segunda-feira, março 31, 2025

A primeira dor

(imagem daqui)

Teria à volta de cinco anos quando experimentou a dor. À época, não sabia o que significava aquele aperto no peito a subir aos olhos e a transformar-se em lágrimas.

Doíam-lhe os ouvidos da notícia.  A Lina morreu. 

Como assim, morreu? Ainda ontem brincara com ela às cozinheiras, a amassar bolinhos e a fazer sumo de maçã! E morrer era para sempre? Ora, devia ser uma doença qualquer, essa tal de morte!


Só aquando da ausência permanente entendeu...



(E. Grieg: Elegie (Elegy), Op. 47 no. 7)

quarta-feira, março 26, 2025

Era uma vez um rapaz

 

(imagem daqui)


Era uma vez um rapaz. E o rapaz crescera a olhos vistos, correndo contra o vento, num afã de viver as aventuras de piratas por mares nunca dantes navegados. Fazia da praia esconderijo de tesouros, desde paus em cruz (espadas afiadas nas lutas), até pedaços coloridos de vidro (joias magníficas que refulgiam à luz do sol).

Dizia que, certa vez, uma sereia viera ao seu encontro, encantada pelo brilho dessas joias e, quando lhas ofereceu, o beijou intensamente, logo desaparecendo nas ondas do mar.

Já homem, sem saber porquê, havia sempre pedaços de vidro, à mistura com conchas, nos bolsos dos seus casacos.



(Jack Garratt - Breathe Life)

segunda-feira, fevereiro 03, 2025

(Des)encontro

 


Agosto. O sol queima o milho nos campos e, do rio, evola-se uma névoa de água, que logo desaparece. As cigarras, enlouquecidas pelo calor, cantam à desgarrada, numa melodia desafinada, desafiando os grilos que se lhes juntam. Na aldeia, as janelas estão fechadas e as cortinas corridas. Nem vivalma nos caminhos.
Na sala verde, Maria Antónia dormita no sofá, um livro de poesia aberto no colo. Não adivinha que João Maria, indiferente aos 38 graus que se fazem sentir, se dirige a sua casa.
 
O som da campainha ecoa repetidamente. A porta abre-se, finalmente, e um Afonso sorridente pergunta: Em que posso ajudar?
João Maria, hesitante, pergunta por Maria Antónia.
Oh, deve ter adormecido! Vou chamá-la!
Que não, disse. Voltaria um outro dia, quando estivesse mais fresco.
 
De regresso ao caminho escaldante, ouve uma voz cristalina chamá-lo. A rapariga morena, arquejante pela pequena corrida, segura-o pelo braço.
Então, João, já não te lembras de mim?
Teresa?
Sim, homem! E repenica-lhe dois ruidosos beijos nas bochechas suadas.

(Maria Antónia? Quem é Maria Antónia?)
 


domingo, janeiro 19, 2025

João Maria

 

(imagem daqui)

Sentado num banco do Jardin du Luxembourg, João Maria observa um grupo de homens a jogar quilles de huit, enquanto fuma um cigarro.

Está sol e as árvores verdejantes albergam pássaros irrequietos e gorjeadores. 

Sem mais nem porquê, veio-lhe à lembrança a imagem de Maria Antónia, sentada numa poltrona em frente a si, fazendo-o sorrir, enlevado.

Dezoito anos! Nada fazia prever que teria que se apressar, noite dentro, a reunir alguns parcos pertences e atravessar a fronteira Espanhola, em direcção a França. Uma denúncia anónima alertara a PIDE para a sua participação em reuniões clandestinas e na distribuição de panfletos contra o regime.


Quem sabe, agora que planeia voltar por uns dias, a possa rever?



(Guillaume Poncelet-88)

quinta-feira, janeiro 02, 2025

Novo ano para Maria Antónia


 Maria Antónia bem que ouvia o ruído da rua. Automóveis, conversas numa misturada infinita, cães a ladrar…

Remexeu-se, voltou-se a remexer, e, junto com o barulho,  entrou-lhe o passado pela janela!

João Maria, melena à Beatles, sorria-lhe da poltrona da sala verde, na casa de sua mãe. Era Verão! Também havia ruído, mas nada a podia perturbar quando João Maria sorria.

Dezasseis anos! Um mundo inteiro por descobrir! Nada fazia prever que nunca mais veria o rapaz. Soube que partira para França com os pais, pela calada da noite, fugindo de um mandado de captura por perturbação da ordem pública.

Nunca mais regressaram, nem com a revolução de Abril.

Dizia-se que viviam em Paris, num apartamento modesto, situado num cul de sac, junto à Igreja de Saint Sulpice.

Quanto a ela, Maria Antónia, deixou-se de rapazes de melena e acabou por namorar uns quantos de cabelo rebelde e sorriso maroto. Afinal, havia um mundo por descobrir, pensou, aconchegando-se no peito de Afonso.



 (Clair de Lune por Maria João Pires)

domingo, setembro 29, 2024

Foi o mar

 

                                                       ( J.M.W. Turner)

A rapariga vestida de azul céu caminhava junto ao mar, sandálias brancas na mão, deixando um caminho de pegadas na areia molhada.

Sem que nada o fizesse prever, surgiu um trilho de outras pegadas, maiores e mais vincadas, ao lado das dela.

Soube, mais tarde, que, nessa manhã, perdera o homem amado para o mar.

Nessa noite, não houve lágrimas e, na manhã seguinte, a sua cama estava húmida, com um rasto de areia e algas.