quarta-feira, janeiro 17, 2018

Amizade entre iguais

(imagem daqui)


Paco e Irene tinham chegado há duas semanas à cidade. Estranharam o frio, a chuva, a aridez da língua que não enrolava os erres nem soava a canção de amor. Traziam pouca coisa na bagagem, três mudas de roupa, artigos de higiene básica e os documentos de identificação. Zabelita, chegada uns meses antes, alugara-lhes um apartamento na periferia. Sabiam que não seria suficiente para grande coisa, mas nada os fazia prever a degradação do bairro. Nem o taxista quisera entrar no emaranhado de ruas estreitas, tão estreitas que parecia terem voltado ao local que tinham abandonado em busca de uma vida menos dura.
Paco tirou do bolso do casaco coçado o papel onde anotara o endereço que passaria a ser o deles.  Irene limitava-se a segui-lo, olhos negros ainda mais negros de aflição. 
O prédio, cinzento e negro das chuvas, já tinha sido azul. Viam-se manchas da tinta antiga aqui e ali, à  mistura com as pichagens. Tentaram usar o elevador, em vão. Subiram as escadas esconsas até ao 4º Esq.-Frente. A chave estaria debaixo do vaso branco, ao fundo do corredor, dissera-lhes Zabelita. Parecia-lhes extraordinário que assim fosse, mas estava lá. Franquearam a entrada. Apesar da pobreza, estava tudo limpo e, em cima da mesa da cozinha, bananas e laranjas davam uma nota alegre.
Irene abeirou-se da janela. Num repente, um pardalito veio bicar o vidro. Sorriu, pela primeira vez desde há muito, e repetiu o som das bicadas com o dedo, pelo lado de dentro. 
-¿Vamos a descansar un poco ?, perguntou Paco.
-¡Sí, es mejor !, respondeu.
Acordaram com o vento a fustigar a persiana. 
-Voy a buscar fruta para comermos., disse Irene, levantando-se a custo.
Na janela da cozinha, o pardalito aninhava-se num recanto, como que esperando-a, apesar da neve. Mal deu conta da sua presença, retomou as bicadas. Irene descascou uma banana, esmagou um pedaço e, abrindo a vidraça com cuidado, estendeu-o na mão aberta à avezita que não se fez rogada à refeição. Olhava-a nos olhos entre cada degustação, como se lhe quisesse agradecer. 
-Irene! 
Paco chamava-a
-Excusa. ¿Nos vemos después?
O passarinho chilreou, como que a responder-lhe e ela, antes de fechar a janela, tirou a fruta do cesto, forrou-o com um pano, protegendo a parte de cima com uma cobertura improvisada de um saco de plástico, deixando o abrigo bem entalado no parapeito para que não fosse levado pelo vento.
-Ahora que tengo un amigo, va a ser más fácil., pensou Irene, sorrindo, enquanto via o chilreador acomodar-se.


22 comentários:

  1. Chapelada para o seu belíssimo texto.
    Bjs

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  2. Foi muito bom ler este texto Maria, para começar o dia:))

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    1. Haja um passarinho no teu beiral!

      Beijinhos, Legionário :)

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  3. Com amigos, a viagem é mais fácil.
    Beijos Maria :)

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  4. Um amigo torna tudo mais fácil e agradável. Boa noite Maria

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  5. Uma ternura, essa amizade com um passarinho. :)

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  6. (Ninguém se apercebeu
    mas...
    o passarito era eu)

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  7. conheço um pássaro parecido, uma questão de lealdade de bicho.
    Ele, o pombo (no caso é pombo) diz-se ser o melhor amigo
    do meu amigo. Nunca tira os olhos dele.

    é coisa de bichos...

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    1. Linguagem de pássaros. Quem sabe o teu amigo é um?

      Beijos, KK :)

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  8. Um texto maravilhoso ! ...
    Sabes, que fiquei com a sensação que estavas a contar um facto real ?... Muito bom, mesmo !!!
    :)

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  9. Ser sensível nesse mundo requer muita coragem.
    Todo dia.
    Esse jeito de ouvir além dos olhos,
    de ver além dos ouvidos,
    além do horizonte...
    Esse amor tão vívido em terra em que
    a maioria parece se assustar
    parece que o mundo tem medo de amar.
    Tenha um abençoado final de semana.
    Um Domingo com missa ou culto
    tanto faz Deus esta em toda parte.
    Bjs.Evanir.
    Sinto falta do seu carinho.
    Ficaria feliz se pudece ver a tristeza do meu
    profundo olhar.
    Texto belíssimo

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