domingo, abril 06, 2014

Oferenda

"Ah! Beija-me com os beijos da tua boca! Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho."
Cântico dos Cânticos1, Versículo 2

(Foto de Maria Eu)


sábado, abril 05, 2014

Ardor

AMOR MUDO
Ardendo de amor, as cigarras
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
   lhes queima o corpo!
Herberto Helder, in O Bebedor Nocturno


Mais belos, ainda, são os homens que ardem, cintilam e, por fim, ficam em cinza no corpo do seu amor.

sexta-feira, abril 04, 2014

Tem cuidado ó pescador



Pescador da barca bela,
 Onde vais pescar com ela
    Que é tão bela,
    Ò pescador!

Deita o lanço com cautela,

Que a sereia canta bela.
      Mas cautela,
     Ò pescador!
 Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
   Só de vê-la,
   Ò pescador.

Pescador da barca bela,

Inda é tempo, foge de ela
   Foge de ela,
   Ò pescador!
Almeida Garrett

quinta-feira, abril 03, 2014

Faz conta...

 (Luís Noronha da Costa)
“Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud’uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá… Desde cadengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem nuvens dele também? De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com nossa pele!” 

Ondjaki, in Quantas Madrugadas tem a Noite

Era uma vez um pescador de nuvens. Ia de mansinho até ao mar e deitava a rede em dias de calmaria. Sim, porque o pescador queria nuvens brancas, diáfanas, e não cinzentas e escuras!  Costumavam rir-se ao vê-lo passar, logo de manhãzinha. Mas ele limitava-se  a sorrir. Só ele sabia como pescar nuvens e como ficava linda a sua casa, igual a um céu de verão.

Maria Eu


quarta-feira, abril 02, 2014

Coisas da Maria



A Maria gosta muito de:
Correr descalça na areia molhada, bem junto à rebentação.
Abraçar e ser abraçada sob um sol marítimo.
Tremer de amor nos braços de alguém.
Escrever. Escrever. Escrever.
Ler. Ler. Ler.
Ouvir música. E voltar a ouvir.
Rir a bandeiras despregadas.
Sorrir só de pensar numa pessoa.
Chorar de alegria.
Comer pudim e lamber os restinhos da colher.
Mimar quem gosta só porque sim.
Amar outras pessoas para além de todos os limites.
Andar à chuva e depois tomar um duche quente.
Usar batôn vermelho ardente.
Comprar um corpete sexy e usá-lo.
Ser direitinha por fora e meio louca por dentro.
Nunca dizer nunca mas ter sempre cautela.
Gritar numa manif até enrouquecer.
Lutar por si e pelos outros mesmo que praguejando.
Ir sem destino numa estrada e acelerar para lá da conta.
Calçar uns sapatos de tacão ainda que os pés lhe doam.
Empanturrar-se de chocolate e ficar cheia de remorsos.
Ser mimada.
Beijar na boca como se o mundo fosse acabar.



terça-feira, abril 01, 2014

Descrição do desejo

"Ela sorriu-se de maneira vaga, os lábios imóveis, os dedos a tocarem o sapato. Distinguia-o mal, adivinhava-o mais do que via, nu, a desejá-la tão intensamente, «a desejares-me tão intensamente que me doía», o cigarro aceso, quase esquecido, «o cigarro apagado que esquecias de acender», e ela correu o olhar pelas paredes intensas, de um azul total, violento, para voltar de novo, ou apenas agora «e encontrar-te imóvel, como que encandeado, a chama crepitante a queimar-me as pernas», o azul das paredes a confundir-se com os olhos dela assim iluminados, como que luminosos na penumbra trémula do quarto com grandes sombras projectadas no vazio, sombras irregulares, esguias, quentes, «o Verão no qual mergulhava os braços assim inclinada, perto do tampo redondo, baixo, da cadeira onde a vela na palmatória de prata, que ali puseras», onde a vela se desfazia tão lentamente que «só mais tarde daríamos por isso e eu nos teus braços estremeceria no escuro daquela casa que nos era estranha». Então ele procurava o isqueiro que acenderia só para lhe ver os olhos muito abertos no escuro, a boca «a minha boca no teu ombro esquerdo, metade da cara escondida pelo lençol, neste momento ainda liso, esticado."

Maria Teresa Horta, in Ambas as Mãos sobre o Corpo


(Loui Jover)

... e olhavas-me, intensamente, a procurar ler nos meus olhos abertos, de um espanto sempre renovado, as ondas de prazer que subiam em marés vivas pelo meu corpo, a adivinhar os lábios trémulos, a febre na pele.