quarta-feira, janeiro 13, 2016

Conversa interrompida


(Nuno Moreira)

Passava horas à conversa. Os anos tinham-lhe trazido aquela vontade de se aproximar das pessoas com uma palavra simpática. Depois, palavra puxa palavra, a conversa desatava-se e ia ficando, em amena cavaqueira, fosse o assunto trivial (a chuva que não pára, o cabelo da vizinha que passou de negro azeviche a amarelo palha, a abertura de um restaurante de peixe nas redondezas) ou de maior profundidade (a política ambiental, a ética no discurso político, as possíveis consequências do teste da Bomba H na Coreia do Norte).
Um dia, contudo, cansou-se das palavras. Pareciam-lhe todas já ditas, já ouvidas. Magoavam-na inexplicavelmente. Desgostou-se, até, de pensar nelas. Pegou numa tesoura e cortou a língua na crença de que cortaria, junto com ela, o pensamento.


42 comentários:

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    1. Ao menos, sempre cresce de novo! ;)

      Beijocas, Stormy boy calvo. :)

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  2. Caso haja arrependimento
    conheço cirurgião perto

    Arranja línguas cortadas
    Opera as afiadas
    E receita
    no pós-operatório
    terapia milagreira
    a par de sã ginástica de recuperação:
    Falar do que sente
    Falar só por falar, não

    Não tem consultório particular e passa receitas SNS

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    1. Eu bem digo que tu és um homem influente! ;)

      Beijinhos, Rogério :)

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  3. Um final totalmente inesperado.
    Mas brilhante!

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  4. Fosse tudo assim tão fácil (salvo seja que cortar a língua deve doer)
    Adorei a imagem.
    Beijos Maria
    :)

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    1. Deve doer, sim, impedir-se a palavra definitivamente...

      Beijos, I. :)

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  5. Valia mais conter a respiração e contar até dez. Concordo, absolutamente, com Pedro Coimbra.
    Beijinho Maria :)

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  6. Ui!
    Maria, esta protagonista já se arrependeu :)

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    1. Imagino-a a correr, com a língua embrulhada em gelo, até ao hospital mais próximo.

      Beijos, mz :)

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  7. "Não há machado que corte a raiz ao pensamento."

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  8. Maria, por vezes temos momentos ocasionais de silêncio que tornam a nossa conversa um prazer!;)

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    1. Dar tempo para que se degustem as palavras...

      Beijinhos, Legionário :)

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  9. O pensamento é selvagem e autónomo!
    Não adianta cortar nada.
    Beijo Maria.:))

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    1. É que não adianta MESMO!

      Beijos, Helena. :)

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  10. Não há página em branco que fique por gritar um pensamento, mesmo que na mudez compulsiva.
    Gostei muito do teu trio :)

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    1. De palradora compulsiva a escritora. Pode ser a solução!
      Obrigada, Sandra!

      Beijos :)

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  11. Acho que arrepio se propaga como uma onda, com tal metáfora, escrita numa imagem, fotografada em palavras.

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    1. Arrepia, sim, Xilre, imaginar a dor que leva à mutilação, seja ela real ou metafórica.

      Beijinhos :)

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  12. Volto aqui para te dizer que hoje vi publicada uma poesia tua, gostei muito e fiquei deveras orgulhosa de te encontrar representada com a devida e merecida honra.
    Beijinhos.:))

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    1. Mesmo???? Procurei o teu endereço de email para te perguntar onde e como mas não o encontrei no teu perfil.

      Beijos, Helena, e muito obrigada. :)

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    2. Olá boa noite, vai ao meu blog, tens uma surpresa (mimo) do que encontrei e achei lindo!
      Beijinho Maria.:))

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    3. Já te agradeci lá e agradeço, de novo, aqui. Muito!

      Beijos, Helena. :)

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  13. ~~~
    Que grande paranóia!

    Não houve ninguém que notasse a depressão da criatura!

    O concerto de violinos é lindo, mas nem só de ouvir vive o homem,

    pois «é um ser eminentemente social».

    ~~~ Beijinhos musicais. ~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Cegos a rodear uma palradora, só pode!

      Beijos, Majo. :)

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  14. Não houve uma alma caridosa que lhe dissesse para ter tento na língua?
    Uma pessoa sem língua fica reduzida à ínfima condição de cabide. Tanta falta lhe fará para poder pensar.

    Bj

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    1. Houvera ouvidos em vez de língua e nada seria igual!

      Beijinhos, Agostinho. :)

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  15. Língua de trapos, em tanta casaca cortou, que olha...
    :)
    (Credo. Só me saem metáforas infelizes, da tua metáfora tão boa.)
    Beijos, Marioska :*

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    1. As tuas metáforas são sempre muito apreciadas por estes lados!

      Beijos, Lindinha azul. :)

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  16. Que desfecho magnífico, Maria, de tão surpreendente.

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    1. Bem...Para a palradora deve ter sido doloroso! ;)
      Obrigada, Ava!

      Beijos :)

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  17. Tratasse antes de treinar a reflexão para não falar demais. Como sempre me ensinaram e isso não quer dizer que tenha aprendido, "Pensa tu o que dizes mas não digas tudo o que pensas"
    Beijinho Maria

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  18. Respostas
    1. Línguas cortadas ou pensamento livre? :P

      Beijo, Laura. :)

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  19. Minha querida Maria, a escrever tão despudoradamente sobre mim?
    Isso não se faz!

    :))

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    1. Desculpa, achei que não lerias. :))

      Beijos :)

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