, 2022