segunda-feira, setembro 14, 2015

Sonho de fim de tarde

(Alex Colville)


Era ao fim da tarde que Manuela pegava no cesto branco, o enchia com a roupa acabada de retirar da máquina, e ia estendê-la no quintal. Era, também, ao fim da tarde, que metia no recanto mais fundo de si a vontade de esquecer a roupa suja, a máquina de lavar e o cesto vazios, e deixar-se levar pela música da telefonia numa dança que lhe desarrumasse o vestido de corte discreto e lhe despenteasse o cabelo sempre caprichado. Mas era só ao fim da tarde. Logo, a noite chegava.



22 comentários:

  1. O fim da tarde permitia-lhe, ainda que por breves momentos, sonhar.
    Boa semana

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  2. Interpretei-o doutra forma (li os 2 comentários anteriores!). Ao fim da tarde recalcava a vontade de se evadir de si própria mas quando a noite chegava, voava. (devo ser uma lírica, não é, Maria?) ;)

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    1. Nada lírica! Prefiro essa versão, em que Manuela se evade noite fora.

      Beijinhos. :)

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  3. Talvez, só talvez, com a música fugia do seu quotidiano e viajava não saindo do seu recanto e com a noite voltava ao mesmo de sempre.

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    1. Ou sonhava ainda mais, quem sabe?

      Beijinhos, Urso Misha. :)

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  4. Ao fim da tarde ela entrega-se a ela própria e deixa-se ir...sonhando ou não :-))))

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  5. E a noite é para descansar, exceto nos dias de festa. E esses, para que o sejam sempre, não podem ser repetidos continuamente, sob pena de se banalizarem :)

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    1. Claro! Nada de banalizar essas coisas de dias festivos e tal! ;)

      Beijinhos, pai babado. :)

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  6. Que seria dela, da Manuela, sem roupa... Sempre com a cabeça ocupada lavar, estender na corda, recolhê-la seca, engomá-la... Os colarinhos e os punhos das camisas exigiam-lhe empenho redobrado e então os vincos? o ferro sempre a fugir. Demorou a ganhar-lhe o jeito, ela que na casa da mãe pouco ou nada fazia.
    O que seria dela sem roupa? Para lá da música, ao fim da tarde, aventurar-se-ia até à esplanada descontrair-se das arrelias da manhã, cruzar as pernas, descruzar, despentear-se, libertar-se? Desde que às 7 horas estivesse em casa, para o jantar, impecável...
    Eu cá estou a almoçar.

    Gostei do teu texto. Bj.

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    1. Fica á imaginação de cada um, a vida de Manuela. :)

      Obrigada, Agostinho, pelas tuas sempre amáveis palavras.

      Beijinhos. :)

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  7. Quando a noite cair, quando o dia envelhece, Manuela recolhe a roupa e estende os sonhos.

    Um beijinho, Maria :)

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    1. Num estendal mais curto, talvez.

      Beijos, Miss Smile. :)

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  8. Eu estava a imaginar o sonho dela com um swing ou até um bebop agora com o Chausson é que não.

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    1. Ahahahahah. Chausson é a dimensão melancólica do sonho. Para a dança talvez... este?
      https://www.youtube.com/watch?v=qIdmZYw3-g0

      Beijinhos, Luís. :)

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  9. Quantos finais de tarde que me levassem eu desejei.
    Lindo, lindo.
    Beijo Maria.:)

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    1. Ah, a evasão!!
      Obrigada, muito, SD.

      Beijos. :)

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  10. Ao fim da tarde, quando muitas vezes a vida acontece e se prolonga pelas noites. Deixemo-nos embalar pelo esvoaçar da roupa no estendal..

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