"Se não fosse aquela história (...) teria pensado, numa vida posterior, que tinha sonhado (...). Mas ainda a contam na aldeia e riem-se dela; distanciou-se da versão original. Que coisa boa, o que o tempo faz por nós. Salpica-nos com misericórdias, como se fosse pó mágico das fadas."
Mantel, Hilary.O Assassinato de Margaret Thatcher.Edições Brilho da Letras, Lisboa, 2015. p. 47
Já viste o Sr. João? Coitado, que velho está, sempre embirrento, com um sorrizinho sarcástico. E com a filha? Um chato! Nunca me esqueço daquele par de estalos que lhe deu naquele Domingo, na vila, quando ela, a pobre, se afastou para ver um vendedor de balões.
Morreu o Sr. João! Coitado, tão novo, ainda, e tão prestável, sempre com aquele sorriso simpático. E com a filha? Ai, que carinhoso que era! Lembro-me das vezes em que os via a passear ao Domingo na vila, de mãos dadas.
O tempo e a morte parecem ter propriedades mágicas.
Dêem-me um cavalo rápido e valente. Dêem-me uma espada afiada e reluzente. Dêem-me um escudo leve e resistente. Pois parto, senhores, em árdua viagem. Foi em sonhos vários que vi o tesouro, Não havia incenso, nem mirra, ou ouro. Havia um grande azul de ferir o olhar E um abraço terno onde sempre voltar.
Dêem-me um cavalo, um escudo e uma espada. Encontrado esse abraço não o perco por nada!
Esta região, habitada sem interrupção por gente da mesma raça, passou de mão em mão até hoje, guardando sempre a sua liberdade, graças ao seu esforço. E se aqueles antepassados merecem o nosso elogio, muito mais o merecem os nossos pais. À herança que receberam juntaram, ao preço do seu trabalho e dos seus desvelos, o poder que possuímos, que nos legaram. Nós o aumentamos. E no vigor da idade ainda alargamos esse domínio, abastecendo a cidade de todas as coisas necessárias, tanto na paz como na guerra. (...)
A nossa constituição política não segue as leis de outras cidades, antes lhes serve de exemplo. O nosso governo chama-se democracia, porque a administração serve aos interesses da maioria e não de uma minoria.
De acordo com as nossas leis, somos todos iguais no que se refere aos negócios privados. Quanto à participação na sua vida pública, porém, cada qual obtém a consideração de acordo com os seus méritos e mais importante é o valor pessoal que a classe a que se pertence; isto quer dizer que ninguém sente o obstáculo da sua pobreza ou da condição social inferior, quando o seu valor o capacite a prestar serviços à cidade. (...)
Temos a vantagem de não nos preocupar com as contrariedades futuras. Quando chegam estas, enfrentamo-las com boa têmpera, como os que sempre estiveram acostumados com elas.
Por estas razões e muitas mais ainda, a nossa cidade é digna de admiração. Ao mesmo tempo em que amamos simplesmente a beleza, temos uma forte predilecção pelo estudo. Usamos a riqueza para a acção, mais que como motivo de orgulho, e não nos importa confessar a pobreza, somente considerando vergonhoso não tratar de evitá-la.
Por outro lado, todos nos preocupamos de igual modo com os assuntos privados e públicos da pátria, que se referem ao bem comum ou privado, e gentes de diferentes ofícios se preocupam também com as coisas públicas.
Nós consideramos o cidadão que se mostra estranho ou indiferente à política como um inútil à sociedade e à República.
Decidimos por nós mesmos todos os assuntos sobre os quais fazemos, antes, um estudo exacto: não acreditamos que o discurso entrave a acção; o que nos parece prejudicial é que as questões não se esclareçam, antecipadamente, pela discussão.
(...)
Túcidides, in História da Guerra do Peloponeso
A grandeza do discurso diz-nos dos gregos, da sua resiliência e da sua coragem.
algumas horas outras invadiram as sedas, os perfumes
ácidos da louça, não serão recordadas. ou quanto mais
as recordarmos, mais a ignorância deitará
os corpos no tapume de vidros, para que em torno
se conciliem as vontades singulares, as
particularidades de um impetuoso alarme.
ou seja: deixarão as esplanadas baças, os garfos
encolhidos, para que um amplo destino os atravesse.
considerem, por exemplo o paquete que ao meio-dia
digere as minuciosas palmeiras sobre a
alta insensatez dos aquedutos. ou ainda
a ilusão dos alicates ao lado da água, e o seu reflexo
do outro lado das vidraças: azul, não é?
assim estas algumas outras horas: como esquecê-las?
António Franco Alexandre
Horas azuis Há horas que se alongam em azuis para lá do tempo que nos move. Nada as impede de atravessar a liquidez dos olhares, a ternura dos dedos, o enlaçar das almas.
Maria Eu