(John Sloan - a woman's work)
Lembro-me de, nas tardes longas de Verão da minha aldeia, ver as mulheres de joelhos, debruçadas sobre pedras meio imersas nas águas correntes do rio, esfregando, virando, batendo roupa com vigor. Havia um ritual nessa ida ao rio. Levavam-se as bacias cheias à cabeça e um pedaço de sabão rosa no bolso. As crianças seguiam as mães em revoada, como pardais chilreantes, e havia as conversas que se calavam em casa."O meu Zé atirou-me o prato da sopa à cara, outro dia..." "A Joaquina da Mariana anda com o menino João da casa grande.." "Quem me dera fugir desta miséria." "Mandava era esta roupa toda rio abaixo." "O Quim dorme noutra cama e, quando me quer usar, chama por mim aos gritos. Levo os filhos pela mão mas ele manda-os sair e fecha a porta à chave. Aleija-me sempre, o Quim..." "Tenho oito filhos e nunca vi o meu homem nú."
No fim, havia estendais cheios e as mulheres, de mãos enrugadas pela água, recolhiam os pedaços de sabão rosa que sobrassem, tal como recolhiam as palavras, de regresso a casa.