terça-feira, fevereiro 27, 2018

Dilúvio

(Pupsikas, in Deviantart)

Há muito tempo que não me cruzava com Maria Antónia. Hoje, enquanto corria na rua, guarda-chuva aberto em protecção da água que tanto se fizera desejar, vi-a. Refugiara-se num recanto abrigado onde se intersectavam as varandas dos prédios azuis, cabelo e roupa encharcados, olhar fixo num ponto imaginário. Inverti o passo de corrida para lhe dar um beijo. Que sim. Que estava bem. Que não era nada daquilo que diziam. E eu, sem saber do que diziam, fiquei a olhá-la, muda. Foi então que choveram os olhos de Maria Antónia e o corpo molhado tremeu, tremeu, em soluços convulsivos, sem que disséssemos uma só palavra, para ali, abraçadas, como se o mundo dela desabasse sobre os meus ombros.
Que não. Que não teria muito mais tempo para andar à chuva, nem  para esperar que o seu João viesse, lá do outro lado do Atlântico. Talvez uma semana.
E não houve guarda-chuva que me salvasse desse dilúvio de desventura.


27 comentários:

  1. Texto muito bom. Adorei...

    Hoje: - Magia sem sumo
    .
    Bjos

    Votos de boa noite

    ResponderEliminar
  2. "Chove em meu coração, como chove na cidade!
    Choverá sem motivo neste coração carente ?
    Ou será tristeza sem razão ?"

    ("variação" de Paul Verlaine)

    Beijinhos Maria Eu

    ResponderEliminar
  3. Presenciar uma sentença de morte, ainda por cima num dia de chuva é triste Maria....
    Beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Uma morte anunciada traz sempre tempestade...

      Beijos, GM :)

      Eliminar
  4. Um dilúvio de emoções, que encharcam qualquer coração :-(

    Beijo

    ResponderEliminar
  5. Há dilúvios que não conseguimos evitar.
    Os que resultam de emoções no topo de todos os outros.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Podemos, apenas, levar pequenas abertas de amor.

      Beijinhos, Pedro :)

      Eliminar
  6. E ficou ainda mais frio e cinzento ...
    Um beijo Maria

    ResponderEliminar
  7. Numa situação tão intensa não sabemos que dizer...para isso há o silêncio, traduzido num abraço de emoção.

    Bom dia, Maria:)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Um abraço pode nãos chegar, mas ampara.

      Beijinhos, Legionário :)

      Eliminar
  8. Quando chove por dentro é que é pior. ;)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Encharca até à alma.

      Beijinhos, Patife :)

      Eliminar
  9. Oh... que triste, Maria. Ainda bem que estavas ali, para a abraçar.
    Um beijinho.

    ResponderEliminar
  10. A culpa é tua, falaste em dilúvio... pimbas! :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fosse assim e poderia desfazê-lo.

      Beijinhos, Luís :)

      Eliminar
  11. Pobre Maria Antônia. É triste quando os dilúvios caem não sobre o mundo inteiro, mas sobre uma pessoa só.
    notas-poeticas.blogspot.com

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A vida traz luz e escuridão.

      Beijinhos, Lua de Carmim :)

      Eliminar
  12. Um abraço encharcado de emoção deixaste tu aqui. Magnífico o teu labor/lavor.
    Bj.

    ResponderEliminar