segunda-feira, setembro 14, 2015

Sonho de fim de tarde

(Alex Colville)


Era ao fim da tarde que Manuela pegava no cesto branco, o enchia com a roupa acabada de retirar da máquina, e ia estendê-la no quintal. Era, também, ao fim da tarde, que metia no recanto mais fundo de si a vontade de esquecer a roupa suja, a máquina de lavar e o cesto vazios, e deixar-se levar pela música da telefonia numa dança que lhe desarrumasse o vestido de corte discreto e lhe despenteasse o cabelo sempre caprichado. Mas era só ao fim da tarde. Logo, a noite chegava.



sábado, setembro 12, 2015

Não te irei visitar

(Brenda Goodman)


Não te irei visitar.Estás em que piso? Dois? Recebes visitas, agora, ou já não? Corre-te nas veias soro com morfina. Não terás dores. Dormes, por certo. Irreconhecível, como quando vieste ao último funeral. Absurdo, não é? Encontrarmo-nos em funerais e, agora, saber que aguardo o teu... Não! Acho que não quererias que te visitasse agora. Não a ti, homem cordato, de sorriso aberto e olhar doce, mas a esse outro, inerte e pálido, adormecido numa qualquer cama de hospital. Dizem que morres. Para mim, não morrerás. Por isso, não, não te irei visitar.


quinta-feira, setembro 10, 2015

Entrega

(Marc Chagall)


Sabiam que o amor não era eterno. Tinham tropeçado nele, como se enredados no novelo de lã a ser dobado, pacientemente, pela mãe que a destina aos primeiros carapins do filho prometido. E é com a ternura, a luz, o enlevo de mãos amantíssimas que, a cada dia, se entregam um ao outro como se fosse, a um tempo, a primeira e a última vez.


Mulher num quarto de hotel






Edward Hopper Study: Hotel Room


While the man is away
telling his wife
about the red-corseted woman,
the woman waits
on the queen-sized bed.
You'd expect her quiet
in the fist of a copper
statue. Half her face,
a shade of golden meringue,
the other half, the dark
of cattails. Her mouth even—
too straight, as if she doubted
her made decision, the way
women do. In her hands,
a yellow letter creased,
like her hunched back.
Her dress limp on a green chair.
In front, a man's satchel
and briefcase. On a dresser,
a hat with a ceylon
feather. That is all
the artist left us with,
knowing we would turn
the woman's stone into ours,
a thirst for the self
in everything—even
in the sweet chinks
of mandarin.






Uma mulher loira, de corpete vermelho, senta-se na cama, lendo uma carta escrita em papel amarelo. No chão, um saco masculino. Será que ele partiu para sempre e a abandonou naquele quarto de hotel, atirando-lhe palavras de adeus? Ou apenas lhe diz que, não tarda nada, voltará para a abraçar? 

segunda-feira, setembro 07, 2015

Melro


(José Rosinhas)


Oficio a un melro

Eu comunícolhe a vostede, Senhor Melro,
que anda a cantar tan ben no silveiral:
e súa canción, souril e velha,
pon unha arela de luz no meu sentir.
É como si en mín nacera algún milagre
ou unha roseira inefabel me apampara
deixándome estantío.
É como si unha voz de anxo, tan acesa,
puxera no corazón tal senhardade.
Pro eu comunícolhe a vostede, Senhor Melro,
que non lhe diga a ninguén o seu cantar.
Vostede non ten licencia da Academia
e non se pode cantar sin máis nin máis.

Manuel Maria (F. Teixeiro), in 99 poemas





É que não se pode cantar assim tão bem, despertar uma repentina vontade de dançar, de abraçar, de beijar. Que me oiça, Sr. Melro, não se pode!

sexta-feira, setembro 04, 2015

Gaivota



Ana Maria caminhava devagar, apreciando o calor tépido do entardecer. O passeio largo, onde as palmeiras se descabelavam ao vento Norte, convidava a passos tranquilos e o mar, espraiando-se em sucessivas vagas de um azul claríssimo, quase galgava o paredão, embranquecendo-o de espuma. Subiu o caminho que leva ao farol com um sorriso nos lábios. Tinha sido ali, há alguns anos, que Júlio lhe passara os braços pelos ombros desprevenidos, a puxara de encontro ao peito e lhe chamara gaivota. 
Talvez por isso, não resistia a embriagar-se de mar e a deixar-se voar com as gaivotas, quem sabe em viagem até Júlio.