quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Afectada

"Havia um poeta afetado. Era ele mesmo quem a assumia - a sua afetação - argumentando que todos os poetas são por condição afetados. De outro modo não seriam poetas. (Este argumento afetava muita gente. E nem todos eram poetas). O que os torna poetas - explicava ele - é justamente essa capacidade de se deixarem afetar. Depois perguntava, afetivamente:
- Mas quando a poesia não te afeta, é poesia?
O poeta afetado era também um poeta infetado. Consequência da boa vida que levavam alguns poetas:
- Todos os poetas são por condição infetados - dizia.

Mas ninguém se deixe por isso afetar.

Havia um poeta afetado. Quando se queixou ao médico, ele receitou-lhe medicamentos e recitou-lhe uma pergunta:
- Mas quando a poesia não lhe apanha os rins, é poesia?"

Joana Bértholo, in "Havia"




De quando em vez a poesia afecta-me. Serei, por isso, afectada? E, sendo-o, afectarei alguém? 

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Conselho 3


"Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra.Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente.Quando cada uma devorou a outra não ficou nada.

Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come."

in Almanaque de Santo António, 2002


Nunca confies numa serpente, elas comem-se uma às outras e, se puderem, ainda te comem a ti!

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Da identidade


(Sivan Sternbach)

Identidade

A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.


Pedro Mexia, in "Duplo Império"




Coração

O coração, ao contrário da pele,
não se renova ou perde de sete em sete anos.
Transforma-se ao sabor dos sentimentos,
torna excitante a permanência humana.
O coração pulsa, tem ritmo, fica louco
ou quase quieto de emoção.
O coração não aparece na foto
do documento da nossa identidade.
E porém...
O coração É a nossa identidade.


Maria Eu




domingo, fevereiro 15, 2015

O meu pai

(Jorge Pinheiro)




Cresci a adorar o meu pai. Homem bonito e tisnado pelo sol de quem se dizia quebrar corações em rapaz.Marcado por uma infância na qual não faltou comida na mesa mas que também não foi parca em trabalho, nunca foi de muitas palavras. 

Aos 9 anos já abandonara a escola com a 3ª classe, escolaridade obrigatória num país de analfabetos. Nunca gostara da carteira onde o sentavam frente aos cadernos nem da professora que marcava as pernas dos meninos com vergões de canas que eles mesmos lhe levavam, do canavial. Tantas e tantas vezes ficava pelo caminho a jogar futebol com os mais velhos ou a ajudar um e outro a cuidar dos animais no pasto. Esses atrasos valiam-lhe a fúria da mãe, mulher de "pêlo na venta", e muitos castigos.
Muito mais tarde, filhas crescidas, foi fazer o exame da 4ª, numa manhã envergonhada, em outra cidade, não fora alguém saber (eu soube-o pela minha mãe, já adulta, em muito segredo). Conheci-o sempre a trabalhar, numa jorna longa, sem nunca faltar um dia, mesmo doente. De uma rigidez que fazia questão de aplicar a ele mesmo para depois o fazer aos outros, os elogios aos seus eram guardados no peito e as críticas ferozes e públicas.Vi-o envelhecer a trabalhar até lhe dizerem que não dava mais para ficar e também o vi engolir as lágrimas por isso. Nunca teve jeito para as palavras. Escrevi-lhe as que proferiu na despedida aos que o tinham acompanhado nas horas longas de trabalho.
Olho-o agora, um homem de rosto enrugado e triste, encolhido no sofá, a falar do pouco tempo que lhe resta e a fazer as mesmas perguntas repetidamente. Só lhe brilham os olhos ao olhar das filhas, dos netos e bisnetos.
Ontem, segurava-me pela mão para que os meus passos se fizessem fortes enquanto me ensinava que o céu é azul. Hoje, pego-lhe na mão e lembro-lhe que o céu pode ser azul e não cinzento, como o pinta nos seus dias de memórias cada vez mais difusas.



sábado, fevereiro 14, 2015

Amor


(Marc Chagall)


- Vem ao jardim na primavera, disseste.
- Aqui estão todas as belezas, o vinho e a luz.
Que posso fazer com tudo isso sem ti?

- E, se estás aqui, para que preciso disso?


Jalāl ad-Dīn Muhammad Rūmī (1207 – 17 December 1273)




Só a tua presença me completa.

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Insónia

(Pedro Abreu)


Não sabia porquê, a insónia fazia-lhe demasiada companhia de há um tempo a esta parte. Olheiras, lágrimas involuntárias e cabeça latejante são largamente compensadas com horas extra de música e muitas páginas lidas. Os sentidos também ficam mais despertos, de madrugada. A pele sensível à temperatura que desce e a arrepiar-se naquele momento certo em que o violino solta as notas mais intensas; o olhar sem distracção outra que o objecto da sua escolha; o olfacto a sentir o cheiro a café que ainda rescende da cafeteira e a faz levantar-se para lhe sentir o gosto; os sons que ecoam no silêncio com mais acutilância...
É nos sons que descobre qual a hora certa do sono, quando os pássaros gorjeiam nos primeiros voos matinais. 
"Podia morrer agora" pensa "ao som dos pássaros".