quinta-feira, março 16, 2017

Despedida

(Edvard Munch)

- O meu pai é bonito, não é?
Clara acenou que sim num movimento pouco convincente, dada a circunstância. O homem, num fato escuro, camisa branca e gravata de riscas azuis, com uma flor na botoeira, jazia, hirto, num caixão pejado de flores. 
Percebeu melhor a perda dela no dia seguinte, vendo-a desorientada na casa grande, abrindo e fechando portas e gavetas, olhando as fotografias emolduradas espalhadas pelos móveis. 
- Não sei! Não sei arrumar as coisas deles!
As da mãe continuavam ali, depois de  cinco anos. O frasco de perfume favorito quase vazio, o bâton cor de rosa, as malas alinhadas por tamanho, as roupas... Tinham acompanhado as do homem bonito que a amara, quem sabe tocando-se pela calada da noite, numa mistura de fragrâncias rescendendo a flores e a cedro.
- Amanhã! Amanhã venho ver das arrumações! Como é que os separo aos dois? Como é que me separo dos dois?
Clara abraçou-a longamente, sem palavras. Depois, fechando a porta à chave, saíram para o sol, de braço dado.


segunda-feira, março 13, 2017

Imperfeita perfeição

(Nadia Beltei)

De onde advém a perfeição da junção de dois corpos imperfeitos? De onde, senão da súbita e intensa luz de que são tomados na beleza da entrega?


quinta-feira, março 02, 2017

Saudade do que não foi

(daqui)

Deu por si a pensar que a saudade é estranha. Sentia saudade de tudo o que não tinha feito com ela. Dos lugares que não tinham visitado, das vezes em que não se tinham beijado, das palavras doces que não tinham dito, dos sonhos que não tinham partilhado. 
Olhou-a com ternura e entrelaçou os dedos nos dela.


terça-feira, fevereiro 21, 2017

A convalescença de Cupido

(Joseph Lorusso)

Cupido mexeu-se cuidadosamente, em equilíbrio periclitante. As asas tinham ficado intactas, apenas um pouco dobradas. Soube que estava a sangrar pelo travo adocicado na boca. 
-Raios! pensou. Lá fiquei outra vez com a cara feita num bolo! É no que dá acertar em mim mesmo com uma seta e passar o tempo todo a pensar na Psiquê! 
Esvoaçou pelo local do acidente à procura do arco e das flechas. Lá estavam, no passeio fronteiro ao prédio que se lhe atravessara no caminho. 
-Por Marte! exclamou. Faltam-me duas setas.
Entretanto, num banco do jardim do bairro, Maria, mulher madura, conhecida pela sua simpatia contida e conduta discreta, abraçava José, homem circunspecto e cauteloso no trato. Bocas unidas num beijo aceso, descobriam o fogo que, afinal, ardia dentro deles sem se ver.
Cupido avistou-os e reparou que, num braço de Maria e nas costas de José, refulgiam as hastes das flechas perdidas.
-A seu tempo! pensou Cupido. A seu tempo!


terça-feira, fevereiro 14, 2017

O acidente de Cupido

(daqui)

Marta e João conheciam-se há bastante tempo. Nunca tinham, contudo, olhado um para o outro com outros olhos que não os de cordial vizinhança. Aproximava-se o dia de São Valentim, aquele tão falado em tudo o que era rede social, canal de televisão, anúncios de perfumes, chocolates, peluches e afins. Marta sentia-se inquieta e João não se sentia menos. Se ela acordara mais alegre e vestira uma saia florida, combinada com uma blusa branca e um casaco vermelho, ele trauteava Velvet Underground desde cedo e perfumara-se com Only, da Givenchy. Saíram de casa com um sorriso nos lábios e uma estranha vontade de dançar. A chuva dera uma trégua e a temperatura parecera ter adoçado para os ver passar. Ela vinha do número 100, 3.º Esq., ele vinha do número 100, 1.º Dto.. Tudo se conjugava para que se cruzassem ao subirem a rua em direcção ao auditório musical. Sim, porque os dois tinham comprado bilhete para o concerto de piano com obras de Beethoven que começaria dentro em pouco. Ele seguia em passo largo, ela em passinhos miúdos, evitando as fendas da calçada, não fossem os tacões dos elegantes sapatos estragarem-se. Quase se ouvia a excitação no ar. Ambos de faces rosadas pela caminhada, ambos felizes e expectantes. De repente, um ruído ensurdecedor. Estavam a centímetros um do outro. Marta sentia a fragrância de Only. João podia ver uma nesga do rubro do casaco dela. Olharam para cima. De encontro à parede do prédio, Cupido gemia, ferido, perdido o arco, caídas as flechas. Suspiraram em simultâneo e seguiram caminho, entrando ele pela porta principal e ela pela do lado direito. Não se sabe se Cupido recuperou a tempo de juntar os dois.


segunda-feira, fevereiro 13, 2017

Sedução

(Jack Vettriano)


-Diz-me algo bonito! pediu-lhe, sorrindo.
-Tu! disse-lhe, olhando-a, perigosamente perto de um beijo.