quinta-feira, julho 09, 2015

O pó mágico do tempo


(René Magritte - O falso espelho)

"Se não fosse aquela história (...) teria pensado, numa vida posterior, que tinha sonhado (...). Mas ainda a contam na aldeia e riem-se dela; distanciou-se da versão original. Que coisa boa, o que o tempo faz por nós. Salpica-nos com misericórdias, como se fosse pó mágico das fadas."

 Mantel, Hilary.O Assassinato de Margaret Thatcher.Edições Brilho da Letras, Lisboa, 2015. p. 47


Já viste o Sr. João? Coitado, que velho está, sempre embirrento, com um sorrizinho sarcástico. E com a filha? Um chato! Nunca me esqueço daquele par de estalos que lhe deu naquele Domingo, na vila, quando ela, a pobre, se afastou para ver um vendedor de balões.
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Morreu o Sr. João! Coitado, tão novo, ainda, e tão prestável, sempre com aquele sorriso simpático. E com a filha? Ai, que carinhoso que era! Lembro-me das vezes em que os via a passear ao Domingo na vila, de mãos dadas.


O tempo e a morte parecem ter propriedades mágicas.


quarta-feira, julho 08, 2015

Viagem

(Sally Storch)


Despojou-se de si e partiu. Tinham-lhe dito que o comboio já não passava naquela linha mas ela sabia que não era verdade.



terça-feira, julho 07, 2015

Tesouro

(Joan Miro)


Dêem-me um cavalo rápido e valente.
Dêem-me uma espada afiada e reluzente.
Dêem-me um escudo leve e resistente.
Pois parto, senhores, em árdua viagem.

Foi em sonhos vários que vi o tesouro,
Não havia incenso, nem mirra, ou ouro.
Havia um grande azul de ferir o olhar
E um abraço terno onde sempre voltar.


Dêem-me um cavalo, um escudo e uma espada.
Encontrado esse abraço não o perco por nada!




domingo, julho 05, 2015

Dos gregos


Oração de Péricles (daqui)
(...)
Esta região, habitada sem interrupção por gente da mesma raça, passou de mão em mão até hoje, guardando sempre a sua liberdade, graças ao seu esforço. E se aqueles antepassados merecem o nosso elogio, muito mais o merecem os nossos pais. À herança que receberam juntaram, ao preço do seu trabalho e dos seus desvelos, o poder que possuímos, que nos legaram. Nós o aumentamos. E no vigor da idade ainda alargamos esse domínio, abastecendo a cidade de todas as coisas necessárias, tanto na paz como na guerra. (...) 
A nossa constituição política não segue as leis de outras cidades, antes lhes serve de exemplo. O nosso governo chama-se democracia, porque a administração serve aos interesses da maioria e não de uma minoria.
De acordo com as nossas leis, somos todos iguais no que se refere aos negócios privados. Quanto à participação na sua vida pública, porém, cada qual obtém a consideração de acordo com os seus méritos e mais importante é o valor pessoal que a classe a que se pertence; isto quer dizer que ninguém sente o obstáculo da sua pobreza ou da condição social inferior, quando o seu valor o capacite a prestar serviços à cidade. (...) 
Temos a vantagem de não nos preocupar com as contrariedades futuras. Quando chegam estas, enfrentamo-las com boa têmpera, como os que sempre estiveram acostumados com elas.
Por estas razões e muitas mais ainda, a nossa cidade é digna de admiração. Ao mesmo tempo em que amamos simplesmente a beleza, temos uma forte predilecção pelo estudo. Usamos a riqueza para a acção, mais que como motivo de orgulho, e não nos importa confessar a pobreza, somente considerando vergonhoso não tratar de evitá-la.
Por outro lado, todos nos preocupamos de igual modo com os assuntos privados e públicos da pátria, que se referem ao bem comum ou privado, e gentes de diferentes ofícios se preocupam também com as coisas públicas.
Nós consideramos o cidadão que se mostra estranho ou indiferente à política como um inútil à sociedade e à República.
Decidimos por nós mesmos todos os assuntos sobre os quais fazemos, antes, um estudo exacto: não acreditamos que o discurso entrave a acção; o que nos parece prejudicial é que as questões não se esclareçam, antecipadamente, pela discussão.
(...)

Túcidides, in História da Guerra do Peloponeso





A grandeza do discurso diz-nos dos gregos, da sua resiliência e da sua coragem. 

Das horas azuis


(Mark Grotjahn)


Algumas horas outras

algumas horas outras invadiram as sedas, os perfumes

ácidos da louça, não serão recordadas. ou quanto mais

as recordarmos, mais a ignorância deitará

os corpos no tapume de vidros, para que em torno

se conciliem as vontades singulares, as

particularidades de um impetuoso alarme.

ou seja: deixarão as esplanadas baças, os garfos

encolhidos, para que um amplo destino os atravesse.

considerem, por exemplo o paquete que ao meio-dia

digere as minuciosas palmeiras sobre a

alta insensatez dos aquedutos. ou ainda

a ilusão dos alicates ao lado da água, e o seu reflexo

do outro lado das vidraças: azul, não é?

assim estas algumas outras horas: como esquecê-las?



António Franco Alexandre





Horas azuis

Há horas que se alongam em azuis 

para lá do tempo que nos move. 

Nada as impede de atravessar

a liquidez dos olhares, 

a ternura dos dedos, 

o enlaçar das almas.

Maria Eu

sábado, julho 04, 2015

Ser amado

(Richard Tuschman inspirado em Edward Hopper)

Ele queria que ela o amasse.
Ela, nem por isso.
Deixou-se, então, amar por outra.