Desde sempre que Maria se habituara a esperar.
Ajustava o corpo ao sofá que começara por ser castanho-escuro com flores e, de ano para
ano, clareara até um bege desmaiado, onde as ramagens teimavam em resistir.
Esperara por José, quando ele se atrasava para o jantar.
Esperara por ele, ainda, noite dentro, adormecendo em leituras longas.
Esperara, em vão, quando ele saiu para uma viagem curta de trabalho e nunca
mais voltou.
Esperara pelos filhos, nos dias que o verão prolongava até
as estrelas esmaecerem. Esperara por eles sem sucesso, tantos fins-de-semana, a
solidão a morder-lhe os olhos em lágrimas.
Esperara pela morte, sem medo, até que ela veio, em jeito
terno, levando-a ao colo.
Joana apaixonou-se pelo sofá, assim que o viu na montra da
loja do Sr. Joaquim dos estofos.
Tão bom que deve ser para esperar, pensou!
(Mísia - Sem saber)




