sábado, outubro 11, 2014

Celas


(Nguyen Thai Tuan)

A CELA


O problema não são apenas os senhores da escravatura. O problema é que os escravos se reconhecem como tal. Os senhores talvez se pudessem derrotar. Mas como vencer os muros de quem ignora a liberdade e dentro de si ergue a cela que o encerra?

Jorge Roque, in Cão Celeste, n.º 4, Lisboa, 2013




A cada dia somos prisioneiros de nós mesmos. A cada dia nos rendemos ao poder. Ao poder do(s) outro(s), os que se instalaram nele à custa dos que se encerram dentro de si.

sexta-feira, outubro 10, 2014

Do amor

(Victoria Selbach)

Passara creme no corpo, perfumara-se, calçara as meias de liga acabadas de comprar. O vestido era discreto, as botas de cano alto nada extravagantes. 
Despiu o vestido de uma só vez, a roupa interior em gestos rápidos e nervosos, as botas num repente. Deixou as meias.
"Tira as meias." disse-lhe ele."Quero sentir as tuas pernas."
E ela tirou-as.

quarta-feira, outubro 08, 2014

Da nostalgia

(Tom Van de Wouwer)


Há o tempo em que as maçãs rescendem à doçura do açúcar misturado com canela. Um tempo breve em que os sentidos estão sempre despertos, o olhar brilha mais, o sorriso é mais aberto e, no travesseiro, há sempre a forma das nossas cabeças juntas.


terça-feira, outubro 07, 2014

Foi a saudade

(Nini Theilade - Ballets Russes, 1935)

Quis Achar Teu Corpo  

Quis achar no teu corpo uma loucura nova
alguma coisa viva
que lá não estava
e que era só minha
e que eu te emprestava.

Então, deu-me saudade
do tempo em que teu corpo
fruta à prova
já era, por si só, uma loucura nova.

Renata Pallottini, in 'Ao Inventor das Aves'




Para além da saudade, encontro o teu corpo, a cada vez uma loucura nova.

Viver


(Pere Borrell Del Caso)

A Coragem no Gesto de Viver  

O solitário gesto de viver
não demanda a coragem que há na faca,
na ponta do punhal e até no grito
de quem fala mais alto e está coberto
de razões, de certezas, de verdades.
O gesto de viver se oculta em dobras
tão íntimas do ser, que o desfazê-las
é mais que indelicado, é violência
que nem sequer se pode conceber.
O gesto de viver é só coragem,
mas, de tal forma próprio e incomparável,
que não se exprime em verbo, imagem, mímica
ou qualquer outra forma conhecida
de contar, definir ou explicar.
A coragem no gesto de viver
está em coisas simples, por exemplo,
na diária decisão de levantar.
E mais, em se vestir e trabalhar
por entre espadas, punhos e navalhas,
peito aberto, sem armas, passo firme,
e à noite, ainda intacto, regressar.

Reynaldo Valinho Alvarez, in 'O Solitário Gesto de Viver'


Viver, sem medo, de peito aberto às balas!

segunda-feira, outubro 06, 2014