sábado, janeiro 28, 2017

Para lá do olhar


Mariana, a mulher de olhar doce e fundas olheiras, chegara à empresa há pouco mais de um ano. Era Verão e estranharam-lhe as mangas compridas e as blusas de botões apertados até ao colarinho, embrulhadas naquela quietude tímida que trazia pela manhã e a deixava quase sempre calada até à hora de saída. De nada lhe valia a educação impecável ou o trabalho dedicado. As colegas de escritório não lhe perdoavam o distanciamento nas conversas durante as pausas para café ou as ausências nos almoços  de convívio mensais. 
"- Já viste a deslavada da contabilidade? Pffffffff! Sempre de olhos baixos, sempre coberta da cabeça aos pés!"
"- Coitada, deve ter uma doença de pele, para se cobrir daquela maneira!"
Foi então que, numa manhã de segunda-feira, Mariana tropeçou no tapete da porta de entrada, batendo com a cabeça e desmaiando. Chamaram o 112 e João Carlos, o telefonista que em tempos fizera dois anos na escola de enfermagem, começou a desapertar-lhe a blusa na tentativa de a ajudar a respirar melhor. Aos olhos de todos, apareceu a justificação para tanto cuidado. O peito estava coberto de cicatrizes, assim como o braço desnudado pelo técnico do INEM para medir a tensão.
Houve um murmúrio inquieto. Soube-se mais tarde que Mariana nem era sequer o nome verdadeiro da rapariga da contabilidade. Há muito que fugia de um companheiro violento que quase a matara de pancada porque ela se atrevia a ir tomar café sem ele.


36 comentários:

  1. A violência tem contornos muito finos e surge quando e onde menos se espera. Pergunto-me quantas Marianas haverá por aí.

    Beijos, Maria :)

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    1. Muitas, decerto! Algumas que conhecemos e muitas outras que nem sonhamos, infelizmente!

      Beijos, Linda :)

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  2. Sabia que até as crianças têm que trocar de nome numa situação dessas? Já o agressor permanece na sua vidinha...Há que lutar pelas e com as Marianas deste mundo, obrigada por a trazer.
    ~CC~

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    1. Um mundo do avesso, no qual as vítimas são ainda mais ostracizadas. Muito triste!
      Somos todas Marianas... Temos obrigação de divulgar!

      Beijos, CC :)

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  3. Que pena não haver ninguém entre as colegas capaz de uma atitude um bocadinho maior do que chamar-lhe deslavada.
    Por vezes penso que se os agressores ficam tantas vezes impunes, também se deve a não haver muitas pessoas das ditas normais que sejam capazes de dar uma mão, capazes de olhar com mais atenção para quem vive na escuridão.
    Bom fim de semana, Maria.
    :-)

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    1. Indiferença. É uma moderna forma de agir...

      Beijos, Susana, e uma boa semana :)

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  4. primeiras impressões e pessoas que se acham muito sábias, enfim...
    que talento o do PP tem mesmo um olhar vago e vazio e tão bem (infelizmente) a tua história que pode ser ou não verídica.

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    1. Verídica ou não replica a história de tantas mulheres que é inevitável recordarmos algumas. Houvesse uma acção séria e talvez as coisas começassem a mudar.

      Beijinhos, Urso Misha :)

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  5. Ao começar a ler lembrei-me da "Amélia dos olhos doces" de Carlos Mendes ! :))

    ... mas logo vi que nada tinha a ver uma coisa com a outra ! :( ... Há pessoas assim, não, se por envergonhadas, se introvertidas, o certo é que chamam a atenção por isso mesmo e de modo desagradável. :(

    Infelizmente, mais um infeliz caso do triste quotidiano, que "JÁ CHEGA" ,..."JÁ BASTA", que é tão revoltante e se continua a verificar ! :((
    Como poderia ela viver e apresentar-se de outro modo ?... (e mal julgada por isso, quando deveria merecer a atenção de todas), mas fundamentalmente, como seria possível ela aceitar este tipo de vida com esse "companheiro" ?... Isto, casos destes, têm que acabar !!!

    A música muito bem escolhida (e a letra) :

    Espero Que Exista Alguém
    Que cuidará de mim
    Que deixará meu coração livre
    Existe um fantasma no horizonte
    Como posso eu dormir a noite?
    Como poderei descansar minha cabeça?

    Beijinho, Maria EU

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    1. Obrigada pela tua atenção aos detalhes, Rui!
      É tudo tão incompreensível para mim, nesta questão da violência. E não é apenas na deste tipo! Mas esta dói mais por ser entre aqueles que deveriam amar-se e respeitar-se.

      Beijinhos, Rui :)

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  6. infelizmente parece um problema sem fim à vista e com tendências a aumentar... e com aquela do "entre marido e mulher, não metas a colher" ninguém se arrisca a interferir, mesmo quando toda a gente sabe o que acontece...

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    1. Ah, Manel, como esse maldito ditado é absurdo!

      Beijinhos :)

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  7. São cerca de 400 mulheres mortas às vis mãos dos seus "companheiros" em menos de 10 anos.
    É urgente "meter colher".

    Bom dia, Maria Eu.

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    1. Põe urgente nisso, Impontual!

      Beijinhos e boa noite :)

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  8. Definitely Picasso's "blue period."
    Love this beautiful, hopeful music video.
    Nice selection.
    xoxo
    (Be happy.) 😍

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  9. Há dias deparei-me com uma Mariana, que tinha que atender clientes num lugar por onde passam centenas de clientes -- e com marca de agressão bem visível num dos olhos. Para além da violência original, imagino a violência que era estar ali, exposta, fragilizada. Há dois a três por cento de psicopatas e sociopatas na sociedade. Estas são as suas vítimas. Ninguém deverá meter a colher? Não estou tão certo assim...

    Boa tarde, Maria.

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    1. Parece haver uma cortina de silêncio quando se trata de violência num casal. Não sei se é uma questão cultural que deixou marcas de um país de machos, de homens que saíam e deixavam as mulheres em casa, de leis que diziam do direito de impedir a mulher de sair do país, entre tantas outras coisas.
      Há que agir, definitivamente!

      Beijinhos, Xil, e uma boa noite :)

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  10. Tivesse sido eu a acudir-lhe
    não me surpreenderia
    aliás, já nada me surpreende
    hoje em dia

    ocorre-me um chamado
    a 11 de Março

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    1. Tão triste que já nada nos surpreenda, Rogério!

      Beijinhos :)

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  11. Que horror!! Doloroso saber que tantas mulheres são vítimas de violência física e não só!!

    É sempre bom tratar este tema! Para que não se nos esqueça.

    Beijinho.

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    1. É terrível, Graça. Sem esquecermos que, a maior parte das vezes, há crianças vitimizadas, também.

      Beijos :)

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  12. A violência doméstica provoca dor e traumas muito maiores do que as marcas visíveis de hematomas e cicatrizes.:(

    Bom Domingo, Maria.:)

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    1. Todas as cicatrizes contam, embora as interiores sejam ainda mais duras.

      Beijinhos, Legionário :)

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  13. Os julgamentos que fazemos nem sempre sou os melhores, triste história, como outras tantas, bjs
    bom domingo

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    1. Muitos escondem dores onde outros só encontram desvios.

      Beijos, Zulmira :)

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  14. A prova de que as aparências enganam e que a nós todos cabe o dever de ajudar e cuidar ao invés de julgar..
    Boa semana Maria

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    1. Tanta gente que apenas olha para o seu umbigo...

      Beijos, GM, e uma óptima semana :)

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  15. Uma história muito bem contada que nos conduz a um final inquietante. Parece impossível que a violência doméstica faça o seu caminho, destruindo quem é vítima dela... Quanto aos julgamentos apressados são cada vez mais naturais...
    Uma boa semana.
    Beijos.

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    1. Tanto se julga pelas aparências. Tão pouco se reflecte sobre o que pode afectar quem nos rodeia.

      Beijos, Graça, e uma excelente semana :)

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  16. Maria, bom dia.
    Boa estória a recordar 2 problemas tão comuns na vida das pessoas e que persistem na nossa sociedade pseudo educada e civilizada: o corte e costura e a violência de trogloditas.

    Bj.

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    1. Boa noite, Agostinho.
      É uma realidade tão dura e tão incompreendida.

      Beijinhos :)

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  17. A corrente que prende quem sofre a agressão ao agressor é difícil de compreender e de quebrar. Só com a passagem a crime público se iniciou lentamente a mudança. A escola também não ajuda até porque por muito que instrua não educa e mesmo em pessoas supostamente educadas esta violência acontece. A televisão aliena mesmo quando noticia estes crimes e se perde nos detalhes mórbidos propagando uma cultura instalada que geralmente protege o mais forte. A tua escrita é mais um grão para parar a engrenagem que sempre arranca de novo.

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    1. Gostaria que fosse um grão, ainda que minúsculo, Luís. De resto, tudo o que dizes é tão acertado que nada tenho a acrescentar.

      Beijinhos :)

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