sexta-feira, dezembro 16, 2016

Da urgência das palavras

(LASZLÓ LAKNER)

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

in «Uma Grande Razão», de Mário Cesariny





Quando calas as palavras que te sobem, impulsivas, à boca
Quando as sufocas, julgando-as, manietando-as 
ali mesmo, aprisionadas onde foram pensadas 
Quando acabas por matá-las, porque incómodas
enterrando-as bem fundo, uma e outra vez
És tu que imerges na escuridão de Elsinore
no cortejo desolado e infausto de Hamlet.

Maria Eu

16 comentários:


  1. Thank you for starting my day with such
    beautiful music.
    Have a wonderful weekend.
    xx

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    1. It's a shame you can't understand Portuguese. Cesariny is an extraordinary poet.
      Thank you, Rick!

      Kisses :)

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  2. A força das palavras guardadas nas pedras de Elsinore trazida aqui pela mão de Maria. O confronto entre Cesariny e a própria Maria Eu (ela) resultou num excelente trabalho. E quem quiser mergulhar em Hamlet... - parece ser o convite subjacente.
    Bj.

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    1. Fico-te grata, Agostinho, pelo incentivo constante das tuas palavras!

      Beijinhos :)

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  3. Gostei da complementaridade. Veio-me à ideia o Cesariny a acender um aquiescente cigarro. Gostei também das violas, não conhecia o arranjo, o tempo é mais rápido e fica bem com as violas. Beijos.

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    1. Sabes que também me vem sempre à ideia o Cesariny a acender esse cigarro quando o leio?

      Beijinhos, Luís :)


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  4. Entre nós e as palavras
    um cordão umbilical

    Bj

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    1. Sejam ditas, pensadas ou escritas.

      Beijinhos, MA :)

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  5. É preciso fazer valer nossa opinião, desejos e sentimentos, para isso precisamos das PALAVRAS,
    boa semana amiga bjs

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    1. São vitais, Zulmira!

      Beijos e um bom fim-de-semana :)

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  6. No dia em que se aprisionarem as palavras-adubo
    as palavras-semente

    o nosso dever é libertá-las
    falando-as, escrevendo-as

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    1. Livres, as palavras, sempre!

      Beijinhos, Rogério :)

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  7. Gostei deste "diálogo" com Cesariny. Dois poemas que se complementa em intertextualidade. Parabéns!
    Um Natal BOM e um Ano Novo MELHOR.
    Beijos.

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    1. Obrigada, Graça, por tudo. Pela presença e pelas palavras!

      Boas Festas!

      Beijos :)

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  8. entre nós e as palavras
    há dores de amores pungentes

    Beijo

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    1. Que ferem como espadas mas deixam as memórias de outros dias.

      Beijinhos, Black Angel :)

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