As anjas não tinham posto a sua aura, hoje.
A alegria habitual foi substituída por silêncio dolorido.
O cadeirão nove ficou vazio o dia todo. Amanhã, será ocupado por outro que não o João...
As palavras ditas de ti são as mais bonitas.
As anjas não tinham posto a sua aura, hoje.
A alegria habitual foi substituída por silêncio dolorido.
O cadeirão nove ficou vazio o dia todo. Amanhã, será ocupado por outro que não o João...
Hoje, todos os holofotes iluminaram a Dona Rosinha.
Do alto dos seus oitenta e seis anos, entrou na sala pelo braço do "seu" António, vestida de azul bebé, saia plissada e sabrinas prateadas.
A anja morena, de farta cabeleira encaracolada, ajudou-a a domar a saia enquanto se sentava e António lhe beijava a testa.
"Dona Rosinha, hoje parece uma bailarina!" Diz a anja.
"Ah, querida, o que dancei enquanto pude!" E os pés ensaiavam movimentos suaves."Pergunte ao meu marido! Ai, aquelas tardes de Domingo..."
Não houve quem não ficasse com um sorriso nos lábios, a adoçar os tratamentos.
O doente do cadeirão um é um jovem, muito jovem mesmo. Sorri para o ecrã do telemóvel enquanto o líquido do primeiro dos três frascos corre devagar até ao cateter, entrando na veia.
Está ao cuidado da anja ruiva, calma e carinhosa, que brinca, ao mudar para o frasco número dois: "Então, Eduardo, a trocar mensagens com a namorada?"
Hospital de dia é o nome pomposo, escrito numa folha A3 plastificada, colada na porta de uma sala grande, de um hospital muito maior.
Entra-se. 20 cadeirões ordenados em fila, perfilam-se, junto à parede, cada um na companhia de uns aparelhos e respectivos "cabides" para suportarem frascos de vários tamanhos, com líquidos de cor predominantemente translúcida.
Ao fundo da sala, as secretárias das anjas, vulgo enfermeiras.
Ainda mais ao fundo, a sala onde tudo o que as anjas precisam enche prateleiras e frigoríficos.
Criança, olhos luminosos, quer crescer, de tão grande o mundo.
Em bicos de pé, tenta chegar à malga de marmelada, longe da sua altura, a secar no parapeito da janela da cozinha.
Ah, se eu fosse grande!
Adulto, olhos raramente providos de brilho, queria voltar atrás no tempo, de tão pequeno ser o mundo.
Já não há malgas de marmelada no parapeito da janela.
Ah, se eu fosse menino!
Sempre a combater as trevas! Sou Abril!
"Juro por minha honra
que combaterei a treva
com a minha faca de mato
e com o anzol da linha pescarei
o monstro que habite o fundo
do lago antes que assalte
o som do menino e ponha à prova
o medo do homem fraco."
Lídia Jorge