quinta-feira, julho 30, 2015

Silêncio


(Tamara de Lempicka)


Há muito que Maria Antónia aprendera a calar. Calava a rebeldia, a vontade de cantar inopinadamente, os passos de dança que tendiam a ritmar-lhe o andar. De tanto calar, um dia, emudeceu.





*Até já. :)

terça-feira, julho 28, 2015

Dedos, como olhos


(Pablo Picasso)



Percorro-te o pescoço com os lábios enquanto as minhas mãos adejam, livres, o teu corpo. Dedos, como olhos, ardendo-te.





Quién alumbra

Cuando me miras
mis ojos son llaves,
el muro tiene secretos,
mi temor palabras, poemas.
Sólo tú haces de mi memoria
una viajera fascinada,
un fuego incesante.


Alejandra Pizarnik



sábado, julho 25, 2015

Sentir




Sentir. Sentir muito e mais, e ainda mais. À flor da pele. Ao esboço de um sorriso. Ao roçar leve dos dedos no contorno do rosto. Ao reflexo do sol no mar. À luz pálida e branca da lua.






Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois

Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois

Mário Quintana

quinta-feira, julho 23, 2015

A ilha das crianças felizes

('Fairy Islands' from the book Elves and Fairies 1916 by Ida Rentoul)
The Stolen Child

Where dips the rocky highland
Of Sleuth Wood in the lake,
There lies a leafy island
Where flapping herons wake
The drowsy water rats;
There we've hid our faery vats,
Full of berrys
And of reddest stolen cherries.
Come away, O human child!
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world's more full of weeping than you can understand.

Where the wave of moonlight glosses
The dim gray sands with light,
Far off by furthest Rosses
We foot it all the night,
Weaving olden dances
Mingling hands and mingling glances
Till the moon has taken flight;
To and fro we leap
And chase the frothy bubbles,
While the world is full of troubles
And anxious in its sleep.
Come away, O human child!
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world's more full of weeping than you can understand.

Where the wandering water gushes
From the hills above Glen-Car,
In pools among the rushes
That scarce could bathe a star,
We seek for slumbering trout
And whispering in their ears
Give them unquiet dreams;
Leaning softly out
From ferns that drop their tears
Over the young streams.
Come away, O human child!
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world's more full of weeping than you can understand.

Away with us he's going,
The solemn-eyed:
He'll hear no more the lowing
Of the calves on the warm hillside
Or the kettle on the hob
Sing peace into his breast,
Or see the brown mice bob
Round and round the oatmeal chest.
For he comes, the human child,
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world's more full of weeping than he can understand.

William Butler Yeats



 Viesse, hoje, Yeats, numa viagem ao mundo onde vivemos e teria, decerto, escrito de novo este poema, incitando as crianças a fugir, de mãos dadas com as fadas, para a ilha onde tudo é simples, seguindo o voo das garças, os trilhos das bagas vermelhas, ou o som reconfortante de uma chaleira ao lume. Lá, onde a lua toca o solo e permite que a usem como trampolim para saltos de super heróis.

quarta-feira, julho 22, 2015

"já te não chamaste nunca" HH

(Tony Goran)

Era dia de visita. Ana Maria tinha vestido a saia preta com a blusa vermelha, calçara as sandálias de salto alto e penteara o cabelo liso, em escovadelas intensas, frente ao espelho que encimava a cómoda do quarto. Atrevera-se, mesmo, a carregar no blush e a passar um batôn de cor igual à da blusa. Saiu do quarto com ar altivo, pisando a passadeira do corredor com elegância, dobrando os cantos até à escada que dava para o salão com o coração em alvoroço. Desceu, apoiando-se no corrimão de metal amarelo, polido, igual ao dos rebites que prendiam a passadeira ao chão. 
Cheirava a gardénias. Havia-as às dezenas nos jarrões espalhados pelo salão onde algumas pessoas conversavam, em pequenos grupos. Ana Maria olhou, ansiosa, para aqueles rostos, um a um, procurando reconhecer o do visitante que enviara o cartão que acompanhava os cravos vermelhos, de adorno na jarra de cristal, que há pouco se misturavam com o seu reflexo, no espelho, ao pentear-se. Só alguém que a conhecesse bem poderia escolher cravos daquela cor e acompanhá-los de um poema de Herberto Helder, despedindo-se com um "até logo".
Foi andando pelos grupos, sem conseguir perceber quem a vinha ver. Uma angústia começava a apertar-lhe o peito e a marejar-lhe os olhos de lágrimas. Foi então que se refugiou no recanto mais escondido, longe do espelho enorme, bem ao lado da porta de entrada. Tinha visto nele o reflexo de uma senhora idosa vestida exactamente como ela, de face enrugada e cabelos grisalhos, com um ar perdido e os olhos cheios de água.

 - Horas do lanche, Ana Maria. Venha, vou ajudá-la a sentar-se. Porque foi buscar essas sandálias? Já lhe trago as sabrinas.

Quem era Ana Maria? Perguntava-se, ajeitando o laço da blusa, enquanto apertava na mão esquerda um cartão amarelado, escrito a tinta azul, com letra bonita, levemente inclinada.



que eu aprenda tudo desde a morte,
mas não me chamem por um nome nem pelo uso das coisas,
colher, roupa, caneta,
roupa intensa com a respiração dentro dela,
e a tua mão sangra na minha,
brilha inteira se um pouco da minha mão sangra e brilha,
no toque entre os olhos,
na boca,
na rescrita de cada coisa já escrita nas entrelinhas das coisas,
fiat cantus! e faça-se o canto esdrúxulo que regula a terra,
o canto comum-de-dois,
o inexaurível,
o quanto se trabalha para que a noite apareça,
e à noite se vê a luz que desaparece na mesa,
chama-me pelo teu nome, troca-me,
toca-me
na boca sem idioma,
já te não chamaste nunca,
já estás pronta,
já és toda

Herberto Helder, in A Faca não Corta o Fogo

segunda-feira, julho 20, 2015

Completude


Primeiro foi o olhar, aliado à voz que esperara. Depois continuou a ser o olhar, aliado à voz que sabia. E foi o abraço, o beijo na testa a descer para as pálpebras, a parar na boca trémula e ansiosa. Foi o corpo a arder no outro corpo, perfeitamente síncronos na maravilhosa descoberta da completude das almas.





Beso

Cuando me asomé a tus labios
Un rojo túnel de sangre,
Oscuro y triste, se hundía
Hasta el final de tu alma.

Cuando penetró mi beso,
Su calor y su luz daban
Temblores y sobresaltos
A tu carne sorprendida.

Desde entonces los caminos
Que conducen a tu alma
No quieres que estén desiertos.

¡Cuántas flechas, peces, pájaros,
Cuántas caricias y besos!


Manuel Altolaguirre