sexta-feira, março 04, 2016

Poda

(Odilon Redon)

O azul de ontem é o cinzento de hoje. Soprando furiosamente, o vento assobia na esquina da sala onde me sento a trabalhar. Páro de vez em quando e olho pela janela. Funcionários da Câmara, um deles empoleirado numa geringonça que não a governamental, procedem ao corte dos ramos das árvores onde, no azul de ontem, se empoleiravam pássaros em alegre chilrear. Costumo ficar a vê-los, aos pássaros, voando em loop, com manobras dignas de um avião em festival aéreo e, melhor ainda, sem risco  de caírem. 
Entristeço-me, por isso, com o corte limpo da máquina que deixa as árvores despidas de braços. Esses braços que se erguem ao céu em prece ou agradecimento, não sei qual dos dois, e servem de poiso aos pássaros, quer em descanso, quer em maior permanência, nos ninhos equilibristas.
Talvez seja do cinza-chumbo do céu, ou da chuva batida pelo vento, mas sinto dores ali, onde os braços se unem ao tronco, como se fosse a mim que os cortassem. Árvore amputada.


29 comentários:

  1. Custa ver,mas penso ser necessário para dar espaço a novos "crescimentos" :)

    Beijoquinhas Tutu :)

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  2. Num primeiro momento fica-se triste,
    num segundo já começamos a notar uma nova paisagem.
    É a vida que segue.
    bjos Maria

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    1. Sim, Mary, cortar o que está seco para que brotem novos rebentos.

      Beijos :)

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  3. Ora azul, ora cinza. O céu. E nos troncos renascerão viçosos novos braços de árvores. :)

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  4. Parece estranho
    que para crescer
    se corte tanto

    tudo leva a crer
    que, amanhã, o azul volte a aparecer

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    1. O azul anda a jogar às escondidas, Rogério!

      Beijinhos :)

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  5. Maria, a árvore quando está sendo podada, também observa com tristeza que o cabo do machado é de madeira...

    Bom fim de semana :))

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    1. Nunca tinha pensado nisso, Legionário.

      Beijinhos :)

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  6. às vezes é necessário, lá saberão o que fazem, a poda torna as árvores mais resistentes na base, os ramos mais arrimados... coisas nã naturais, mas pior seria o corte pelo tronco :)
    beijo, onde doí mais...

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    1. Ficam lá as feridas, a sangrar...

      Beijocas, Stormy octopus :)

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  7. Pois assim é, Maria. Muito bem observado. Fiquei contente por sentires o que sentes: assim, não me acho tão só. Há muita gente a fazer-nos de ETs - em Marte não há árvores nem pássaros! - é o que ela pensa. Mas não! As árvores poiso de passarinhos, árvores nós, decepadas sem dó nem piedade, e nós passarinhos onde nos acoitarmos sob a ameaça do peso do chumbo gelado. No inverno é quando dói mais, sabendo nós que no desgoverno do mundo há agrónomos, silvicultores, psicólogos, sociólogos, educadores, terapeutas e muitas outras valências de competência e ética lustrosa. Quer de árvores quer de pássaros - nós.
    Um bj.

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    1. Nós, sim. Despidos e com frio.

      Beijinhos, Agostinho :)

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  8. Para crescer é preciso sofrer ?
    Assim não devia ser !
    Texto, pintura e música, tudo perfeito, parabéns!
    Um beijinho com carinho

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    1. Crescer dói sempre...
      Muito obrigada, Fê!

      Beijos :)

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  9. E daquele corte sairão braços ainda mais fortes.

    Um beijo, Maria :)

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    1. Primeiro finos, depois se verá.

      Beijos, Carla :)

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  10. ~~~
    É antiquíssima esta querela entre jardineiros e poetas...
    É uma coisa que não gostamos de ver, apesar de sabermos que não possuem
    sistema nervoso e que elas próprias são capazes de amputar ramos a si
    mesmas para sobreviverem, ficando os ramos secos espetados...

    ~ Mas não hã dúvida que há muito exagero...

    ~~~ Beijinhos, ME. ~~~

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    1. Os poetas serão sempre uns sonhadores.

      Beijos, Majo :)

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  11. Nos dias de céu cinzento, todos os cortes nos trazem dores.

    Beijos, Maria :)

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  12. Quando é necessário para um crescimento mais forte e mais saudável, a poda não é nada de negativo.
    Até na nossa vida.
    Boa semana

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    1. Assim é, Pedro, de facto.

      Beijinhos e boa semana para ti, também :)

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  13. Obrigado Maria pelo teu comentário. Confesso que andava preocupado e triste pelo facto de nunca mais teres "dito" nada. Não raras vezes pensei vir aqui deixar um pedido de desculpas por algo que te tivesse dito e que te tivesse magoado.

    Gosto muito, muito de ti, é só isso!

    Um beijinho

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    1. Não tenho comentado muito, ultimamente, Jorge. E, por vezes, não sei muito bem o que comentar... :) Não sou pessoa para ficar magoada e não o dizer, podes ficar tranquilo. Sempre foste extremamente educado!

      Beijinhos e uma boa noite :)

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    2. Eu sei que nem sempre temos o tal tempo disponível para andar por aí a comentar, também não estou a pedir-te para comentares no meu blogue, mas senti-te algo distante, é só isso. Mas ok, o importante é que esteja tudo bem!

      Boa noite, Maria!

      :))

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