domingo, maio 20, 2018

Luz

(Vincent Van Gogh)


Tinham sido tempos difíceis. Bebiana e João chegaram aos quarenta sem que no céu houvesse uma única estrela ou fossem abençoados com um filho. Frente ao caldo da ceia, já nem levantavam os olhos da malga, mergulhados num silêncio pesado embrulhado no cansaço dos dias e na escuridão das noites.
Naquele final de tarde, Bebiana sentiu uma vontade enorme de comer nêsperas. Raio de coisa, para o que lhe havia de dar, pensou João, saindo de casa para encostar a escada à nespereira onde despontavam meia dúzia de frutos mirrados. Bastou a novidade para que se olhassem como há muito tempo não faziam. Conta-se que foi nessa noite que Luz foi concebida. Estranhamente, tantos anos volvidos, uma estrela surgiu, solitária, visível por detrás dos montes que rodeavam a aldeia. 
Quando rebentaram as águas a Bebiana e as mãos hábeis da Sr.ª Tina seguraram Luz em prantos, rasgou-se o negrume, pontilhando-se de milhares de estrelas.



quinta-feira, abril 26, 2018

Abril





azul
gaivotas famintas longe
longe do mar

vermelho
cravos sem armas
aos ombros

sal, sangue, grito
ABRIL




quarta-feira, abril 18, 2018

Enquanto for o tempo

(Dorina Costras)


Vive o amor com sofreguidão. Pega-lhe com ambas as mãos, olha-o de frente, bem no fundo dos olhos, beija-o na boca e deixa-te ficar enquanto for o tempo dele. 


domingo, abril 08, 2018

Bananas

(Debra Sisson)

Era a décima dos irmãos. Bem, julgava sê-lo, porque soubera que tinham sido quinze. Dois nados mortos e três que não haviam resistido  a poucos meses de vida. A casa transformara-se quinze vezes em maternidade, com gritos de dor ecoando pelos corredores e mulheres em correrias entre a cozinha e o quarto onde tudo se passava, transportando panelas de água quente e baldes com panos brancos que não tardavam em regressar manchados de sangue e vómito. Contara-lhe uma das irmãs, mais velha vinte anos, que a mãe desaparecia de circulação durante um mês, alimentada a caldos de galinha e bolachas de baunilha. 
Bolachas de baunilha? perguntara, de olhos arregalados. Aquilo era luxo que só entrava em casa pela Páscoa!
E bananas! acrescentara a irmã.
Bananas!!! Isso é que era bom!!! A tia Antonieta trazia sempre bananas quando vinha de visita do Porto. Bananas, ananás dos Açores e tabletes de chocolate "A Vianense".

Sacudiu o torpor das pernas debilitadas, esticou-se até às canadianas, e ergueu-se, a custo, do sofá onde passava os dias. Na fruteira da cozinha havia um cacho de bananas da Madeira mesmo no ponto de serem comidas.


terça-feira, março 27, 2018

Ressurreição



(Tina Maria Elena)


Arderam num incêndio de tal forma prolongado que nada restou senão cinzas. Dispersaram-se, juntas, levadas pelo vento, e perderam-se no mar. 
Diz-se que, nas noites de luar, eles regressam à praia, erguendo-se da espuma das ondas, e se deitam juntos, até arderem de novo, uma e outra vez.


domingo, março 18, 2018

Mãos de dar


(Stephen Morris)

Do seu menos de um metro de altura, esticava-se, em bicos de pés, para beijar o rosto jovem da sua mãe. Depois, ela dava-lhe a mão e seguiam, tagarelando.

Do alto da sua altura adulta, dobrava-se, joelhos quase a tocar o chão, para beijar o rosto enrugado da sua mãe. Depois, sentava-se ao lado da cama, segurando-lhe a mão, enquanto lhe contava do mundo lá fora.