terça-feira, outubro 19, 2021

Transmutação

 

(Sebastian Fernandes/Artmajeur)

Sentava-se no lugar do costume, na posição do costume, com os livros do costume, numa rotina cada vez mais muda. Lentamente, parecia fundir-se com o cadeirão que, de dia para dia, ia tomando paulatinamente a forma do seu corpo. Ou seria o oposto, e era ela que parecia vestir a forma do cadeirão, arriscando-se a desaparecer na profusão de flores cor de vinho do tecido?


(Camille Thomas – Dvorák: Songs My Mother Taught Me)

quinta-feira, agosto 26, 2021

Felicidade

 


                                                                      (Paul Bond)

A modorra da tarde quente instalara-se na casa e nela. Gotículas de suor perlavam-lhe o corpo semi-desnudo, na penumbra do quarto. Os lençóis brancos realçavam-lhe os contornos do corpo, deixando perceber alguma flacidez muscular, denotando a idade. Havia algum tempo que aquela cama lhe servia de refúgio nos Verões, cortinados corridos e portas abertas em corrente de ar. Se o corpo aparentava calma, por dentro, era um turbilhão! Anos felizes eram como um filme nas paredes brancas pouco iluminadas, à semelhança dos que eram projectados no passado, em tela portátil, nos longos serões familiares. As gargalhadas dos primos e amigos sazonais, o cheiro intenso do bolo de canela acabado de sair do forno e do licor de leite a fermentar na sala, as cantorias com a mãe durante os preparativos do jantar e o olhar ternurento do pai quando achava que as “suas meninas” estavam mais desatentas.

Chegam-lhe as gargalhadas das meninas e meninos, herdeiros dos tempos felizes. O relógio da torre da igreja bate 6 vezes. É hora de se levantar e juntar mais memórias doces, com novos personagens. 

(Hania Rani - Glass)

terça-feira, agosto 17, 2021

Há um rio

 


Havia um rio perto. Pela manhã, era um mar de prata a adentrar-lhe os olhos. O ruído, ao contrário do que lhe acontecia noutros lugares, trazia nele música: cantos de pássaros, rumores do vento nos canaviais, água em correria nas pedras do leito e um ou outro galo desconcertado nas horas.

Era um rio amigo de há longos anos. De menina, via as mulheres debruçadas nele, as bacias ajoujadas de roupa que iam sovando e esfregando com sabão azul, enquanto punham em dia a conversa que se não tinha com os maridos e filhos.

Na descida para a areia mais branca, chegava a sentir a mão a ser apertada pela do seu pai, quando ele a levava para a água, onde a guiava em braçadas inseguras, numa aprendizagem com o mínimo de técnica e o máximo de amor.


(Einaudi - Waves - The paino collection vol. II)

segunda-feira, junho 21, 2021

Hoje, o futuro.

(Marc Chagall)


Durante quase toda a vida, Joana pensara no futuro.

Primeiro, quando seria capaz de ler os livros colocados na estante mais alta da sala. Depois, quando lhos permitiriam ler.

Pelos seus 10 anos, perguntava-se como seria “ser mulher”. Ouvia as conversas sussurradas das mais velhas e não se lhe afigurava coisa de muito interesse. De grande interesse, por outro lado, eram as perspectivas de descobrir a que saberia um beijo, daqueles longos e apaixonados dos romances, lidos aos 13 anos.

O beijo veio aos 15. Não foi longo nem apaixonado. Oh, desilusão! Ficou o futuro prometendo melhor. E foi! Paixão, ardor, namoro dos 17! Nem imaginava outro assim! Mas houve outros beijos, de outros lábios. Mais os beijos que os lábios, é certo, mas bons por demais, antevendo não desapontarem.

Universitária, sonhava com a profissão. 

Curiosamente, chegou um tempo em que o futuro era o agora. Celebrava os momentos como se fossem únicos e últimos. Os livros começaram a ser (re)lidos ainda com mais entusiasmo e os beijos (ah, os beijos), sempre ardentes e demorados.


(Gustavo Santaolalla - Alma)

sexta-feira, junho 11, 2021

Dia de Todos os Santos

 

(Norman Rockwell)

Era no Dia de Todos os Santos que a família se reunia. Primeiro à volta da mesa, onde o peru era rei e Joana se arrepiava com a visão ávida dos tios, que atacavam as travessas com as mãos e terminavam a refeição com o queixo a pingar gordura, os dentes roxos do vinho tinto e a camisa com nódoas de várias cores, quando não com bocados de arroz ou leite-creme em versão minimalista e seca.

Enquanto os homens se arrastavam até à mesa de pedra do quintal para fumarem e acabarem com a garrafa de bagaço e as crianças jogavam ao esconde-esconde ou à macaca, as mulheres afadigavam-se para arrumarem a cozinha. No dia anterior, a elas tinha cabido a ida ao cemitério, levar os baldes, os materiais de limpeza e as flores, para as “suas” campas ficarem a brilhar e os arranjos dignos de inveja.

Juntavam-se, então, ao portão da quinta e iam, em passo lento, até ao cemitério. Uma pequena feira de vaidades, essa visita. Sussurravam-se críticas e elogios, cumprimentavam-se aqueles que só nesse dia se deslocavam à aldeia, enchiam-se os caminhos esconsos de “filhos Pródigos”.

Joana nunca gostara dessa data. Os primos mais velhos, João Maria e Manuel António, olhavam-na do alto dos seus 15 e 17 anos vividos no Porto, como se fossem príncipes e ela encolhia-se no vestido novo, soquetes brancas e sapatos de verniz devidos ao Domingo, apesar de os 14 anos já lhe permitirem umas meias de vidro e uns sapatos de meio tacão. Vingava-se a atiçar-lhes o cão e a meter-lhes minhocas pela roupa dentro!

Havia, porém, uma coisa que a incomodava ainda mais do que a atitude altiva dos primos, o tempo passado junto às campas. Jurava que os mortos se agitavam, falavam entre si e, no caso das crianças falecidas, até choravam, despertadas do seu sono.

Quando eu morrer, pensou Joana, quero ser feita em cinza. Assim, estarei em todos os lugares sem estar em lugar nenhum.


 

(Dead Can Dance Anabasis)

quarta-feira, maio 05, 2021

Retorno

 


Ondina vivera já muitos anos. Passava dos noventa, agora. Tinha sido jovem aprendiz de costura na mestra da aldeia, cortando, cosendo e bordando o enxoval. Ainda nos verdes vinte, João, rapaz garboso e bom de palavra, tratou de conquistá-la e levá-la ao altar.  Logo se afadigou na lide da casa, em dar à luz duas filhas (que difíceis foram os partos, naquela casa apertada) e em educá-las nos preceitos antigos.

A vida correra sem grandes sobressaltos, mas também sem a alegria que imaginara enquanto bordava os lençóis de linho. João trabalhava de manhã à noite e, ainda que o garbo estivesse lá, as palavras foram morrendo aos poucos.

Recordava-o num misto de ternura e de raiva. Amara-o, é certo, mas mantivera escondida a revolta de se ter diminuído mais de sessenta anos, de nunca ter tido a coragem de ripostar quando lhe pedia palavras ternas e ele se ria dela.

Agora, no caminho da cama para a cadeira de rodas, deixava-se levar, enquanto jurava que, doravante, teria 20 anos e regressaria à costura.


 
              (Ólafur Arnalds - So Far)