quarta-feira, agosto 05, 2026

Malgas de marmelada

 Criança, olhos luminosos, quer crescer, de tão grande o mundo. 

Em bicos de pé, tenta chegar à malga de marmelada, longe da sua altura, a secar no parapeito da janela da cozinha. 

Ah, se eu fosse grande!

Adulto, olhos raramente providos de brilho, queria voltar atrás no tempo, de tão pequeno ser o mundo.

Já não há malgas de marmelada no parapeito da janela.

Ah, se eu fosse menino!

sábado, abril 25, 2026

Sou Abril

Sempre a combater as trevas! Sou Abril!


"Juro por minha honra 

que combaterei a treva

 com a minha faca de mato 

e com o anzol da linha pescarei

 o monstro que habite o fundo 

do lago antes que assalte 

o som do menino e ponha à prova 

o medo do homem fraco."

Lídia Jorge 

           


                         (martanunesilustra)

domingo, novembro 23, 2025

Dança

 


Há muito tempo que Maria Clara não sonhava. Não sabia se algum caçador de sonhos tinha passado pelo seu coração, ou se este se esvaziara com o tanto que sonhara antes.

Chamava o sono com doçura, na esperança de que lhe trouxesse histórias mágicas, onde se embalasse, favorecendo-lhe o decorrer dos dias, tão iguais e desimportantes.

Um dia, viu um anúncio de uma escola de dança. Quem sabe dançar não os traria de volta?

E foi assim que Maria Clara, embalada em braços desconhecidos, começou a sonhar de novo.


                             Música: Gustavo Dudamel, Danzón N.º 2


quarta-feira, novembro 12, 2025

“Pelos nossos corações passa a linha de fogo”

 

(lee jeong lok)

 

Ideia 

Os teus pensamentos

fogem

com asas negras

na obscuridade

silenciosa

morcegos

de uma gruta

profunda

e sem eco.

Dagur af degi, 1998

In “Pelos nossos corações passa a linha de fogo”, Antologia de poesia islandesa.

 

 

As minhas ideias

fluem

plenas de luz

na claridade

melodiosa

de um mar

profundo

e clamoroso.

Glosa de Maria Eu, 12/11/2025

 

Música: Ay! este azul - Cabral. 


quinta-feira, agosto 14, 2025

Verão 2

 O vento apresentou-se seco e forte, despenteando as árvores e trazendo palavras proferidas em conversas diversas.

"Qual menina?"

"Ora bolas..."

"Cinco euros..."

"Traz mais pão..."

"Olha o canito a roer o chinelo..."

Nada como sentar-se no terraço em Agosto. Calor, vento, palavras soltas a construirem frases em vozes de outrem.

Uma borboleta escapou de uma página do livro da Clarinha, atravessou a janela entraberta e esvoaçou, elegante e etérea, desaparecendo no campo pejado de margaridas.


terça-feira, agosto 12, 2025

Verão 1

 E de repente era Agosto, num calor abafado de sol à mistura com afectos. 

Entram sonhos pelas portadas abertas e há borboletas, unicórnios e dinossauros a espreitar dos livros espalhados pela casa grande. 

Os pássaros rivalizam em cantos com os grilos, enquanto os cachos de uvas amadurecem na vinha sobranceira, como que numa mensagem de vida à nespreira moribunda, mas com anos de histórias para contar.