sexta-feira, outubro 09, 2015

Este ano, a moda é usar peles

(mateica88, em Deviantart)


Era uma vez um lobo, grande, lindo, de pelo cinzento brilhante e olhar profundo. Tinha por costume, o lobo, ir ao bosque em longos passeios. Certo dia, ainda o sol mal nascera, já ele andava alegremente por entre as árvores, a sentir o perfume das flores, quando ouviu uma voz feminina elevar-se numa canção da Janis Joplin (Oh God, won't you buy me a Mercedes Benz...). Ficou pregado no meio do caminho, esperando a dona da voz que escolhera a sua canção favorita para entoar logo pela manhã. Não tardou nada, uma jovem vestida com um provocante vestido  e uma capa vermelha pelos ombros apareceu na curva.


- Bom dia! disse-lhe ele.

- Bom dia! respondeu ela com um sorriso provocante nos lábios pintados a preceito.
 - Não tens medo de andar pelo bosque sozinha? perguntou o lobo.
- Eu? Claro que não, meu caro lobo! respondeu enquanto acendia um cigarro. Gosto de andar pelo bosque e já imaginava que, um destes dias, encontraria um lobo assim, sexy como tu! continuou.
O lobo não cabia em si de contente. Ia a caminho da casa de férias da avó para a ajudar a resolver uns problemas com a rega do jardim mas não precisava apressar-se.
- E tu, lobo, onde vais assim tão cedo? perguntou ela, soprando o fumo em pequenas espirais.
- A casa da minha avó, ajudar com a rega do jardim. respondeu o lobo com a cauda a abanar afanosamente.
- Posso acompanhar-te? prosseguiu ela.
- É um prazer! retorquiu o lobo, mortinho por lhe sentir o perfume mais de perto.
Foram andando em direcção à casa, ela meneando as ancas e roçando-as no pelo dele de vez em quando, ele quase a uivar de excitação. Chegados ao destino, a avó deu-lhes a boas vindas com uns daiquiris e disse-lhes:
- Meus filhos, estou muito cansada. Vou dormir um bocado antes de almoço.
- Ai, avozinha, posso ir consigo? Cansou-me tanto, o passeio pelo bosque! perguntou ela.
E foram ambas para o quarto enquanto o lobo ficou a tratar da rega do jardim. Duas horas mais tarde (o diabo da rega não atava nem desatava) o lobo entra em casa pé ante pé e espreita pela porta entreaberta do quarto.
- Entra! disse a rapariga. Deita-te aqui um bocadinho!
O lobo, encantado, enfiou-se entre os lençóis e, estranhando não ver a avó, perguntou:
- Onde está a avó?
- Foi às compras à mercearia aqui do lado. disse ela, enquanto limpava a boca à colcha, disfarçadamente.
 Ele olhou para ela, ali deitada tão perto que lhe sentia a respiração quente, e encetou uma conversa, sussurrando:
- Tens uma pele tão macia!
- É para as mãos deslizarem melhor!respondeu ela.
- E tens uns olhos tão brilhantes!
- É para te ver cada detalhe!disse ela, sorrindo.
- E tens uns lábios tão carnudos!
- É para te comer melhor! E, sem mais delongas, COMEU-O!

Escusado será dizer que Capuchinho ficou com problemas digestivos e, durante a cirurgia ao estômago a que se submeteu, retiraram-lhe, para além de uns óculos de ver ao perto e de uma camisa de noite em flanela, pele cinzenta de tamanho suficiente para fazer uma estola e uns punhos.
- Preciso de ir ao bosque outra vez. pensou. Este ano a moda é o castanho!



quinta-feira, outubro 08, 2015

8 de Outubro, dois anos Da Maria

(Pablo Picasso)


OUTRA COISA

Apresentar-te aos deuses e deixar-te
entre sombra de pedra e golpe de asa
exaltar-te perder-te desconfiar-te
seguir-te de helicóptero até casa

dizer-te que te amo amo amo
que por ti passo raias e fronteiras
que não me chamo mário que me chamo
uma coisa que tens na algibeira

lançar a bomba onde vens no retrato
de dez anos anjinho nacional
e nove de colégio terceiro acto

pôr-te na posição sexual
tirar-te todo o bem e todo o mal
esquecer-me de ti como do gato


(MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS, in «Poesia 71», 19 Projectos de Prémio Alonso Ortigão)




 



Hoje, como há dois anos atrás, Cesariny e Picasso, o amor feito desenho, o amor feito poema. A Maria faz dois anos. Esta Maria que vos escreve agradece, muito, a cada um de vós, cada minuto de companhia, cada comentário. Isto não são só blogs...

quarta-feira, outubro 07, 2015

Medo

(Imagem daqui)

Naquele dia, a violência derrubou-lhe qualquer defesa e o medo ficou. Apressava-se para chegar a horas, que não era de se atrasar para um compromisso. Passo ritmado nos sapatos pretos, calças da mesma cor, blusa branca e uma écharpe preta e vermelha. Como era habitual, um leve sorriso nos lábios. Pára, frente ao elevador, de costas para o pequeno átrio. Pressente alguém atrás dela e não estranha. Afinal, o prédio tem algum movimento já que alberga diversos escritórios. O elevador chega, vazio, ela abre a porta e tudo se precipita. Um corpo pesado empurra-a de encontro ao fundo com tanta violência que a cara se encosta, espalmada, ao espelho. Tenta ver através dele mas não é capaz. Só um casaco escuro que lhe tapa a cabeça. É demasiado baixa e o atacante é muito alto. Algo pontiagudo magoa-lhe as costelas do lado direito. Tenta mexer-se, escapar daquele corpo que a esmaga mas não tem força para tanto. Lágrimas escorrem-lhe pela cara, enquanto o elevador pára ao atingir não sabe qual andar. "Está quieta, cabra, ou furo-te!" Foram quantos minutos? Cinco? O homem abriu a porta e saiu de rompante. Nem teve forças para se virar de imediato. A blusa esgaçada e as calças manchadas de esperma. Saiu. Estava no último andar de 7. Os escritórios acabavam no 6º. Limpou as lágrimas, pegou na bolsa que tinha caído no chão, desceu dois andares pelas escadas, abriu a porta da sala com a chave que tirou do bolso e fechou-se por dentro. Pegou no telemóvel, ligou para a pessoa que deveria receber dentro de meia hora e disse-lhe que estava doente. Estava doente! 
Escolheu não dizer a ninguém. Limpou as calças manchadas como pôde, disfarçou a blusa esgaçada com a bolsa à tiracolo, foi para casa, tomou um duche e deitou a roupa toda ao lixo. Difícil foi voltar lá, ao prédio onde acontecera. Não voltou a usar o elevador.

Uns meses mais tarde, leu no jornal local que um homem tinha sido apanhado a atacar uma mulher num elevador. Tinha antecedentes de violência sobre mulheres. Presente a tribunal, fora solto com termo de identidade e residência. Não teria valido a pena contar, pensou. Apesar de tudo...


terça-feira, outubro 06, 2015

(A)braços


(António Palolo)


Nunca se sentia tão livre como na prisão daqueles (a)braços.



sábado, outubro 03, 2015

4 de Outubro de 2015

"Oh mãe, deia-nos pão!" Escutando Quotidianos de Pobreza
Luiza Cortesão (Ed.)

Hoje, porque amanhã é dia 4 de Outubro, voltei a este livro espantoso, edição Fundação Cidade de Guimarães / Instituto Paulo Freire de Portugal / CIIE. Uma oportunidade de ouvir da pobreza feita de memórias abertas como feridas na carne, um alerta para as condições degradantes em que se viveu e em que ainda se vive neste país onde ainda nem todos são livres.


 Página 221

Página 219



*Peço desculpa pela má qualidade das fotos. Fotografar um livro com telemóvel não dá grande resultado.

Até que a noite venha

(Edward Muybridge)

To fling my arms wide
In some place of the sun,
To whirl and to dance
Till the white day is done.
Then rest at cool evening
Beneath a tall tree
While night comes on gently,
Dark like me-
That is my dream!

To fling my arms wide
In the face of the sun,
Dance! Whirl! Whirl!
Till the quick day is done.
Rest at pale evening...
A tall, slim tree...
Night coming tenderly
Black like me.


Langston Hughes








Abrir os braços largamente
Algures, à luz do sol,
Rodopiar! Dançar!
Até que se desvaneça a luz do dia 
Depois, descansar numa fresca manhã
Sob uma árvore alta
Enquanto a noite vem mansamente
Negra como eu 
Esse é o meu sonho!

Abrir os braços largamente
Algures, à luz do sol,
Dançar! Rodopiar! Rodopiar!
Até que se desvaneça o dia breve 
Descansar na tarde pálida...
Uma árvore alta, esguia...
A noite mansamente vindo
Negra como eu.

Langston Hughes, tradução de Maria Eu