quinta-feira, novembro 28, 2013

Da paixão

                       (Astor Salcedo - Lost innocence)

"(...) Bartolomeu debruçou-se sobre mim e disse-me ao ouvido:
- Disse-me...
- Não, nem vou repetir...
Senti-lhe o perfume, um aroma a tabaco, um vago lume a pimenta, a sândalo, a maresia, e pensei, ah, Corto Maltese devia usar um perfume assim. Essa combinação perdeu-me; o piropo estúpido, o calor da voz, o perfume exótico. Uma explosão nas veias de dopamina, neuroepinefrina e feniletilamina. O coração aos saltos. A pele húmida. O rosto a arder.
(...)
Diz-se de alguém, quando desmaia , que perdeu os sentidos. Eu, naquele momento, ganhei sentidos. Aconteceu-me o inverso de um desmaio: acordei.
Eu adormecia a pensar em Bartolomeu e acordava a pensar nele. Durante esses meses, a propósito, deixei de tomar comprimidos para dormir, e voltei a sonhar. Descobri, sem surpresa, que partilhávamos sonhos. Sonhávamos as mesmas coisas, nas mesmas noites (...)"

José Eduardo Agualusa, in Barroco Tropical


10 comentários:

  1. Excelente definição
    da química que enreda a paixão

    e a voz ajuda

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    1. O contrário de perder os sentidos... Acordar para o cheiro, o som, o calor do outro!
      Esta canção é muito quente. :)

      Beijinhos Marianos, Rogério! :)

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    1. Às vezes, calha tropeçarmos em palavras assim!

      Obrigada. Beijinhos Marianos! :)

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  3. Com uma escrita absorvente e translúcida, Agualusa convida o leitor a sonhar e a viajar através das suas aventuras onde os altos e baixos se cruzam no emocionante mar de conflitos pela paz interior de cada um.

    A alegria e a felicidade no amor são dois estados diferentes e com significados que se podem opor quando necessário, segundo o autor…

    «A alegria não se parece com a felicidade, a não ser na medida em que um mar agitado se parece com um mar plácido. A água é a mesma, apenas isso. A alegria resulta de um entorpecimento do espírito, a felicidade de uma iluminação momentânea. O álcool pode levar-nos à alegria, ou um novo amor – porque nos "obscurece" temporariamente a inteligência. A alegria pode, pois, ser burra. A felicidade é outra coisa. Não ri às gargalhadas. Não se anuncia com fogo de artifício. Não faz estremecer estádios. Raras são as vezes em que nos apercebemos da felicidade no instante em que somos felizes.»

    Agualusa é um autor intemporal que sonha e realiza, faz e refaz, quebrando regras e reescrevendo a história como se fosse a primeira vez que esta é contada. Um mundo existente onde a imaginação se cruza com as lendas, o passado e o futuro!

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    1. Gosto de Agualusa e este Barroco Tropical tem muitas passagens dignas de ser citadas!

      Beijinhos Marianos, fiel Legionário! :)

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  4. (perfeito!)

    E eu cada vez estou mais "apaixonada" pelo teu cantinho...
    Ainda bem que chegou a tua vez!


    Beijos apaixonados
    (^^)

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    1. Obrigada, Afrodite! Apenas fui buscar o que outros fizerame juntei os pedaços!

      Beijinhos Marianos! :)

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