quinta-feira, julho 02, 2020

Da espera



Desde sempre que Maria se habituara a esperar. Ajustava o corpo ao sofá que começara por ser castanho-escuro com flores e, de ano para ano, clareara até um bege desmaiado, onde as ramagens teimavam em resistir.
Esperara por José, quando ele se atrasava para o jantar. Esperara por ele, ainda, noite dentro, adormecendo em leituras longas. Esperara, em vão, quando ele saiu para uma viagem curta de trabalho e nunca mais voltou.
Esperara pelos filhos, nos dias que o verão prolongava até as estrelas esmaecerem. Esperara por eles sem sucesso, tantos fins-de-semana, a solidão a morder-lhe os olhos em lágrimas.
Esperara pela morte, sem medo, até que ela veio, em jeito terno, levando-a ao colo.

Joana apaixonou-se pelo sofá, assim que o viu na montra da loja do Sr. Joaquim dos estofos.
Tão bom que deve ser para esperar, pensou!


(Mísia - Sem saber)

terça-feira, junho 09, 2020

Permanência


(Marc Chagall)

It is here

What sound was that?
I turn away, into the shaking room.
What was that sound that came in on the dark?
What is this maze of light it leaves us in?
What is this stance we take,
To turn away and then turn back?
What did we hear?
It was the breath we took when we first met.
Listen. It is here.
Harold Pinter

ESTÁ AQUI
Que som foi esse?
Viro-me para a sala trémula.
Que som foi esse que veio com a escuridão?
Que labirinto de luz é este em que nos deixa?
Que atitude adoptamos,
Fugir para depois regressar?
O que é que ouvimos?
Foi o suspiro que demos quando nos vimos pela primeira vez.
Ouve. Está aqui.
Harold Pinter traduzido por Maria Eu


domingo, maio 24, 2020

Davam-se as mãos


(Fabian Perez)


Dava-lhe a mão
como se nela estivesse
o mundo inteiro

Segurava-lhe a mão
como se dela viesse
o mundo inteiro

E havia museus
Filmes em tela gigante
Livros antigos
Passos de milongas

Davam-se as mãos
Davam-se, inteiros.

Maria Eu



(Por una cabeza - Carlos Gardel)

quinta-feira, maio 21, 2020

Avatares

      (imagem daqui)


Há algum tempo que se abrigara no espaço quarto, sala, cozinha. Os ecrãs tornaram-se a ligação ao trabalho, à cultura, às pessoas. Tudo lhe parecia estranho, anódino. Para além de que, as pessoas tinham o estranho hábito de se esconderem por detrás de avatares. Deu-lhe para analisar os ditos, numa das reuniões intermináveis (essas, continuavam a arrastar-se, tal como as presenciais, com os discursos repetidos, empolados e narcisistas do costume).
O Dr. Reinaldo de Matos, de rosto pálido e boca cerrada, sempre enfatiotado e com o cabelo cuidadosamente alinhado, aparecia com um boneco bronzeado, cabelo ondulado e crespo e uma t-shirt preta; a Dr.ª Susana, da contabilidade, a morena de rabo-de-cavalo dos fatinhos pretos, azuis, ou castanhos, óculos transparentes e sapatos de meio tacão, estrelava um loiro platinado, óculos escuros e uma blusa verde alface com folhos; por último, a Ritinha! Ah, a Ritinha costumava rir-se da Dr.ª Susana a toda a hora. Ai que direitinha, ai que passadinha a ferro, ai que óculozinhos sem sal! Pois não é que o seu avatar é uma rapariga loira, de rabo-de-cavalo, com blusa branca e fato saia e casaco preto?
Só o José, das compras, lhe fazia companhia com a câmara ligada. Grande José!
Será que ele também ouve o "Va Pensiero"?




(Coro virtuale "Va pensiero" ("Nabucco" di G. Verdi) - International Opera Choir)

terça-feira, maio 12, 2020

Dos amores antigos

(imagem daqui)


Enquanto ele lhe entrançava a ternura no cabelo, os olhos de ambos reflectiam a luz de um amor antigo.


segunda-feira, abril 20, 2020

Constatações prosaicas




Da varanda, estranha-se o silêncio da praça.

Há uma espécie de angústia a tolher os olhares dos vizinhos, em cumprimentos mais calorosos do que aqueles a que nos acostumaram.

“Vi um menino, mamã!” -ouve-se do andar de cima –“Vi-o a correr com o cão! Também quero ir à rua!”

Nem as gaivotas se atrevem a pousar junto ao lago, depois de mais de vinte quilómetros de voo. Nem elas se fazem ao céu desde a praia.