segunda-feira, dezembro 14, 2015

Paisagem 2

(Daqui)


Ao sexto dia de clausura, já não tinha uma janela debruçada sobre o jardim dos mortos. Para trás ficaram as gerberas, as hidranjas e os fetos, não mais entrançados ou orgulhosamente erectos, antes tombados e em desarranjo, varridos pelo vento. Nesses dois dias de diferença, não avistara casacos coloridos. Dera conta, sim, de muitos casacos negros, todos juntos e em passo lento, seguindo um féretro. Também eram portadores de flores, o que tornava o cortejo fúnebre estranhamente alegre, pontuado por manchas coloridas de grandes coroas e ramos. Pensara para com os seus botões, não muitos porque o vestido era de fecho e só tinha dois na gola, que fazia falta uma banda naquela cerimónia. Uma coisa ao estilo de Nova Orleães, com clarinetes, saxofones e violinos, muitos cânticos e dança bastante. 
Mas agora, a janela, bem, era mais uma porta com varanda a bordejá-la,tinha toda uma outra vista. Sentou-se e, de chávena de chá de rooibos na mão, deu por si a olhar as centenas de outras janelas e portas envidraçadas que se perfilavam mesmo ali ao pé. Algumas quase pousavam na copa das árvores, enquanto outras ficavam bem acima da sua linha de visão, outras, ainda, quase pareciam um prolongamento da sua. Nunca se pensara a olhar os outros por detrás dos vidros. A clausura aguçara-lhe a curiosidade. Ocupava-se de pequenos nadas que iam do carreiro imenso de formigas em equilíbrio no varandim, até ao polícia que multava afanosamente os automobilistas prevaricadores das regras de estacionamento no largo bem defronte. 
Sorveu mais um gole de chá, levantou-se, e deixou os vizinhos tranquilos.


sábado, dezembro 12, 2015

Paisagem

(Beatriz Guzman Velasquez)

Há algum tempo que não se dava ao tempo de ficar sentada junto a uma janela. É Sábado e não pode sair nem fazer nada de muito relevante a não ser ficar sentada. Fá-lo, por isso, à janela. 
Das que se rasgam nas paredes de sua casa, sabe bem que veria uma praça ampla com meninos a brincar sob a vigilância atenta dos pais, ouve-lhes as gargalhadas entrecortadas pelo chamamento de “Luísa!”, “Diogo!”, “Maria!”, de quando em vez. Há também pássaros, muitos, nas árvores que agora se arredondam de ouro e cobre. Há, até, por vezes, uma gaivota que, inexplicavelmente, vem molhar as patas cansadas no lago da praça distante do mar.
Desta, a que lhe calhou em sorte ao quarto dia de clausura, que até ao terceiro a vista era outra e até enchia a alma de sol, avistava um cemitério. Eram onze horas, não mais, quando se agitaram os corredores das sepulturas. Os vivos enxamearam o lugar dos mortos com casacos coloridos e flores. Observou-os, aos donos dos casacos portadores de flores, na azáfama do enfeite. Não pararam em introspectiva meditação, nada que se assemelhasse a um reviver de recordações, apenas procuravam a melhor posição na jarra para um ramo de feto, uma gerbera, uma hidranja. A espaços, afastavam-se para ver o efeito do arranjo, deitando alguns um olhar disfarçado à campa do vizinho, como que a conferir se estaria mais bonita.
Pelas doze horas, não mais, não restavam nenhuns donos de casacos coloridos a alegrar a janela, apenas hastes de flores e fetos em orgulhoso entrance a florir campas cinzentas.



(Frank Sinatra, cem anos)

segunda-feira, dezembro 07, 2015

Golpe de asa

(J. M. W. Turner)

Foi gaivota. Rasou o rio, primeiro, sem que a assustasse o vento a fazer a água agitar-se e a levantar o malhoco. Planava uma e outra vez, pousando a espaços na ponte. A cada vez, aventurava-se em voos mais longos. A foz ali tão perto. O sonho de cruzar o mar a encher-lhe a quilha, a ritmar-lhe o bater de asas. Seguia aquela outra, sempre em reviravoltas de piloto experimentado, regressando mais tarde com o mar nos olhos e histórias de ondas alterosas onde também voavam peixes.
Atreveu-se a ir. Havia nevoeiro e a ronca ensurdecia-a mas nada a demoveu. Inebriada pelo cheiro a maresia, voou mais longe do que nunca, lá em baixo, a água encarneirada com malha branca. Avistava a gaivota aventureira e traçava o rumo na sua esteira. Na excitação, nem sentiu o golpe do arame que se soltara do grande navio, rodopiando ao sabor do vento norte, muito menos se deu conta do vermelho que lhe salpicava a alvura das penas. Morria e nada a movia a não ser continuar.


sábado, dezembro 05, 2015

Férias grandes

(imagem daqui)

Os dias eram longos nas férias grandes e, no entanto, para Clarinha o tempo era sempre pouco. Levava aqueles dias num corrupio tal que chegava à noite em quebranto de pernas e de braços, chegando a adormecer entre a sopa e o prato principal do jantar. 
-Esta menina não pára! dizia o pai, enquanto lhe pegava ao colo para a ir deitar na cama onde a mãe a despia com cuidado, enfiando-lhe a camisa de noite a custo e metendo-a entre os lençóis.
Mas de manhã, qual passarinho laborioso, Clarinha levantava-se, lava-se num piscar de olhos, vestia os calções e a camisola, calçava as sandálias velhinhas e, bebendo o leite em goles sôfregos, agarrava no pão com manteiga e corria porta fora com um "até logo, mãe" pouco perceptível, com a boca cheia. 
E era vê-la a bater à porta da Dona Arminda e gritar "Oh, Joaninha! Joaninha! Anda brincar!". Depois, já eram duas a correr pela aldeia, batendo às portas do Zé, do João, da Paula e da Diana. Um bando de miúdos enchia os caminhos e os campos de correrias e gargalhadas, apenas interrompidas para o almoço porque o lanche era metido em sacas e saboreado à sombra de uma árvore ou em cima de um muro, sentados, de pernas a bambolear.



sexta-feira, dezembro 04, 2015

Anatomia de um romance

(Jack Vettriano)

Anatomia de um romance.

- deu-lhe um beijo rápido na face, encostando ao de leve o peito ao dela;
- beijou-lhe os dedos da mão direita, pedindo antes "Posso?";
- comeu torradas, nem se lembrando que não costumava fazê-lo;
- deu-lhe nome de pássaro marítimo;
- apertou-a nos braços e beijou-lhe a testa;
- deixou que os lábios descessem das pálpebras à boca;
- descalçou-se com ela e pisaram a areia;
- beijou-a vezes sem conta, intercalando os beijos com o nome dela;
- ajoelhou-se aos seus pés e chamou-lhe "minha Deusa";
- ajudou-a a despir-se de roupa e de pudores;
- completou o corpo dela com o seu corpo;
- abraçou-a, nua, como se sempre a tivesse abraçado;
- chamou-lhe "minha".



- deixou que o seu peito tocasse o dele, durante um beijo rápido;
- entregou-lhe, aos lábios, a mão trémula;
- partilhou as torradas com prazer;
- levou-o a ver o mar;
- enroscou-se nos braços dele;
- ergueu o rosto para ser beijada;
- descalçou-se para pisar a areia com ele;
- beijou-o vezes sem conta, ao som do seu nome dito com doçura;
- acariciou-lhe a cabeça quando o viu de joelhos frente a si;
- foi um só corpo com o corpo dele;
- abraçou-se a ele, nua, como se nunca tivesse abraçado antes;
- chamou-lhe "meu".


quinta-feira, dezembro 03, 2015

Ser ou não ser

(Francis Picabia)


Há uma clara distinção entre ser transparente e ser invisível. A transparência faz de nós seres mais directos e entendíveis ao passo que a invisibilidade nos torna inexistentes. O mesmo se passa relativamente aos seres opacos e aos seres densos. Enquanto os primeiros são um obstáculo à compreensão, os densos são um desafio à descoberta.
Existir requer densidade e transparência, por mais contraditório que se nos assemelhe.


Hoje, sinto-me mais invisível do que transparente.