Havia, no campo da casa grande,
muitas árvores: pinheiros mansos, abetos, cameleiras, laranjeiras, ameixoeiras, cerejeiras,
pessegueiros, mas a nespereira… a nespereira tinha sempre sido especial.
Talvez por tê-la visto
crescer, acolhido o seu corpo de menina em escaladas e assistido aos primeiros
suspiros e desgostos de amor, ladeando a janela do seu quarto durante tantos anos, primeiro
usando a sombra das paredes para ir trepando sem secar, depois oferecendo ela
sombra nas tardes quentes de Verão.
Pousou as mãos no tronco
ferido pela idade. Tantas feridas abertas. Tantas cicatrizes. Seriam as dela ou as de ambas?
"Aurélia distinguia-se pela sobriedade, que era nela a consequência de temperamento e educação. Não quer isto dizer que fosse dessa espécie de moças papilionáceas que se alimentam do pólen das flores, e para quem o comer é um ato desgracioso e prosaico. Bem ao contrário, ela sabia que a nutrição dá a seiva da beleza, sem a qual as cores desmaiam nas faces e os sorrisos nos lábios, como as efémeras e pálidas florações de uma roseira ética.
Assim não tinha vergonha de comer; e sem vaidade acreditava que o esmalte de seus dentes não era menos gracioso quando eles se triscavam como a crepitação de um colar de pérolas; nem o matiz de seus lábios menos saboroso quando chupavam uma fruta, ou se entreabriam para receber o alimento."
Senhora, José de Alencar
Adorava ver Aurélia comer! Costumava sentar-se numa mesa desde onde a pudesse observar, sempre tão composta, a inquietar-se perante as opções do menu; imaginando cada sabor, cada aroma... Era toda brilho no olhar. E quando pousavam na mesa o prato escolhido, então! Uma festa!
Aurélia era, nesses momentos de gula, a mais sensual das mulheres, toda ela boca e mãos, deixando a quem a observasse a sugar o tutano de uma costelinha de borrego ou a trincar um bago de uvas, um calafrio na espinha, um desejo instantâneo de a possuir com o mesmo apetite que mostrava, recorrendo ao mesmo método para se deleitar.
Recordava cada tempo com uma vida própria. Aos cinco anos era a menina de
seus pais, caracóis loiros presos em rabo de cavalo por uma fita de cetim a
condizer com os bibes feitos pela mãe, correndo pelos campos; aos nove enchia
os pulmões de ar e respirava fundo no exame da quarta classe presidido pelo Sr.
Inspector de aspecto circunspecto; aos doze enchia-se de raiva, sentada num baú
cheio de roupa, no primeiro de muitos dias desterrada de casa, condenada a um
regime de internato; aos quinze olhava-se ao espelho perguntando-se se algum
rapaz, algum dia, iria querer namorá-la; aos dezasseis afirmava-se Abril,
aquele em que nascera e agora era também cravo, já sabendo que eles, os
rapazes, a queriam namorar; aos dezoito, sempre cravo, houve estudos, muitos e diversos,
com leituras, conversas e debates noites dentro; aos vinte e dois, foram os
meninos que a tornaram de novo aprendiz, enquanto os ensinava como sabia e
podia.
Até hoje, ser aprendiz, consciente de uma busca constante de completude, marca a vida do seu tempo mais longo, sempre cravo, sempre Abril.
(Lisa Gerrard e Marcello De Francisci - When the light of the morning comes)
Maria Antónia tinha crescido a ouvir a recomendação de que enfrentasse a vida como se fosse fazer uma pega de caras e a agarrasse com força pelos cornos.
Começou por fazê-lo, mas não entendia nada de touradas!
Em pouco tempo, escolheu a doçura para viver os seus dias.