segunda-feira, maio 05, 2014

Como matar pardais





 (Cândido Portinari - espantalhos)

Vieram até mim em busca de como matar pardais, como se alguma vez eu soubesse, ou pudesse matar pardais! Fosse de palha e seria espantalho de campo de milho, não para afugentá-los mas para que viessem pousar-me nos ombros e chilrear-me aos ouvidos as suas histórias de voos...

domingo, maio 04, 2014

Post cliché em dia cliché



 (Bryce Liston - Mother and daughter)

Custa-me que te tivesses calado à rudeza da tua mãe, acabrunhado perante a bazófia dos teus irmãos, submetido ao comando do teu marido. Talvez pudesses falar-me mais das coisas da vida se a tivesses... Falei-te eu delas. Espantaste-te, sorriste, choraste e chamaste-me doida algumas vezes. Tu, a minha mãe-filha, menina grande de olhar curioso a quem nunca deixaram crescer.


 

sábado, maio 03, 2014

Deixem-nos "ser"

(Paul Klee - Carnival Village)

Space Aliens Found Performing In Carnival 
Freak Shows 

In 1920, my great-aunt Jane
hopped a midnight freight
and ran away from home
to sing on a New York stage.
She was only sixteen.


The family took her photograph
off the grand piano
and never again spoke her name.
Later, they grew lonely for her voice.


At sixteen I shimmied down
the same drainpipe Jane had used
and took off to see the fair.


That's where I met
the light-bulb boy from Neptune,
the lizard-woman of the Moon,
the human razor blade from some galactic swirl
and other artists of the weird.


All of them had hopped
midnight rockets off their worlds.

All artists come from outer space.


Like my great-aunt Jane,
they're just looking for some place
where gravity won't hold them down.


So parents– let your children
have their voices. Let them
have their feathers and their flesh.
Let your daughters and your sons
have their pens, their paints,
their music and their hearts.


Let them tattoo jackals on their thighs
and dance with the lawn furniture.
Let them drum so loud that the sound
shatters watermelons in your garden.


Ask them to play on,
because these children come from Mars.
Tell them they're welcome here on earth.
Tell them it's good to be strange.
Tell them they don't need to hop that freight.


Douglas Gray (roubado daqui)


Alienígenas encontrados a actuar em espectáculos circenses de aberrações 

Em 1920, a minha tia-avó Jane 
apanhou o comboio de mercadorias 
e fugiu de casa para cantar 
num palco em Nova Iorque. 

Tinha apenas dezasseis anos. 
A família retirou a fotografia dela de cima do piano de cauda 
e o seu nome nunca mais foi pronunciado. 
Mais tarde, sentiram a falta da voz dela. 

Aos dezasseis anos eu deslizava 
pelo mesmo caleiro que Jane usara 
e escapava-me para ver o arraial. 

Foi lá que encontrei 
o rapaz-lâmpada de Neptuno 
a mulher-lagarto da Lua 
a lâmina de barbear humana de uma qualquer espiral galáctica 
e outros artistas do fantástico. 
Todos tinham apanhado o foguete da meia-noite para fora do seu mundo. 

Todos os artistas vêm do espaço 
como a minha tia-avó Jane, 
apenas procuram um lugar onde a gravidade não os prenda. 

Por isso, pais, deixem os vossos filhos 
ter voz própria. Deixem-nos 
ter as suas próprias penas, a sua própria carne. 
Deixem a vossas filhas e os vossos filhos 
ter as suas próprias canetas, as suas próprias tintas, 
a sua própria música e os seus próprios corações. 

Deixem-nos tatuar chacais nas coxas 
e dançar com a mobília do jardim. 
Deixem-nos tocar bateria tão alto que o som 
faça explodir os melões do vosso quintal. 

Peçam-lhes para continuarem a brincar, 
porque estas crianças são de Marte.
Digam-lhes que são benvindas à Terra. 
Digam-lhes que é bom ser estranho.
Digam-lhes que não precisam de apanhar esse comboio. 

Douglas Gray traduzido por Maria Eu


sexta-feira, maio 02, 2014

A doce chama

Nenhuma morte apagará os beijos

Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas
                                           [clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.

Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida
                                                            [e atormentada

desvenderá em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paixão os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.


Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'



(Marc Chagall)

A doce chama que em meu peito arde
 ilumina de tal forma a minha alma 
que ao longe a vêem todos quantos amam.

 

quinta-feira, maio 01, 2014

Vozes de mulheres

 (John Sloan - a woman's work)

Lembro-me de, nas tardes longas de Verão da minha aldeia, ver as mulheres de joelhos, debruçadas sobre pedras meio imersas nas águas correntes do rio, esfregando, virando, batendo roupa com vigor. Havia um ritual nessa ida ao rio. Levavam-se as bacias cheias à cabeça e um pedaço de sabão rosa no bolso. As crianças seguiam as mães em revoada, como pardais chilreantes, e havia as conversas que se calavam em casa."O meu Zé atirou-me o prato da sopa à cara, outro dia..." "A Joaquina da Mariana anda com o menino João da casa grande.." "Quem me dera fugir desta miséria." "Mandava era esta roupa toda rio abaixo." "O Quim dorme noutra cama e, quando me quer usar, chama por mim aos gritos. Levo os filhos pela mão mas ele manda-os sair e fecha a porta à chave. Aleija-me sempre, o Quim..." "Tenho oito filhos e nunca vi o meu homem nú." 

No fim, havia estendais cheios e as mulheres, de mãos enrugadas pela água, recolhiam os pedaços de sabão rosa que sobrassem, tal como recolhiam as palavras, de regresso a casa.


Beijo



(Clavé Togores)

Beso

Qué sola estabas por dentro!

Cuando me asomé a tus labios
un rojo túnel de sangre,
oscuro y triste, se hundía
hasta el final de tu alma.

Cuando penetró mi beso,
su calor y su luz daban
temblores y sobresaltos
a tu carne sorprendida.

Desde entonces los caminos
que conducen a tu alma
no quieres que estén desiertos.

Cuántas flechas, peces, pájaros,
cuántas caricias y besos!


Manuel Altolaguirre


Tão só ficará por dentro, quando não houver mais beijos. Por isso, faz do momento uma festa dos sentidos, música, cor, muito sol, intensidade e gemidos.