sexta-feira, maio 08, 2015

Viagem sem mapa


(Rafel Olbinski)

“topografias em quase dicionário”

Reaprender o mundo
em prisma novo:
pequena bátega de sol a resolver-se
em cisne
sereia harmonizando o universo
Só o vento sucumbe
à demais luz
e só o vento,
como alaúde azul,
repete devagar os mesmos sons.

Não interessa onde estou,
não me faz falta um mapa
de viagem
(…)



Ana Luísa Amaral, in A Génese do Amor, 9




Olhar o mundo com um novo olhar. Não ter linhas traçadas no chão a pisar. Tão mais difícil do que planear a viagem...

quinta-feira, maio 07, 2015

Branca


Branca costumava levantar-se cedo. A cada manhã, mal se ouviam os primeiros trinados do pintassilgo que resolvera fazer sala na varanda do seu quarto, erguia-se de um salto, como se a noite lhe assombrasse o calor dos lençóis. Não tardava a estar pronta, pequeno almoço de torradas e café com leite tomado, e a casa abria-se de para em par, janelas escancaradas, deixando que a voz de Branca se juntasse à do pintassilgo numa cantoria desarvorada. 
- Oh, menina, que me cansas! dizia a mãe. E o teu pai ainda está deitado, coitado, nem o deixas descansar!
Mas Branca pouco caso fazia e, quando muito, saía para o quintal e ia sentar-se debaixo da nespereira onde o pássaro cantor tinha o ninho, calando a voz mas cantando na mesma. 


segunda-feira, maio 04, 2015

Golpe de vento



Sai de casa apressada, como de costume. O vento fustiga-lhe a cara e as mãos nuas. Traz-lhe uma irritação inquietante, o vento, assim forte e descontrolado. Rolam pedaços de guarda-chuvas pela praça e milhares de pequenas partículas de folhas, papéis, resíduos de lixo, formam espirais  visíveis que se recortam no ar. Ramos de árvore caem ali ao lado. 
Morreu um homem, hoje, junto à praça. Havia um ramo com o nome dele escrito a ser levado pelo vento inusitadamente violento. 


domingo, maio 03, 2015

Brandura

(João Cutileiro)


De todas as suas características a que mais a desgosta é a brandura.



sábado, maio 02, 2015

Rasga-me

(Graham Dean)




Encargo

No me des tregua, no me perdones nunca.
Hostígame en la sangre, que cada cosa cruel sea tú que vuelves.
No me dejes dormir, no me des paz!
Entonces ganaré mi reino,
naceré lentamente.
No me pierdas como una música fácil, no seas caricia ni guante;
tállame como un sílex, desespérame.
Guarda tu amor humano, tu sonrisa, tu pelo. Dalos.
Ven a mí con tu cólera seca de fósforo y escamas.
Grita. Vomítame arena en la boca, rómpeme las fauces.
No me importa ignorarte en pleno día, saber que juegas cara al sol y al hombre.
Compártelo.

Yo te pido la cruel ceremonia del tajo,
Lo que nadie te pide: las espinas
Hasta el hueso. Arráncame esta cara infame, oblígame a gritar al fin mi verdadero nombre.


Julio Cortázar




Queria tudo. Queria a doçura dos lábios e o rasgar dos dentes, as carícias leves dos dedos e o cravar das unhas, o sorriso suave e o esgar de gozo. De nada lhe dessem a metade. Da outra metade ficaria sempre à míngua, sufocando na vontade do grito último e fero.

sexta-feira, maio 01, 2015

Voo em azul


(Amy Judd)

Sem mais nem para quê, viu-se pássaro a cruzar os ares. E, nesse céu imenso, voou, por fim, ao lado do pássaro  azul.