A meio da vigília, uma nuvem negra passou diante da lua e tudo ficou negro de um modo sinistro, Maria Antónia pensou ser aquele um sinal de colapso. Era como se fossem dez homens ou um exército a comprimir-lhe o peito, com tanta falta de fôlego, convenceu-se que o coração lhe ia falhar, o anjo da morte a pairar sobre ela.
E o anjo falou e disse: nunca vi ninguém arquejar tão fundo. Queres ser tu a cavar ou preferes que eu o faça? - é preciso responder? - perguntou a Maria Antónia. - é - disse o anjo. Maria Antónia sorriu e respondeu: - um anjo belo como tu não deve sujar as mãos. Foi assim que Maria Antónia se encontrou na presença do mais belo anjo que jamais vira. Ambos sorriram ao mesmo tempo e disseram: - Ainda bem que nos encontramos! Quando acordou sentiu a falta daquele Anjo. Kodak Khrome23 de abril de 2019 às 23:09
E de como de um comentário se faz um post!
Obrigada, KK!
Ólafur Arnalds - So Far + So Close (ft. Arnór dan)
Estranhando a ausência de chilreios, afastou as pesadas cortinas, deixando a luz do sol entrar. Afinal de contas, ninguém a proibira de olhar pela vidraça. Estremeceu! A árvore jazia, cortada, os ramos em desalinho, o tronco ferido de morte. Tentou abrir a janela. Não se mexia. Menina! Menina!-chamou. A janela, por favor! Deve estar avariada! Então? Quem lhe disse que as janelas abriam? Não vê que alguém pode cair na tentação de saltar delas? Foi nesse dia que gizou o plano de fuga. Ao final da tarde, com a roupa por baixo do roupão, misturou-se num grupo de visitas, desceu no elevador, dirigiu-se à casa de banho onde abandonou o roupão, para logo estugar o passo em direcção à porta larga de entrada. Correu! Correu muito, acompanhada de uma revoada de pássaros em chilreios sonoros.
Quando lhe deram ordem de reclusão,
Maria Antónia ruborizou, cerrou os punhos, mas sabia que era o seu
destino.
Na primeira noite, agitou-se na cama
desconhecida em sonhos suados até que lhe entraram porta dentro,
acendendo a luz branca e crua sem piedade.
O dia não tinha clareado, de tal modo
que nem os pássaros se faziam ouvir. Não obstante, tinha-os visto
da janela no dia anterior, nas árvores que sombreavam o parapeito
em cujos ramos os pequenos canoros se afadigavam em voos curtos e alegres.
Seria apenas o início de um dos dias
longos, entre pisos e salas diferentes, onde pontuavam outros como
ela, reclusos de roupão e chinelos, ombros sacudidos por tosses
profundas.