Joana tinha sido despertada do torpor que a assaltara depois do almoço pela voz chilreante do menino que brincava sozinho no jardim. Sentara-se num banco confortavelmente refrescado por um rododendro de flores rubras e vivas, que deixavam cair uma pétala de quando em vez ao beijo suave do vento.
Devia ter uns cinco anos, o menino do carrinho amarelo. Chegavam-lhe algumas frases soltas: Vai! Voa! Olha o passarinho ali! Logo, vamos dormir com o ursinho, sim? Vruuuuuum! Vruuuuum!
Sorriu e recordou as brincadeiras no jardim da casa grande: pés descalços, cabelos em desalinho, em perseguição de um pardalito mais jovem; joelhos na terra, olhos brilhantes à espreita de um grilo cantor que se escondia no fundo do pequeno buraco; gargalhadas sonoras em reboladelas com o Juno, cão rafeiro e atrevido, a fazer-lhe cócegas nas pernas com a cauda irrequieta...
Levantou-se, aproximou-se do pequeno automobilista improvisado, sentou-se no chão, e disse-lhe: Queres fazer uma pista de terra para o teu carrinho?
Sabia que o frio entrava sempre que a porta verde se abria, a cada cliente que entrava em busca de um café ou de um chá que lhes revigorasse a alma ou quando se arrastavam, a custo, para a rua envolta em bruma molhada de chuva. Não se importava com o arrepio que a sacudia e trocava o calor macio das mesas mais protegidas pelas recordações que aquela lhe trazia. Por isso, os olhos perdiam-se-lhe num ponto distante no espaço e se lhe abriam os lábios num sorriso luminoso enquanto comia uma torrada dourada acompanhada por um chá de rooibos.
Tinham sido tempos difíceis. Bebiana e João chegaram aos quarenta
sem que no céu houvesse uma única estrela ou fossem abençoados com um filho.
Frente ao caldo da ceia, já nem levantavam os olhos da malga, mergulhados num
silêncio pesado embrulhado no cansaço dos dias e na escuridão das noites.
Naquele final de tarde, Bebiana sentiu uma vontade enorme de
comer nêsperas. Raio de coisa, para o que lhe havia de dar, pensou João, saindo
de casa para encostar a escada à nespereira onde despontavam meia dúzia de
frutos mirrados. Bastou a novidade para que se olhassem como há muito tempo não
faziam. Conta-se que foi nessa noite que Luz foi concebida. Estranhamente,
tantos anos volvidos, uma estrela surgiu, solitária, visível por detrás dos
montes que rodeavam a aldeia.
Quando rebentaram as águas a Bebiana e as mãos
hábeis da Sr.ª Tina seguraram Luz em prantos, rasgou-se o negrume, pontilhando-se
de milhares de estrelas.