sexta-feira, junho 21, 2024

Etelvina

 

Fora num dia gélido, ao rasgar de um raio e ribombar de um trovão que Etelvina viera ao mundo. A mãe, mulher da vida nocturna, esvaíra-se em sangue na esquina da rua onde lhe rebentaram as águas e foi um engraxador de sapatos ambulante que lhe cortou o cordão umbilical com a faca de raspar as solas dos sapatos. Levou-a com ele, embrulhada num trapo sujo de graxa. Não tivera mulher nem filhos e agora decidira criar aquele nico de gente que berrava por quantas tinha.

A Sra. Bina, vizinha de sempre, prometeu ajudá-lo. Afinal, também nunca tivera nos braços uma cria sua.

                                                        (imagem daqui)

Etelvina cresceu à míngua e tinha no olhar, azul escuro, um mar revolto. Diziam os poucos que a provocaram que tinha uma faca nos dentes.

Quando ficou sozinha, quedava-se no casebre do sapateiro durante o dia e saía de noite para rondar os caixotes de lixo dos restaurantes à beira rio. Sempre arranjava algum resto de boa comida para matar a fome.

Um dia, deu com Simão, apanhador de ameijoa no Tejo, homem de poucas falas e faca nos dentes e juntaram as suas solidões, facas largadas no chão de uma viela esconsa.


                                            (Etelvina - Sérgio Godinho)