quarta-feira, fevereiro 25, 2015

De papel

(Helena Santos)



De repente, rasga-se por dentro como papel de seda. Sempre se soubera frágil, sujeita a quedas e joelhos esfolados mas nunca supuseras que a carne, o músculo, o osso, fossem, afinal de contas, papel.



terça-feira, fevereiro 24, 2015

Ao menos que...

(Gianni Monteleone)


Ana nascera num tempo em que as mulheres cresciam em malhas apertadas, ensinadas pelas mães e vigiadas de perto pelos pais e pelos irmãos. Adorava cantar e dançar. Fazia-o à socapa, ensaiando passos irreverentes no quarto, ao som da telefonia que o irmão mais velho ouvia no sótão, e deixando a voz soltar-se a plenos pulmões nas correrias pelos campos. A mais nova de dez irmãos, foi-os vendo partir, de festa em festa de casamento, embalada no sonho de ser levada também por um homem garboso que soubesse dançar e lhe desse filhos aos quais embalasse com canções. Ele veio, o seu homem. Bonito, garboso, apaixonado. No enxoval, uma máquina de costura e uma telefonia. Ana mal podia esperar pelas noites em que, depois de jantar, arrumada a cozinha, ele a abraçasse pela cintura e a arrebatasse em danças sem fim.

Ana não sabia que aquele homem, tal como o pai e os irmãos, nunca iria deixá-la dançar, que isso de dança era no namoro. Ao menos, suspiraria ela uns anos depois, enquanto costurava um vestido às pregas e ouvia histórias de amor na telefonia, ao menos pude embalar os meninos cantando.


segunda-feira, fevereiro 23, 2015

L'ancanto de las lénguas


Hai lénguas que se stranhan mas que, oubidas, se entranhan. Ouçamos, pus, l canto dua léngua resistente.

sábado, fevereiro 21, 2015

Do desejo de voar

(Geoffrey Johnson)

"Há uma rua, um pouco mais acima, onde gostaria de voltar um dia. Segui por essa rua nessa manhã. (...) Mais adiante a rua desembocava no céu, como se conduzisse à beira de uma falésia. Avançava com o sentimento de leviandade de que por vezes somos acometidos nos sonhos. Não tememos nada. Todos os perigos são irrisórios. SE as coisa correm realente mal, basta-nos acordar. Somos invencíveis. (...) Em breve alcançaria a falésia e lançar-me-ia no vazio. Que felicidade, pairar no ar e conhecer finalmente aquela sensação de ausência de gravidade que sempre procurara."

Patrick Modiano, in "No Café da Juventude Perdida"




Desde sempre havia nela um secreto desejo de voar. Tivera até, um dia, a sensação de que lhe cresciam asas. Sentiu uma dor aguda nas costas, precisamente ali, onde elas deviam ficar, prontas a abrirem-se e a bater, levando-a a sobrevoar o mar, para além da falésia. Certo é que a dor ficou e as asas nunca apareceram. Valiam-lhe os sonhos.

Refúgio

(Jorge Gay)


Que melhor refúgio para os meus cansaços do que a curvatura dos teus (a)braços?


quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Amiga

(Abbott Handerson Thayer)

De ti, ficarão os anos de juventude, as gargalhadas, as lágrimas, as palavras (tantas que elas foram). De ti, ficarão apenas as coisas boas porque não há que recordar mais nada. A doença, a dor, essas desapareceram, por fim.
Um dia, minha amiga, um dia ainda vamos encontrar-nos num sítio qualquer com que nenhuma de nós alguma vez sonhou e rir, rir muito!