quinta-feira, novembro 12, 2015

Céu, muito céu com voos de pássaros

(Van Gogh)

Maria Eduarda tinha um jeito todo especial para tirar da ponta do lápis uns desenhos que deixavam os adultos encantados. Houvesse uma nesga de papel livre e era vê-la, mãos à solta e língua de fora, a traçar linhas, a preencher cada pedacinho com flores, árvores, meninos, mar e, sobretudo, céu, muito céu iluminado por um sol rubicundo e dominante onde pontuavam voos de pássaros . Deu-lhe, um dia, para começar a desenhar casas. Havia as pequeninas, com uma porta e duas janelas; as de dois pisos, com escadarias Hollywoodescas; as que se alcandoravam serras acima, com canteiros a ladeá-las e, até, as que se empilhavam umas em cima das outras, naquela modernice dos prédios de apartamentos. 
Pois que bem que ia a pequena. Era uma digna criadora de habitações imaginárias, diziam os que lhe espreitavam o tracejar por cima dos pequenos ombros. Arquitecta! Era isso que devia ser a miúda, quando crescesse! E Maria Eduarda encheu o peito de sonhos enquanto cruzava as folhas com o lápis.
Um dia, numa incursão ao sótão da madrinha, descobriu centenas de livros. Primeiro foram as capas que a atraíram, depois começou a lê-los, um a um, num frenesim que lhe era desconhecido. Ler roubou-lhe a vontade de desenhar. Desenhava, sim, mundos inteiros de palavras na sua imaginação.
Adolescente, o traço era, afinal, uma coisa hesitante de menina. As palavras, essas fluíam como um rio, em jorros luminosos. Quando deu conta, falava delas aos meninos que desenhavam flores, árvores, mar e, sobretudo, céu, muito céu com voos de pássaros.


25 comentários:

  1. :)
    Não tenho grande jeito para desenhar... mas há telas por aí que me fazem acreditar que eu também era capaz de fazer um igual!!
    Ah... pássaros sobre um céu azul... e rabiscos de criança...
    L'oiseau... et l'enfant!
    Olha o que tu me fizeste lembrar! :))
    (isto é muito Festival nesta cabeça... hehehe)

    «... l'oiseau c'est toi... l'enfant c'est moi»

    Beijinhos esvoaçantes
    (^^)

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    1. Também cantarolei muitas vezes essa canção! Velhos tempos, em que o Festival da Canção era um autêntico acontecimento nacional.

      Beijos musicais. :)

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  2. Hummm, acho aqui um achado
    que me cheira a algo de autobiográfico

    Nem importa se estou certo ou errado
    (às vezes as pequenas incertezas são o meu devaneio)

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    1. Nada como a imaginação. :)

      Beijinhos, Rogério. :)

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  3. A Maria do Céu era uma moça muito dotada.
    King Crimson uma devoção de há muitos, muitos anos.

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    1. Ou era, apenas, uma rapariga com jeito para desenhar palavras.
      Muito boa música, de facto!

      Beijinhos, Pedro. :)

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  4. Mesmo quando desenhava, as palavras e o desenho andavam já na cabeça e no coração da Maria Eduarda. Antes, escrevia com riscos, agora pinta com palavras. Mas sempre criou mundos.
    Muito belo este texto, muito bem acompanhado musicalmente e visualmente com o maravilhoso quadro de van Gogh.

    Um beijinho, Maria :)

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  5. A Maria Eduarda tinha muita magia em seu interior.

    A Afrodite fez-me recuar no tempo com a canção “L'oiseau et l'enfant” cantada por Marie Myriam (ganhou o Festival da canção em 1977), era eu miúdo, e lembro-me muito bem porque estava eu na praia e uma senhora que era emigrante em França passava todos os dias a cantar essa canção na barraca ao lado da nossa (que massacre nos meus ouvidos hehehe).

    Belo texto, Maria!:))

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    1. Caro Legionário,
      Éramos ambos crianças nesta altura :))
      Deixo apenas aqui uma curiosidade, para quem interessar, que Marie Myriam é lusodescendente.
      Por muitos motivos esta música foi tão querida e acarinhada cá em Portugal, numa altura em que ainda se ouvia música francesa nas nossas rádios.

      Beijinhos Minhotos
      (^^)

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    2. Então éramos três! :)
      Ainda tenho o single, tocava vezes sem conta enquanto eu cantava em play-back [L`amour c`est toi, L`amour c`est moi, L`oiseau c`est toi, L`enfant c`est moi. :) ]

      A Maria Eduarda podia ter sido o que quisesse...parece-me, a mim, que continua de lápis, roído na ponta :), agora nos dias que correm a desenhar palavras, bonitas.
      Um beijinho :)

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    3. Somos uma cambada de cotas, é o que é! :P

      Beijinhos aos três. :)

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  6. "Sobretudo céu, muito céu com muitos voos"!
    Terminaste com um explêndido projecto de vida. Vê o exemplo da MC, que conheces de ginjeira, que foi experimentando voos novos consoante os dias e as oportunidades, sem medo de subir às mais altas estantes do querer.
    Vê como uma águia sobe à glória, ainda mais alto... Paulo Cunha e Silva. Voa leve, agora,para sempre, num ar tão leve que até. as estrelas o escolheram para brilhar.
    Bj

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  7. Peço desculpa por ter alterado a citação. O correcto é "sobretudo, céu, muito céu com voos de pássaros".

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  8. Parece-me que a Maria Eduarda tinha jeito para muita coisa e talvez tenha acabado escritora :-))))))))))
    Boa malha Maria e muitos beijinhos

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  9. Voei no tempo, ao tempo dos meus desenhos de infância. Sempre preferi a sebenta e o lápis para desenhar. Como já disse em tempo, gosto de ler, mas não o faço de forma assídua e sistemática.
    Belo texto Maria.
    Beijinho.

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    1. Desenhar é outra forma de escrita.

      Beijos, Sandra, e obrigada. :)

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  10. Não serão as palavras uma forma de desenhar casas e animais e pessoas e montanhas e flores? Pois tu desenha-las todas tão bem :) com as tuas palavras.
    Beijinho Maria

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    1. Cada um usa a sua forma particular de criar.

      Beijos, GM, e obrigada. :)

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  11. uma vez li que os porcos nã conseguem ver o céu... :)

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    1. Coitados deles, sem poderem ver o azul do céu, o sol, as estrelas...

      Beijinhos, Manel das tempestades.

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    2. as tempestades, as nuvens, os pássaros...

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