sábado, novembro 30, 2013

Definições




- Sinto-te como se fosses um fruto.
 - Como um fruto maduro? 
 - Sempre maduro, dando-se a trincar, suculento, macio, pronto a abrir-se em aromas e sabores intensos.
 - Tudo isso, sou eu? 
 - Sim, tudo isto e muito mais, porque um fruto não tem alma, é só corpo. Um fruto não reage, só deixa que o tomemos e o comamos, sem mais. Tu és muito mais do que um fruto. Tu és árvore, forte e segura, és folhagem fresca, és fruto sumarento, és Homem com coração terno e palavras intensas, és menino em brincadeiras pueris... 
 - E tu, és como?
- Insensata, insegura... mas intensa, sempre intensa, na orla da vertigem, no olho do tufão, onde me perco em corropios, girando, girando, cúmulo de pensamentos, sentimentos, paixão!

Santo António, o Casamenteiro

  San Antonio bendito,
         dádeme um home,
          anque me mate,
          anque me esfole.


    Meu santo San Antonio,
daime um homiño,
anque o tamaño teña
dun gran de millo.
Daimo, meu santo,
anque os pés teña coxos,
mancos os brazos.

    Uma mller sin home...,
ίsanto bendito!,
é corpiño sin alma,
festa sin trigo,
pau viradoiro
que onda queira que vaia
troncho que troncho.

    Mais, em tendo um homiño,
ίVirxe do Carme!,
non hai mundo que chegue
pra um folgarse.
Que, zambo ou trenco,
sempre é bo ter un home
para um remédio.

    Eu sei dum que cobisa
causa miralo,
lanzaliño de corpo,
roxo e encarnado,
caniñas de manteiga,
e palavras tan doces
qual mentireiras.

Por el peno de día,
de noite peno,
pensando nos seus ollos
color de ceo;
mais el, xá doito,
de amoriños entende,
de casar pouco.


    Facé, meu Sant Antonio,
que onda min veña
para casar conmigo,
nena solteir
que levo en dote
uma culler de ferro,
carro de boxe,

    un irmanciño novo
que xá tem dentes,
unha vaquiña vella
que non dá leite...
ίAi, meu santiño!:
face que tal suceda
cal volo pido.

    San Antonio bendito,
dádeme um home,
anque me mate,
anque me esfole,
que, zambo ou trenco,
sempre é bo ter un home
para um remédio.


Rosalía de Castro 



Para as moças que queiram saber de antigos usos em noite de Santo António, o Casamenteiro:
- Se queres saber o nome daquele que te vai levar ao altar põe os nomes daqueles por quem sentes alguma inclinação em papéis dobrados, dentro de uma bacia com água. Deixa a bacia de noite, ao relento. Na manhã seguinte, o papel com o nome ter-se-á aberto.
- Parte um ovo, e despeja a clara num recipiente com água. Ficando ao relento, na noite de Santo António, vai formar uma letra, um desenho, alguma pista para quem vai ser o homem da tua vida.

sexta-feira, novembro 29, 2013

Insensatos

                          (Magdalena Sadziak)

Sem nunca se terem encontrado, perderam-se. 
Havia música e a música sempre os fazia insensatos...




quinta-feira, novembro 28, 2013

Da paixão

                       (Astor Salcedo - Lost innocence)

"(...) Bartolomeu debruçou-se sobre mim e disse-me ao ouvido:
- Disse-me...
- Não, nem vou repetir...
Senti-lhe o perfume, um aroma a tabaco, um vago lume a pimenta, a sândalo, a maresia, e pensei, ah, Corto Maltese devia usar um perfume assim. Essa combinação perdeu-me; o piropo estúpido, o calor da voz, o perfume exótico. Uma explosão nas veias de dopamina, neuroepinefrina e feniletilamina. O coração aos saltos. A pele húmida. O rosto a arder.
(...)
Diz-se de alguém, quando desmaia , que perdeu os sentidos. Eu, naquele momento, ganhei sentidos. Aconteceu-me o inverso de um desmaio: acordei.
Eu adormecia a pensar em Bartolomeu e acordava a pensar nele. Durante esses meses, a propósito, deixei de tomar comprimidos para dormir, e voltei a sonhar. Descobri, sem surpresa, que partilhávamos sonhos. Sonhávamos as mesmas coisas, nas mesmas noites (...)"

José Eduardo Agualusa, in Barroco Tropical


quarta-feira, novembro 27, 2013

Tá mar

                         (David Bates)

Saem em botes com nomes de santas e santos; "Senhora da Agonia", "Senhor dos Aflitos", "São Cristóvão", ou de mulheres que deixam em terra; "Maria", "Helena", "Marta". Do mar sabem tudo e não sabem nada porque o mar não se sabe nunca. Alguns já viraram o Cabo Bojador em bacalhoeiros onde não querem voltar. São donos de si, ainda que nada valham no mar encrespado que já levou o Toino da Serena, o Manel da Teresa e o Joãozinho Fontes, tão novo que nem se tinha estreado com mulheres. São pescadores, homens com sal nas mãos e marés no coração.

(Já não há Estaleiros Navais em Viana do Castelo. Os navios e os  bacalhoeiros não voltarão a fazer parte da paisagem.Os marinheiros dos pequenos botes não terão mais inveja dos grandes navios.)

terça-feira, novembro 26, 2013

Boca

Como poderemos beijar essa boca que apenas se anuncia
com a suave tristeza de quem ainda ama as sílabas do sangue
ou a lua cálida das velas?
Essa boca talvez seja apenas uma boca de sombra
e quase uma boca de cal
mas a sua forma ainda é uma margem estremecida
uma erva que respira
sobre a pedra azul da melancolia
Que palavra poderá dar um espaço à sua sede
como uma guitarra que lentamente se acende na noite?
Mas no peito frágil como um pássaro palpita ainda um astro
vibrante como uma haste inclinada pelo vento
Ela acaricia a sua crisálida de areia
como se fosse o corpo amante ou uma palavra preciosa
Não posso desenhar o movimento do seu coração
nem encontrar a palavra que fosse um beijo vacilante mas
                      
O meu pulso no entanto estremece com o rumor de um sangue que desejaria ser a luz da sua sede

António Ramos Rosa, in «As Palavras», Campo das Letras, 2001






O que tem essa boca que só a quero ter na minha boca?