segunda-feira, setembro 12, 2016

Da relativização da perda


(Andres Serrano)

Maria Inês subiu os degraus de acesso à porta de entrada, escancarada de par em par. Apesar de não conhecer a casa, soube para onde se dirigir. O cheiro forte a flores e cera, assim como o eco das vozes femininas a responderem ao terço, indicavam o local do velório. Na sala, envolta numa semi-penumbra, o féretro ao centro e, a rodeá-lo, a fila de cadeiras  onde as mulheres se sentavam, rezando ao mote da Dona Regina, mulher rubicunda, corada, com ar levemente debochado, de quem se dizia suspirar nos braços do Padre João depois da missa das sete. De pé, à cabeceira do defunto, Dona Ana recebia os pêsames, olhos secos e fixos num ponto indefinido, boca apertada num rito amargo. Também Maria Inês a abraçou, murmurando um "sinto muito pela sua perda", sentindo-lhe a distância polida no agradecimento breve. Sentou-se, por momentos, numa das cadeiras mais perto de uma das janelas cobertas por pesados cortinados de riscas castanhas e beijes, mesmo atrás da enlutada. Foi no momento em que se levantava para a despedida que entraram as irmãs Valença, conhecidas pela sua absoluta falta de tacto. Entre beijos ruidosos e suspirosos "coitadinha", "pobrezinha", perguntou, uma delas, de chofre: "Como consegue não chorar, Ana?". A sala gelou. Até as preces passaram a sussurros. Ouviu-se, então, a voz rouca e arrastada de Dona Ana: "A quem perdeu um filho para o mar e outro para o fogo, não sobram lágrimas para chorar o marido que morreu de doença prolongada!"


30 comentários:

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    1. Nem sei o que dizer, Cuca. Obrigada!

      Beijos :)

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  2. Li isto, como se tivesse acontecido
    e voltei a ler, como se fosse possível de vir a acontecer

    tal e qual assim
    entre sussurros, sem lágrimas

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  3. A estupidez humana engrandece-se nos momentos de tragédia.
    Maria, um texto soberbo onde o realismo está bem expresso na narrativa..
    Bj.

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    1. Verdade, Agostinho.
      Muito obrigada!

      Beijinhos :)

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  4. A dor. a dor sucessiva, seca-nos. Vejo a Dona Ana prestes a desfazer-se em pequenas partículas, como folhas caídas de um ramo já morto, que o vento, fraco que esteja, levará.

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  5. A verdade dolorosa da resposta certa na hora certa.E assim secaram todas as lágrimas possíveis.

    Beijinho Maria Tu

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    1. Dor menor depois de dores maiores...

      Beijos, AC :)

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  6. e se mais lágrimas houvesse mais secariam...

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    1. A sensação de que já não se pode sofrer mais...

      Beijos, Laura :)

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  7. Uma descrição perfeita de um cenário possível.
    Há muito mais infelicidade em quem perdeu a capacidade de chorar.

    Um beijinho Maria

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  8. ... e há pessoas que não choram com lágrimas em qualquer circunstância.

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  9. Não me admirei, eu fico em estado de choque e só choro passados muitos dias...

    O conto está muito interessante, ME.
    Algo macabra, mas uma grande surpresa!
    Dias muito agradáveis.
    ~~~ Beijinhos ~~~

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    1. A morte é sempre macabra... A dor vive-se conforme se pode.

      Beijos, Majo :)

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  10. Por breves instantes pensei que também estava nessa sala...
    Maria, a morte fala-nos com uma voz profunda para não dizer nada.

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  11. Fim de tarde,
    as primeiras chuvas
    anunciando Outono:
    sabe bem
    este excelente momento
    literário!
    É obra.

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  12. Infelizmente a dor sucessiva produz estes efeitos! As lágrimas certamente que a libertariam, mas a alma, essa chorava em silêncio... Belíssimo

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    1. Chorar por dentro dói ainda mais...
      Muito obrigada, Esmy!

      Beijos :)

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