terça-feira, junho 09, 2020

Permanência


(Marc Chagall)

It is here

What sound was that?
I turn away, into the shaking room.
What was that sound that came in on the dark?
What is this maze of light it leaves us in?
What is this stance we take,
To turn away and then turn back?
What did we hear?
It was the breath we took when we first met.
Listen. It is here.
Harold Pinter

ESTÁ AQUI
Que som foi esse?
Viro-me para a sala trémula.
Que som foi esse que veio com a escuridão?
Que labirinto de luz é este em que nos deixa?
Que atitude adoptamos,
Fugir para depois regressar?
O que é que ouvimos?
Foi o suspiro que demos quando nos vimos pela primeira vez.
Ouve. Está aqui.
Harold Pinter traduzido por Maria Eu


domingo, maio 24, 2020

Davam-se as mãos


(Fabian Perez)


Dava-lhe a mão
como se nela estivesse
o mundo inteiro

Segurava-lhe a mão
como se dela viesse
o mundo inteiro

E havia museus
Filmes em tela gigante
Livros antigos
Passos de milongas

Davam-se as mãos
Davam-se, inteiros.



(Por una cabeza - Carlos Gardel)

quinta-feira, maio 21, 2020

Avatares

      (imagem daqui)


Há algum tempo que se abrigara no espaço quarto, sala, cozinha. Os ecrãs tornaram-se a ligação ao trabalho, à cultura, às pessoas. Tudo lhe parecia estranho, anódino. Para além de que, as pessoas tinham o estranho hábito de se esconderem por detrás de avatares. Deu-lhe para analisar os ditos, numa das reuniões intermináveis (essas, continuavam a arrastar-se, tal como as presenciais, com os discursos repetidos, empolados e narcisistas do costume).
O Dr. Reinaldo de Matos, de rosto pálido e boca cerrada, sempre enfatiotado e com o cabelo cuidadosamente alinhado, aparecia com um boneco bronzeado, cabelo ondulado e crespo e uma t-shirt preta; a Dr.ª Susana, da contabilidade, a morena de rabo-de-cavalo dos fatinhos pretos, azuis, ou castanhos, óculos transparentes e sapatos de meio tacão, estrelava um loiro platinado, óculos escuros e uma blusa verde alface com folhos; por último, a Ritinha! Ah, a Ritinha costumava rir-se da Dr.ª Susana a toda a hora. Ai que direitinha, ai que passadinha a ferro, ai que óculozinhos sem sal! Pois não é que o seu avatar é uma rapariga loira, de rabo-de-cavalo, com blusa branca e fato saia e casaco preto?
Só o José, das compras, lhe fazia companhia com a câmara ligada. Grande José!
Será que ele também ouve o "Va Pensiero"?




(Coro virtuale "Va pensiero" ("Nabucco" di G. Verdi) - International Opera Choir)

terça-feira, maio 12, 2020

Dos amores antigos

(imagem daqui)


Enquanto ele lhe entrançava a ternura no cabelo, os olhos de ambos reflectiam a luz de um amor antigo.


segunda-feira, abril 20, 2020

Constatações prosaicas




Da varanda, estranha-se o silêncio da praça.

Há uma espécie de angústia a tolher os olhares dos vizinhos, em cumprimentos mais calorosos do que aqueles a que nos acostumaram.

“Vi um menino, mamã!” -ouve-se do andar de cima –“Vi-o a correr com o cão! Também quero ir à rua!”

Nem as gaivotas se atrevem a pousar junto ao lago, depois de mais de vinte quilómetros de voo. Nem elas se fazem ao céu desde a praia.



domingo, março 29, 2020

Quando eu morrer

(imagem daqui)

Quando eu morrer, não chorem. Pelo menos, não perto de mim. Estarei lá, acima do meu corpo, vendo(-me)-nos e quererei os risos, os beijos, os abraços. Quererei as palavras de sempre, as críticas e os elogios de sempre. Não me tragam flores. Essas, dêem-mas em vida que eu adoro flores! Reduzam-me a cinzas. Arderei em morte como ardo em vida, em alterosas chamas. Depois, soltem-me ao vento norte, numa praia de águas frias, gaivotas ruidosas e dunas povoadas por recordações de namorados. 
Quando eu morrer, morrerei amando. Por isso, não esqueçam o meu amor.

(texto de Março de 2015)


Do not Stand at my Grave and Weep