domingo, dezembro 11, 2016

Casa meio vazia, meio cheia

(Andrew Wyeth)

Subiu as escadas duas a duas. Havia de subi-las três a três, como quando era menina, mas à primeira experiência descobrira que de menina só lhe sobrava a memória.
O terraço continuava soalheiro e as floreiras mantinham luxuriantes sardinheiras, enquadradas por grades pintadas de um verde que em tempos fora escuro. A fechadura da porta da cozinha cedeu ao rodar da chave com um estalido grave, acompanhado pela agudez do chiar das dobradiças. Esbofeteou-a o odor acre. Porque doíam, os cheiros que agora se instalavam onde outrora havia o aroma  dos biscoitos de laranja e canela, dos assados de Domingo, da roupa acabada de passar a ferro. A cozinha, sempre cheia de taças com fruta, cambos de cebolas e alhos pendurados em ganchos nas paredes, ao lado dos chouriços curados em longos fumeiros de Inverno, esvaziara-se. Os ganchos vazios projectavam uma sombra ameaçadora nos azulejos brilhantes à luz branca da florescente. O longo corredor que leva aos quartos e à sala grande (Ah! A sala grande dos Natais em família! Quantos risos de meninos e sons de conversas felizes guarda!) tem que ser percorrido apalpando as paredes. Fundiram-se as lâmpadas dos apliques. Entra no seu quarto. Continua tudo igual. Nas molduras que habitam a cómoda, os jovens mantêm-se jovens, os meninos ainda são meninos e os que morreram continuam vivos. Abre, a custo, as contras das janelas, empenadas pela falta de uso. Libertas, as janelas filtram o sol da tarde que ainda vai curta. Roda-lhes o fecho e deixa entrar a vida toda: pássaros chilreantes, grilos e ralos cantores, a mãe a chamá-la para o lanche de leite com cevada e pão com geleia, e ali, bem ao alcance das suas mãos, a nespereira. Sim, a mesma que sabem dar frutos amarelos e suculentos, em cujo tronco se recosta uma velha e cansada escada de madeira.


30 comentários:

  1. viajei muito longe nas tuas palavras. Obrigado.
    beijos Tutu

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    1. O "nosso" tempo...

      Beijocas, Stormy :)
      (eu é que agradeço as tuas palavras)

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    1. Regressar onde se foi feliz e saber, ainda, dessa felicidade.

      Beijos, Laura :)

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  3. Há uma altura em que se nota que os espaços estão cheios de vazio.

    Um bom domingo, M. E.

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    1. E, porém, se olharmos com cuidado, ou se abrirmos a janela certa, eles enchem-se.

      Boa noite, Xil, e um bom fim-de-semana :)

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  4. com este texto viajei até à minha infância.
    obrigada.
    :)
    bjinhos

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    1. Eu é que agradeço a visita e as palavras.

      Beijos, A. :)

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  5. Doces memórias Maria que hoje ao ver os vazios acabaste de recordar. A vida é assim...
    Beijinho

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    1. A vida é assim, tens razão, uma tela onde se redesenham memórias.

      Beijos, GM :)

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  6. Apetece pensar que, um dia, ainda se volta a encher de gente que fará companhia às memórias.

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  7. Memórias, saudades, tudo se liga, bjs amiga, boa semana

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    1. Até lágrimas e sorrisos. :)

      Beijos, Zulmira, e um bom fim-de-semana :) :)

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  8. Teus textos
    conduzem à memória de outros tempos
    e subo as escadas a três e três
    chegado
    ao patamar, sorrio
    sinto-me melhor que tu, sinto-me menino

    Agora a sério
    lá dentro, a casa meio-cheia
    enquanto outros não chegam

    (as imagens andam, sem disfarce, pelo "face")

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    1. E também é bom esperar...

      Beijinhos, Rogério :)

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  9. De volta para o aconchego como cantava Elba Ramalho?
    Boa semana

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  10. tal como aporta da cozinha cedeu ao rodar da chave com um estalido, aconteceu-me o mesmo, nesta leitura. rodei nas lembranças, e o estalido foi forte.
    beijo, Maria Eu.
    Boa semana,
    Mia

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    1. Relembrar tem um sabor especial.
      Obrigada, Mia!

      Beijos e um bom fim-de-semana :)

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  11. Um texto muito bem narrado que me fez voltar à infância com todos os assombros e fantasmas...
    Uma boa semana.
    Beijos.

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    1. Temo-los todos, esses assombros e fantasmas, Graça.
      Obrigada!

      Beijos e um bom fim-de-semana :)

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  12. Memórias que se colam à pele como se fossem calor num dia de sol. E a nespereira!... Não me esqueci porque também lhe trepei, tão só pelo oiro que brilhava no topo.
    E a gente no topo topa coisas inusitadas "nas molduras que habitam a cómoda, os jovens mantem-se jovens".
    Belíssima narrativa. Para levitar artroses?
    Por estes dias nascerá um menino
    que dizem divino
    sem consultas pré-natais
    amniocentese ecografias
    e outras coisas mais

    Bj, Maria (tu).

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    1. Pelo Natal, as memórias avivam-se com particular agudez.
      Muito obrigada, Agostinho!

      Beijinhos e votos de muita saúde :)

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  13. É sempre um sabor agridoce voltar ao chão da nossa infância. Acabamos sempre por nos vestir de saudades...
    Obrigada pela viagem, apesar de tudo "a boa filha a casa torna"!

    Beijino*

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    1. Dás-me a mão, Flor? Entramos juntas!
      Obrigada!

      Beijos :)

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  14. Muita paz e saúde no natal e em todos os dias do ano! Que o verdadeiro sentido do amor seja presente em todos os momentos, sempre! Felicidade. Ives Vietro

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    1. Muito obrigada, Ives! Os meus votos de um Natal muito feliz!

      Beijinhos :)

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  15. E de repente a casa encheu-se novamente.
    Que texto maravilhoso.

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    1. Obrigada, Cuca. Muito
      O espírito do Natal, embora tímido, desperta doces memórias.

      Beijos :)

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