domingo, novembro 15, 2020

Coração






Há um sinal pequeno
uma estrela do lado 
esquerdo do peito

Refulge, a estrela
sinal pequeno do lado
esquerdo do peito

Um coração bate
por baixo da estrela

O coração refulge.


                                
(Dhafer Youssef - Whirling Birds Cerimony)

quinta-feira, novembro 12, 2020

Estranhava-se

 


Eram as folhas. As folhas tinham caído sem pré-aviso e faziam um ruído debaixo dos pés dos transeuntes que soava ao que mil coelhos produziriam a comerem, cada um, uma cenoura.

Irritavam-na ruídos que se sobrepunham aos habituais: vozes, risos e choros de crianças, um ou outro automóvel, a chuva a bater nas vidraças…

Talvez fosse da cada vez mais insidiosa solidão, fruto de um tempo a que chamavam de “novo normal”, essa irritação. “Novo normal”! Como se se pudesse apelidar de normal, fosse ele novo ou velho, à morte da vida social, à separação das famílias, à reclusão forçada.

Estranhava-se. Estranhá-la-iam?


(Alex & Will Delta Blues - Hard Times)

quinta-feira, outubro 29, 2020

Partir

(imagem daqui)

Havia anos que Maria Clara planeava cuidadosamente a sua fuga. Sabia, até, de cor, o que levar na pequena mala azul. Duas mudas de roupa, escova de dentes, creme de rosto, perfume, dois livros (aí, seria difícil escolher) e o poema que um dia lhe escreveram , a caneta azul, numa folha amarelo-desmaiado. 

Foi num dia como outro qualquer. Fora trabalhar cedo, almoçara com as amigas, regressara a casa à hora habitual, cumprimentara a vizinha do lado enquanto apanhava a roupa, iniciara o jantar... e, de repente, desligou o fogão, dirigiu-se ao quarto, abriu o armário, pegou na mala azul e saiu.

Não houve bilhete de despedida, nem sms, nem telefonema, apenas um pedaço de carne mal passada na frigideira.


(Esther - YannTiersen)

domingo, outubro 25, 2020

O Amor tudo cura

(John Hoppner)

Naquele tempo, era a escuridão. Apenas o brilho pontual no olhar de um ou outro sonhador servia de alento a todos quantos acalentavam a esperança de, um dia, verem a luz de um sol que lhes contavam dar cor aos dias e calor à pele.

Andava, então, Cupido em alegres brincadeiras, ignorante, ainda, da existência de Psique. Belo e estouvado, corria pelas nuvens, quando uma delas, de formato irregular, lhe travou a corrida, fazendo-o tropeçar e cair, sem lhe dar tempo a agitar devidamente as asas e voar. Escusado será dizer que a queda foi abrupta e, aterrar num planeta escuro e desconhecido deixara-o confuso, para além de dorido.

Valeram-lhe dois pontos de luz até aos quais se guiou, num voo de altos e baixos, em ziguezague, os olhos de Psique! 

 para a ver iluminada, Cupido encontrou forças para invocar os Deuses e dar à Terra a luz do Sol. 

Ficou, assim, provado que o amor pode curar todos os males, até o das trevas. 



                                 

terça-feira, outubro 06, 2020

Parcimónia


Geria a sua vida com parcimónia. Cérebro com coração subordinado, dias a compasso certo, guarda roupa alinhado e discreto, olhar contido.

Um dia, comprou um par de botas vermelhas.



(Pamela Sienna)

Parcimónia? Definam parcimónia!


quarta-feira, setembro 09, 2020

Trazido pelo vento - último

 Não fora aquela varanda debruçada sobre a rua, ainda teria o meu coração intacto.

Amiga, mas para que querias tu um coração desses?