domingo, agosto 23, 2026

Hospital de dia III

 Hoje, todos os holofotes iluminaram a Dona Rosinha. 

Do alto dos seus oitenta e seis anos, entrou na sala pelo braço do "seu" António, vestida de azul bebé, saia plissada e sabrinas prateadas.

A anja morena, de farta cabeleira encaracolada, ajudou-a a domar a saia enquanto se sentava e António lhe beijava a testa.

"Dona Rosinha, hoje parece uma bailarina!" Diz a anja.

"Ah, querida, o que dancei enquanto pude!" E os pés ensaiavam movimentos suaves."Pergunte ao meu marido! Ai, aquelas tardes de Domingo..."

Não houve quem não ficasse com um sorriso nos lábios, a adoçar os tratamentos. 

sábado, agosto 08, 2026

Hospital de dia II

 O doente do cadeirão um é um jovem, muito jovem mesmo. Sorri para o ecrã do telemóvel enquanto o líquido do primeiro dos três frascos corre devagar até ao cateter, entrando na veia.

Está ao cuidado da anja ruiva, calma e carinhosa, que brinca, ao mudar para o frasco número dois: "Então, Eduardo, a trocar mensagens com a namorada?"


quinta-feira, agosto 06, 2026

Hospital de dia I

 Hospital de dia é o nome pomposo, escrito numa folha A3 plastificada, colada na porta de uma sala grande, de um hospital muito maior.

Entra-se. 20 cadeirões ordenados em fila, perfilam-se, junto à parede, cada um na companhia de uns aparelhos e respectivos "cabides" para suportarem frascos de vários tamanhos, com líquidos de cor predominantemente translúcida.

Ao fundo da sala, as secretárias das anjas, vulgo enfermeiras.

Ainda mais ao fundo, a sala onde tudo o que as anjas precisam enche prateleiras e frigoríficos. 

quarta-feira, agosto 05, 2026

Malgas de marmelada

 Criança, olhos luminosos, quer crescer, de tão grande o mundo. 

Em bicos de pé, tenta chegar à malga de marmelada, longe da sua altura, a secar no parapeito da janela da cozinha. 

Ah, se eu fosse grande!

Adulto, olhos raramente providos de brilho, queria voltar atrás no tempo, de tão pequeno ser o mundo.

Já não há malgas de marmelada no parapeito da janela.

Ah, se eu fosse menino!