Era menina, não mais do que seis anos. Mal aprendera a ler e só desenhava umas poucas palavras. As tardes alongavam-se em correrias pelos campos, jogos de macaca, esconde-esconde... Para ela, as mães eram todas donas de casa e os pais uns senhores muito sérios que iam ganhar dinheiro para a mulher e os filhos comprarem comida, roupa e outras coisas, poucas, como um brinquedo na festa da vila, ou um gelado num ou outro Domingo.
Meninos e meninas, faziam uma roda e punham as mãos da costas para cima, prontas para serem penicadas.
"Pico-pico, sarrubico vai ao mar buscar sardinha, para o pobre do Luís. O Luís, não a quis, deu-lhe um murro no nariz, salta a pulga da balança, dá um pulo, até à França. Os cavalos a correr, as meninas a aprender qual será a mais bonita. Que se vai esconder?"
Logo corria a esconder-se aquele em cuja mão terminasse a lengalenga, continuando a brincadeira até se fartarem.
Descobriu, no dia em que a Susana chegou à rua com os olhos vermelhos de chorar, que nem todos os pais ganhavam dinheiro para comida, roupa e outras coisas, ainda que poucas. Nesse dia, a Susana disse que tinha fome e que o pai, zangado por ela pedir pão, lhe batera.
Não sabia bem porque é que havia um pai que não dava pão à filha e, ainda por cima, lhe batia, mas deixou-a ganhar todos os jogos, até vê-la sorrir.
Haveria de saber que havia muitos pais sem pão para dar aos filhos mas não ainda...
Sentam-se na fila da frente, carruagem 4, lugares 71 e 73. Falam a meia-voz. Ainda assim, é inevitável ouvi-los.
Risos. "Já viste esta? É por isso que adoro esta revista!" Uma espreitadela por entre os dois lugares permitia ver a capa da "Maria". "Deixa-me ler em paz. Esta história de amor é linda!" "Posso ler depois?" "Podes, claro!"
A sério?! A "Maria"? Há um certo sentido de superioridade intelectual a fazê-la desdenhar daqueles dois. Revista de má qualidade, com textos de péssimo gosto, conhecida pelas páginas de resposta a cartas dos leitores do mais ridículo que se possa imaginar. Mas depois observou aquele rapaz e aquela rapariga pela nesga rasgada entre os bancos. Ele a beijar-lhe a testa, a ternura na mão dela a acariciar a dele, o cuidado dele a ajeitar-lhe a cabeça no ombro quando ela queria espreitar uma página, a preocupação de ambos em nunca deixar escorregar o casaco que lhes cobria os joelhos, não fosse o outro ter frio... Desdém? Era AMOR. Que importa o que liam? De repente, foi inveja o que sentiu daqueles dois.
Clara vivia apressadamente. Sobravam-lhe os dias no internato para se calar, para chorar, para sonhar com ursos ferozes enjaulados por meninas de bata branca, soquetes e sapatos de verniz preto. Agora era tempo de usar calças à boca de sino, com 25 centímetros no fundo e a estourar as costuras de justas no rabo, ou saias às pregas absurdamente curtas. Tempo de pôr flores e lenços coloridos na cabeça, fazer tranças com fitas, usar socas com plataforma de altura vertiginosa, fumar cigarros roubados à irmã mais velha, desenhar longos risco de eyeliner negro e fazer olhinhos descarados aos rapazes do liceu. Era tempo de ser Clara.