terça-feira, julho 08, 2014

Do querer bem

 (Carlo Russo)

O QUERERES

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói


Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim


Caetano Veloso

 

Querer(-te) para além do bem querer.

segunda-feira, julho 07, 2014

Soletro(-te)


Para que o encontro se prolongue
na ausência do nosso cruzar
de dedos,
há uma celebração quotidiana
do teu nome fora da minha boca.
Chamo-te como se de perto
me ouvisses, é só um murmurar
fugidio para que aqui te quedes.


Lidia Martinez, Um adeus perfeito

(Gratziela Gal)

Soletro o teu nome como se a boca estivesse a aprontar-se para um beijo. A língua a roçar o palato, os lábios entreabertos e trémulos.  
Soletro o teu nome e ardo, como num beijo.


                           

domingo, julho 06, 2014

(Ir)Racional

(Cristóvam Dias)

Nunca tentes voar se não tens asas. 
Nunca sigas um pássaro se fores um peixe. 
Nunca pretendas ser solar se és anódino.
Nunca entres num sonho onde não é suposto estares.




Porém: 

Há asas que dizem crescer de repente.
Há muitas amizades improváveis.
Há escuridões que se acendem do nada.
Há sonhos dentro de outros sonhos. 

sábado, julho 05, 2014

Medos

(Ian Hoskin)

Um dia olhar-te-ás sem medos e, só então, descobrirás quem és.


quinta-feira, julho 03, 2014

terça-feira, julho 01, 2014

Um outro Verão

(Imagem de Lory Vrba. descubriendo Klímt BaLan)

Anoitece. Os ralos* ensurdecem o bater de asas dos morcegos que desde há muito saem para virem rasar o regato e matar a sede. Ignorando a hora, continuamos a brincar à macaca riscada no caminho de terra com um pau seco de videira.
"-Maria!! Oh Mariaaaaaaaa! Mariaaaaaaaa!", grita a minha mãe da porta da cozinha.
"-Isabel!! Oh Isabeeeeeeeel! Isabeeeeeeeel!", ecoa a voz da Dona Emília, a chamar a filha da varanda florida a sardinheiras.
"-Lina!! Oh Linaaaaaaaaaa! Linaaaaaaaaaa!", esganiça-se a Dona Joana, desde a janela do primeiro andar da casa mais alva da aldeia.
Em correria, apressamo-nos a ir para casa. Nem precisamos dizer até amanhã. Sabemos que é Verão e que as férias grandes nos juntarão de novo, dia após dia, desde o cantar matinal do galo até à noitinha.

*Insecto (Gryllus gryllotalpa) ortóptero da fam. dos grilos.