"Havia um poeta afetado. Era ele mesmo quem a assumia - a sua afetação - argumentando que todos os poetas são por condição afetados. De outro modo não seriam poetas. (Este argumento afetava muita gente. E nem todos eram poetas). O que os torna poetas - explicava ele - é justamente essa capacidade de se deixarem afetar. Depois perguntava, afetivamente:
- Mas quando a poesia não te afeta, é poesia?
O poeta afetado era também um poeta infetado. Consequência da boa vida que levavam alguns poetas:
- Todos os poetas são por condição infetados - dizia.
Mas ninguém se deixe por isso afetar.
Havia um poeta afetado. Quando se queixou ao médico, ele receitou-lhe medicamentos e recitou-lhe uma pergunta:
- Mas quando a poesia não lhe apanha os rins, é poesia?"
Joana Bértholo, in "Havia"
De quando em vez a poesia afecta-me. Serei, por isso, afectada? E, sendo-o, afectarei alguém?





