terça-feira, dezembro 31, 2013

Feliz 2014!

     (El barco amarillo, Veronica Byers, Chile)

O ano está quase a terminar. Olho pela janela e a noite desceu rapidamente sobre a cidade. Ontem desceu assim, também, na aldeia onde cresci. Onde havia uma luz meio desmaiada a deixar ver as tangerineiras quase a serem derrubadas pelo peso dos frutos e as camélias a abrir orgulhosamente no verde da cameleira, havia apenas o negrume da noite. Tantas vezes pisei aqueles campos onde apenas vislumbrava pontos luminosos em movimento, projectados pelo automóveis que passavam pela estrada adjacente. Tantas vezes trepei às árvores, brinquei ao esconde-esconde, corri atrás das galinhas, apanhei flores, fiz barquinhos de papel para cruzarem os regos de água... Foram anos felizes. Foram anos com a mãe a fazer biscoitos de canela ao Sábado à tarde, enquanto o pai trabalhava (sempre, sempre a trabalhar, o pai), o cheiro bom da marmelada e da geleia. Não há mais, esses anos...
Mas haverá outros. Haverá, certamente, anos em que eu faça biscoitos ao Sábado à tarde e as crianças cheguem com olhos brilhantes e inocentes a tentar roubar alguns do tabuleiro, ainda quentes. Haverá dias em que o cheiro, o olhar, o toque, sejam intensos e desejados.
Haverá 2014, sem planos, sem declaração de intenções. Por ora, sou feliz. 

FELIZ 2014!

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Do cheiro



 (Egon Schiele)
"Quando perdemos o nosso cheiro somos vadios, como cães sem coleira. O nosso cheiro é aquele que sopra da raiz da pele e tem o nosso nome. É a lingerie mais íntima do corpo, que nos veste por dentro e por fora, mesmo quando nus. E como lingerie que é, também fica por vezes perdido nas mãos de outra pessoa, ou entre os lençóis da cama, mas sempre acabamos por recolher o nosso cheiro, sempre, para revestirmos dele a nossa tez, a nossa nudez, a nossa timidez." 

 João Morgado, in Diário dos Imperfeitos

domingo, dezembro 29, 2013

Inquietação



     (A persistência da memória - Salvador Dali)

Acordara com a estranha sensação de estar a viver dentro de um sonho. Lavara a cara com água que devia estar fria e não sentira sequer um arrepio. Pensando bem, não sentira, sequer, a cara molhada. Tomara duche, penteara-se, barbeara-se, vestira-se. Sim! Sabia que tinha feito tudo isso e, porém, ao passar pelo espelho nada via. Nem a camisola vermelha se reflectia na superfície lisa iluminada pela luz do sol que entrava pela janela do quarto. Desceu as escadas que levavam até à rua fronteira à casa de dois em dois degraus. Ouvira a voz da Ana e queria vê-la. Queria tanto vê-la que quase tropeçou numa pedra irregular do passeio. Ana aproximava-se, sorrindo, como lhe era habitual. Um sorriso aberto, límpido. Ele olhou-a, parado no meio do passeio, e atirou um "Bom dia, Ana!". Ela passou bem rente a ele e nem pestanejou, o sorriso inalterado, os passos certos e ritmados que lhe davam o ar elegante que ele tanto admirava. Cabisbaixo, regressou ao quarto e foi então que se viu, deitado na cama, num sono aparentemente tranquilo...

Heaven

           (Lovers - Jarek Peczel)

Viam-se com a ponta dos dedos, com o eco das vozes...

sábado, dezembro 28, 2013

Viagem

Perguntei ao servo Leo por que motivo possível os artistas pareciam, por vezes, só seres meio-humanos enquanto as suas imagens tinham um aspecto tão incontestavelmente vivo. Leo olhou para mim, admirado com a minha pergunta. Depois largou o cão de água que levava ao colo e disse: "Com as mães também é assim. Depois de terem dado à luz os filho, dando-lhes o seu leite e a sua beleza e força, tornam-se então pouco vistosas e já ninguém pergunta por elas."
"Isso é muito triste", disse eu, sem propriamente pensar muito nisso.
"Eu penso que não é mais triste do que todas as outras coisas", disse Leo, "talvez seja triste, e também é belo. A lei assim o quer."
"A lei?", perguntei cheio de curiosidade. "Que lei é essa, Leo?"
"É a lei de servir. Aquele que quiser viver durente muito tempo tem de servir. Todavia, aquele que quiser dominar poderosamente, não vive muito tempo."
"Porque é que todos anseiam, então, por poder e domínio?"
"Porque não o sabem. Há poucos que nasceram para dominar, estes permanecem alegres e saudáveis. Os outros, porém, os que só se fizeram Senhores através da sua ambição desmedida, acbam todos no nada."
"Em que nada, Leo?"
"Por exemplo, em sanatórios."
Percebi pouco dessa conversa, mas mesmo assim, as palavras ficaram na minha memória, e no coração fiquei com uma sensação de que este Leo sabia muita coisa, que sabia provavelmente mais do que nós, que éramos aparentemente seus Senhores." 

Herman Hesse, in "Viagem ao País de Amanhã"

             (© Leszek Paradowski)

Procuramos respostas às nossas dúvidas em viagens por dentro de nós, da nossa vida, dos que cruzam os nossos caminhos. Viajamos em busca do auto-conhecimento, da Luz.

sexta-feira, dezembro 27, 2013

Caminhos

A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo
sismos, orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.



Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.



Nos desertos - íntimos, insuspeitos -
já caem com a calma as avestruzes
- ou a distância, com os oásis, finda;



à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego, e à vinda.

Luíza Neto Jorge, in "Quinze Poetas Portugueses do Século XX"

       (Maria STT)

E é com a raiva de uns dentes afiados que eu rasgo o caminho até ao êxtase.