quarta-feira, outubro 05, 2022

Prova de vida

 

(Time to fly - Duy Huynh)

A vida, breve, corre qual cavalo com o freio nos dentes. Sentes-lhe o tropel, a velocidade desenfreada com que os dias te descoloram o cabelo e te salpicam a pele de leves manchas acastanhadas. Às vezes, tropeças numa ou outra hora mais longa, num instante luminoso. Quedas-te aí, lutando contra o tempo, sorvendo a alegria, a ternura, a beleza. Dás por ti a atrasar o relógio. Mais do que isso, tens dois relógios, um que pára de quando em vez e o outro cujos ponteiros se assemelham aos de um desenho animado, sempre a correrem. É no que pára, no que dizem estar avariado, que reside a glória da vida.


(Ludovico Einaudi - Walk)

4 comentários:

  1. Bonito texto, Maria E.
    Mas não me ponhas relógios
    nas manhãs de Outono
    que me desatinas. É que com eles parece-me ouvir cascos de Borístenes
    à porta do meu descarnado peito
    Sabes?, não sei como atrasar relógios
    e o Inverno à espreita...

    Beijo.

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  2. Sorver a alegria, a ternura, a beleza é que faz com que o vento seja mais lento...
    Lindíssimo texto!
    Uma boa semana com muita saúde.
    Um beijo.

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  3. Sabes Maria E., o meu corpo neste momento tem dois relógios, um com toda a ansiedade do mundo, e outro a tentar combater o anterior, de maneira que é um sufoco.
    Belo texto.

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