sexta-feira, dezembro 06, 2013

Só neste país

Era uma vez um país. Nesse país, os meninos tinham um manual único onde toda uma ideia de sociedade lhes era transmitida. As mulheres eram sempre donas de casa, asseadas, preocupadas com o marido e os filhos. Os homens eram trabalhadores, iam à tropa e faziam-se respeitar. Os meninos eram sempre limpos e felizes, mesmo que pobrezinhos. A aldeia era o melhor lugar do mundo para se viver e ninguém comia ou dormia sem louvar a Deus.
Era uma vez um país em que os meninos e meninas tinham entradas diferentes para a escola, recreios diferentes, mas livros iguais, nos quais "ignorante" e "pobrezinho" eram sinónimo de alegria!

A vida no campo

O Manuel António desde pequenino começou a gostar da vida no campo.[...]
Mais tarde, quando já andava na escola, aproveitava as horas livres para ir fazer companhia ao pai e ajudá-lo nas fainas da lavoura.
Às vezes, na hora da labuta, ouvia a voz do pai a cantar atrás dos bois enquanto o arado ia rasgando a terra. As margaças e o terrunho ainda fresco lançavam no ar tépido aromas sadios; e nessas ocasiões o Manuel António, extasiado e pondo os olhos no pai, sentia crescer lá dentro de si uma grande vontade de ser lavrador.
Quando chegou à idade, foi para soldado. Voltou à sua terra cheio de saudades do pai, dos bois e das lavradas. Casou. Tem hoje um rancho de filhos. Trabalha e é feliz. Na aldeia todos o respeitam.


A Joaninha

A Joaninha, logo que se levanta, lava-se, penteia-se, veste-se e calça-se.
Quando vai dar os bons dias aos pais, quase sempre a mãe lhe compõe um pouco melhor o laço da cabeça.
Reza as suas orações, almoça e vai para a escola.
Pobrezinha, mas muito lavada, vestido sem nódoas nem rasgões, é um
encanto vê-la, de olhos pretos, pele morena e cabelos lisos.
À tarde, faz os trabalhos indicados pela sua professora e ajuda a mãe nas lidas caseiras. No arranjo da casa é desembaraçada, e já consegue dar beleza às coisas.
Na cozinha faz, quando é preciso, qualquer refeição de que todos gostam.
Depois da ceia, limpa o calçado, arruma na saca tudo o que no dia seguinte há-de levar para a escola, dá as boas noites a todos e, depois de se encomendar a Deus, deita-se e adormece muito sossegadamente.

Livro de Leitura da 3ª classe, Edição de 1958.

Há uns 10 anos atrás, entrei numa loja de uma vila deste país. Em cima do balcão, uma resma de livros com uma capa no mínimo estranha para os dias que correm. Livro de Leitura da 3ª classe, rezava a dita capa, com três meninos de bandeira em riste, uma delas empunhada pelo orgulhoso rapazinho da Mocidade Portuguesa. Questionado o vendedor sobre tal quantidade de manuais de 1958, e julgando que a saudade tinha atormentado os quarentões a ponto de os querer fazer comprar mais do que um exemplar, a resposta foi: Há uma senhora professora que só quer ensinar por este livro! Diz que este é que é bom!

13 comentários:

  1. Há uma música que ilustra bem esse espírito: "Oh tempo, volta p'ra trás..." Um caso de alguém que parecem ter lançado a âncora no tempo, sem conseguir navegar para lá do cais onde acostou há muito. Não é caso único -- encontram-se a cada passo da vida. O problema é que o tempo é um comboio que anda sempre a tempo: não espera por ninguém.

    Boa tarde, Maria :)

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    1. O que pergunto a mim mesma é como a sra. professora conseguia usar aquele manual com crianças cuja realidade nada tinha a ver com aquela e, ao mesmo tempo, como é que os pais não questionavam semelhante opção! A ignorância a que fomos submetidos durante décadas deixou, certamente, marcas mais profundas do que aquelas que imaginamos!

      Beijinhos Marianos, Xil! :)

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  2. e para ilustrar ainda mais a "alegria" desses miudos na capa do livro, aqui fica o hino:

    "Lá vamos, cantando e rindo
    Levados, levados, sim
    Pela voz de som tremendo
    Das tubas, clamor sem fim.

    Lá vamos, que o sonho é lindo!
    Torres e torres erguendo.
    Rasgões, clareiras, abrindo!

    Alva da Luz imortal,
    Roxas névoas despedaça
    Doira o céu de Portugal!

    Querer! Querer! E lá vamos!
    Tronco em flor, estende os ramos
    À Mocidade que passa.

    Cale-se a voz que, turbada,
    De si mesma se espanta,
    Cesse dos ventos a insânia,
    Ante a clara madrugada,
    Em nossas almas nascida.
    E, por nós, oh! Lusitânia,
    -- Corpo de Amor, terra santa --
    Pátria! Serás celebrada,
    E por nós serás erguida,
    Erguida ao alto da Vida!

    Querer é a nossa divisa.
    Querer, palavra que vem
    Das mais profundas raízes.
    Deslumbra a sombra indecisa
    Transcende as nuvens de além...
    Querer, palavra da Graça
    Grito das almas felizes

    Querer! Querer! E lá vamos
    Tronco em flor estende os ramos
    À Mocidade que passa."

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    1. Pois... Hinos de outrora que alguns lamentam terem ficado para trás!

      Beijinhos Marianos, Legionário! :)

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  3. Eu comprei o livro, por nostalgia e para o criticar no blogue.

    Mas como é possível alguém querer ensinar por ele?! Até porque há programas a respeitar.

    Simplesmente, receio bem que Crato ainda nos faça voltar ao tempo das regentes e do livro único.

    Entretanto vai destruindo a Escola Pública e dando dinheiro aos privados, além de humilhar a classe docente com um exame completamente disparatado e que ainda para cúmulo é pago pelos próprios!!

    Um bom domingo

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    1. Também me espantei! Ainda há muitos Velhos do Restelo neste país!
      Quanto ao que estão a fazer aos professores, eu diria ao povo de Portugal, é vergonhoso!

      Beijinhos Marianos! :)

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  4. Por falar nisso...

    http://www.youtube.com/watch?v=F81PyXJq-a8

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  5. vi estes livros em destaque na loja da estaçao de serviço de Aveiras (A1), mesmo ao lado do café, colocados em pirâmide decorativa logo à entrada da porta! quando questionei a pessoa na caixa sobre o porquê de tal destaque respondeu-me: " não sei... deve ter sido decisão do gerente..." !!!

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    1. Nostalgia ou saudosismo???

      Beijinhos Marianos e obrigada pela visita! :)

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