Ao sexto dia de clausura, já não tinha uma janela debruçada sobre o jardim dos mortos. Para trás ficaram as gerberas, as hidranjas e os fetos, não mais entrançados ou orgulhosamente erectos, antes tombados e em desarranjo, varridos pelo vento. Nesses dois dias de diferença, não avistara casacos coloridos. Dera conta, sim, de muitos casacos negros, todos juntos e em passo lento, seguindo um féretro. Também eram portadores de flores, o que tornava o cortejo fúnebre estranhamente alegre, pontuado por manchas coloridas de grandes coroas e ramos. Pensara para com os seus botões, não muitos porque o vestido era de fecho e só tinha dois na gola, que fazia falta uma banda naquela cerimónia. Uma coisa ao estilo de Nova Orleães, com clarinetes, saxofones e violinos, muitos cânticos e dança bastante.
Mas agora, a janela, bem, era mais uma porta com varanda a bordejá-la,tinha toda uma outra vista. Sentou-se e, de chávena de chá de rooibos na mão, deu por si a olhar as centenas de outras janelas e portas envidraçadas que se perfilavam mesmo ali ao pé. Algumas quase pousavam na copa das árvores, enquanto outras ficavam bem acima da sua linha de visão, outras, ainda, quase pareciam um prolongamento da sua. Nunca se pensara a olhar os outros por detrás dos vidros. A clausura aguçara-lhe a curiosidade. Ocupava-se de pequenos nadas que iam do carreiro imenso de formigas em equilíbrio no varandim, até ao polícia que multava afanosamente os automobilistas prevaricadores das regras de estacionamento no largo bem defronte.
Sorveu mais um gole de chá, levantou-se, e deixou os vizinhos tranquilos.





